A última luz do trovador, crônica de Eneas Barros

Ilustração feita por IA.



Pasárgada, de Manuel Bandeira, era o poema preferido de Zé Elias, que o declamava com a força propulsora que os seus versos provocam. Ele se transformava em um ator, a viver e a interpretar cada verso de Bandeira. Era tão intenso que, certa vez, tive o prazer de vivenciar um momento raro em sua companhia.

O céu estava acinzentado, naquele final de tarde. Nuvens carregadas anunciavam que poderia chover a qualquer momento. Eu andava a esmo pelo centro da cidade, de olho no horizonte. Se chovesse, para onde eu iria? Lembrei que meu amigo Zé Elias trabalhava no centro, a poucos metros de onde eu estava. Arrisquei visitá-lo. Por coincidência, encontrei-o na calçada do prédio, sozinho que nem eu e com os mesmos desejos: encontrar um lugar sossegado para bater papo e tomar cerveja.

Cumprimentei-o com um abraço afetuoso e fiz o convite. Iniciamos uma caminhada pelas ruas, assim como quem não sabe ao certo para onde vai, mas tem certeza de que sabe o que quer. Lembramo-nos da Rua Paissandu, onde haveria um bar. Deveríamos apressar o passo, pois a chuva se aproximava. Ele olhou para o céu, como se analisasse cada palmo das nuvens que se amontoavam até o horizonte, e disse: “É, está bonito pra chover”. Tomamos o rumo da Paissandu, conversando amenidades para matar o tempo, com a certeza de que nosso destino estaria por lá.

O centro de Teresina estava deserto. O fluxo de veículos aos poucos diminuía de intensidade. Nas calçadas, poucos transeuntes apressavam o passo no rumo de casa – o teresinense conhece bem quando vai chover. Ao chegarmos à Paissandu, percebemos de longe a larga entrada de um bar no meio do quarteirão, com mesas e cadeiras convidativas. Tomamos chegada.

Cinco ou seis mesas se espalhavam pelo salão. A imensa porta era sanfonada e permitia ampla visão de todo o ambiente a quem passasse em frente ao bar. Havia um balcão ao fundo, desgastado pelo tempo de uso. Entramos. Os clientes conversavam a meia voz. Sentamo-nos em uma mesa próxima à saída, mas discreta, protegida por uma parede ao lado que barrava o vento da chuva que estava por vir. Logo, uma senhora se aproximou com um pano na mão e começou a esfregá-lo na mesa. Perguntou o que queríamos. Fizemos o pedido: uma cerveja, que ela nos trouxe juntamente com dois copos americanos, por coincidência os nossos preferidos.

Aquela senhora parecia ser a proprietária do bar. Havia outra pessoa, do outro lado do balcão, que entregava os pedidos e preparava algum tira-gosto rápido: amendoins, queijo fatiado, azeitonas e torresmos. Blocos para anotação de pedidos ou cardápios não eram utilizados: tudo estava armazenado na cabeça dela, produtos e preços.

Depois de alguns cascos vazios, Zé Elias começou a declamar. Primeiro, A Moenda, do poeta amarantino Da Costa e Silva; depois, Pasárgada, de Manuel Bandeira. Outras e outras poesias iam sendo despejadas no ambiente, sempre com o furor nostálgico que a voz de meu amigo provocava.

Ouviam-se alguns trovões ao longe, sempre depois que relâmpagos riscavam o céu como flashes de uma máquina fotográfica. Começou a chover e simultaneamente faltou luz. A senhora que nos atendia espalhou algumas velas sobre as mesas, proporcionando ao ambiente uma atmosfera incrivelmente aconchegante, que nos acalmava a todos. Lá fora, a chuva caía com intensidade, banhando a cidade. Em um piscar de olhos, um córrego se formou, descendo suas águas às pressas para se jogar no rio Parnaíba e, de lá, serpentear até o Oceano Atlântico.

As chamas das velas geravam sombras curiosas, projetadas nas paredes do bar e seguindo o movimento dos clientes. Tudo era muito simples, as cadeiras, as mesas e o atendimento, mas ao mesmo tempo inesperadamente surpreendente. Eu arriscaria dizer que um ambiente daquele jamais se repetirá, por onde quer que eu ande. Havia uma harmonia espontânea, gerada pela cumplicidade silenciosa e respeitadora das pessoas presentes àquele momento. Restava no ar apenas a voz profunda de Zé Elias, a invadir nossos ouvidos, massagear nossa alma e acalentar nossos corações.

O bar parou para ouvi-lo, enquanto a chuva caía lá fora. Foi, para mim, um momento sublime, aquilo que a poesia e seu intérprete provocavam. Entre um poema e outro, palmas respeitosas ecoavam, batidas por pessoas que nunca havíamos visto antes, as quais se tornaram, naquele instante, admiradoras de um trovador que também nunca haviam visto antes.

A noite seguiu. A chuva diminuiu. Os trovões cessaram. Quando chamamos a senhora para encerrar a conta, tivemos uma surpresa: alguém já a havia pago, como um agradecimento ao momento fascinante que Zé Elias proporcionou a todos nós.

Algum tempo depois, uma amiga comum me ligou para informar que Zé Elias havia falecido. Levou consigo uma biblioteca inteira, acumulada em sua mente por anos de experiência e destruída pela finitude da vida. Uns poucos anônimos e eu tivemos a sorte de vê-lo em seu esplendor cultural, externando em uma noite chuvosa a simplicidade dos versos que com tanta intensidade declamava.

Voltei ao mesmo bar, certa vez, para conversar com a proprietária sobre aqueles instantes mágicos. A porta de ferro sanfonada estava abaixada, presa por um cadeado velho, pichada pelos vândalos, num claro sinal de que a poesia de Zé Elias, que um dia povoou a atmosfera daquele bar, havia se enterrado por detrás daquela porta e se fora sem deixar vestígios.



Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

Uma resposta

  1. A crônica é arte do corriqueiro, equivocadamente visto como banal desconsiderável. Este equivoco é provado, desarmado quando um texto literário, a crônica, se rende às “amenidades” da vida protagonizando-as em linguagem cuidadosa, provocativa, cheia de nuances, de insinuações que convidam o leitor à ação e à fantasia na leitura.

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