
As duas na sala. Isadora dá uma pausa para respirar, momento de admirar Brenda ainda mais. Os segundos passam. O inconsciente se acendeu, típica performance da mente colecionadora de incertezas. A vida é um emaranhado de certezas? Há uma mala cheia e bagunçada jogada no mar. Uma mala vermelha. Lembranças desconexas, sensações esquecidas, verdades desconhecidas, emoções flutuantes… É como se filmes de Ingmar Bergman se confundissem com a realidade no cinema da memória.
Quem é Brenda? Uma profissional capacitada e o que mais? E o que há além sobre essa mulher? O que há detrás dos olhos de águia? Quais experiências de vida? Qual a profundidade das emoções dela? E quais os traumas que já foram carregados nas costas e depois descarregados no rio do autoconhecimento? Brenda tem na inicial de seu nome a letra de borboleta, e assim como uma também passa leveza, liberdade e encantamento. Isadora tem a intensidade na sua inicial e personalidade. Inconstante, está ali para conseguir entender a si mesma e organizar o seu caos.
Há algumas semanas começaram o processo de esvaziamento da mala que estava jogada no mar. Á priori, Isadora precisou resgatar aquela mala que havia jogado no mar para tentar fugir de si mesma. Imediatamente após ser resgatada, molhada e com um cheiro desagradável de passado, fora aberta rapidamente. Esvaziá-la não é tão fácil quanto parece. Isadora pega cada peça de roupa e mostra para Brenda que observa minuciosamente. Às vezes, mistura mais de uma peça. Algumas desbotadas, rasgadas ou cheirando a mofo. Cada peça tem um motivo, cada cor uma sensação. Lágrimas e sorrisos costumam surgir. Cada fragmento de lembrança é contado e assim analisado, interpretado e somado a outros fragmentos.
Freud, Jung, Lacan e as teorias. Brenda e a notória paixão pela profissão. Isadora e a fascinação. Desconhecidas dividindo e explorando a mais pura intimidade unilateral. Isadora consegue ser 100% sincera. É possível isso? Todavia, o coração está fluorescente porque o fascínio é neon.
Em uma quinta-feira fria e cinza, o dia nublado, a mala vermelha aberta no meio da sala, Brenda diz que não poderá continuar, pois mudará para uma cidade distante, mas que encaminhará Isadora para outro profissional. Atônita, Isadora reage com uma tristeza pungente, melancólica e desconcertada como as personagens dos filmes de Lars Von Trier. Esmagada pela ideia de ser esquecida, apagada e por nunca mais ver aquela no qual nutriu admiração, confiança e afeto. Não consegue falar uma palavra sequer, seus olhos falam. O silêncio se transformou em uma canção alternativa de alguma banda indie qualquer. A garganta deu um nó, a boca seca, a cabeça girando em círculos… A mala continua na sala, vermelha sangue, vermelha dor, vermelha amarga. Agora com uma nova peça para inserir e posteriormente ser esvaziada. Uma bota que deveria ser usada para fazer longas trilhas em meio a natureza, mas apenas foi usada para pesar a consciência e a mala de medos, bloqueios e confusões de Isadora. Fechou os olhos e respirou fundo. Por que a ausência dos outros machuca tanto? Por que tem tanto medo de ser abandonada? Por que a solidão é como um deserto para ela? Por que a efemeridade das estrelas cadentes lhe dá medo?
Isadora abriu os olhos e estava segurando a mala vermelha ao encontro de Brenda. Tudo continuava normal, nada havia mudado, tudo intacto, não havia transformação, não havia sofrimento, não havia ausência. E dessa vez ela conseguia enxergar com mais clareza e distanciamento. Nesse momento, a realidade era melhor do que sua imaginação fantástica. O vermelho da mala era a cor do autoconhecimento.
Iris Pongeluppi (27/10/1994) é mineira de Belo Horizonte, fascinada pela arte, escreve prosa e poesia desde a infância. Autora do livro de contos Intangíveis (2018) e do livro de poesia Veemente como o Sol (2025) pela editora Minimalismos, já realizou uma exposição de poesia e participou de algumas antologias literárias. Ademais, já publicou textos (poemas e/ou contos) na Revista Barbante, Revista Lira, Beco dos Poetas, Ruído Manifesto, O Odisseu, Variações, Oásis Cultural, Mirada Janela Cultural, dentre outros.
