Alzira no quintal, conto de Eneas Barros

    Ilustração feita por IA.




Houve uma época em que morei na casa de meu avô Fontes Ibiapina, no bairro Cabral, em uma das esquinas da Rua Francisco Mendes. Era bem localizada, espaçosa, quintal amplo e cheio de árvores frutíferas. Do outro lado da rua, avistava-se a Boca de Pau – uma cadeia simples, que de vez em quando se movimentava com a prisão de arruaceiros.

Certa noite, ouvi quando a toada de Patativa do Assaré, a minha preferida, ecoou pelo bairro na voz de Luiz Gonzaga: “Setembro passou / outubro e novembro / já tamo em dezembro / meu Deus que é de nós…”. A voz sofrida, engasgada, entristecida, saía de uma amplificadora que, entre uma música e outra, mandava mensagens aos ouvintes: “Serviço de alto-falante Dragão do Mar, a voz da liberdade cruzando os ares com sua potência. Essa música vai para Alzira e quem oferece é um rapaz apaixonado”.

Alzira morava com nossa família. Era uma morena de tirar o fôlego! Deveria ter uns dezessete anos àquela época. Quando começava a escurecer, ela sempre ia até o jirau, em um quintal nos fundos da casa, para fazer um asseio. A área era iluminada apenas por uma lamparina, repousada no peitoril. Depois de se certificar de que não havia ninguém por perto, tirava o vestido, o estendia no varal e ficava do jeito que veio ao mundo, como fez naquela noite: completamente nua. Amarrava os cabelos, enrolava-os em um lenço, puxava um balde de água para a pedra lisa em que estava e começava a despejar cuias sobre um corpo bem torneado. Enquanto usava uma das mãos para se molhar, com a outra esfregava, suavemente, pescoço, seios, braços, axilas, quadris, coxas, partes íntimas, nada escapava ao seu asseio sensual. Era uma perdição!

Do terraço, ouvi o barulho da água caindo sobre a pedra e das batidas da cuia no balde de ferro. E pensei: “É Alzira!”. O coração de meus treze anos acelerou. Olhei para as outras crianças e nenhuma havia percebido, entretidas que estavam a brincar com fitas de filmes do cinema Rex.

Deixei o grupo. Sorrateiramente, mergulhei no quintal frondoso, através das sombras de suas árvores, e escondi-me por detrás de um largo pé de cajá, que ficava próximo ao jirau. Bastante cauteloso, lentamente inclinei o corpo para olhar melhor e tive uma visão do paraíso. Se existe um paraíso, tinha que necessariamente passar pelo corpo de Alzira. Eu sabia que ela era uma morena bonita, mas não fazia ideia de todo aquele deslumbre.

Lâminas de água banhavam seu corpo, desenhado na parede pela sombra dos movimentos irregulares da chama da lamparina, escondendo algumas partes e despindo outras. Qual seria a reação dela, se me notasse ali, escondido, apreciando sua beleza, pensando em cenas eróticas? Certamente, gritaria e se cobriria rapidamente com a toalha macia, acabando meus sonhos e me mandando direto para o calabouço, pagar meus pecados sob a palmatória de minha avó. Seria Alzira capaz de me denunciar? Eu me perguntava sempre. Quando passava a mão por sua parte mais íntima, o fazia de forma intensa, os olhos fechados como se revivesse cenas que vivera antes, lembranças gostosas que a deixavam tonta. E quando o asseio íntimo demorava mais do que nas outras partes, sem pressa, curvava-se para a frente, apertando os seios com os ombros. E eu ali, escondido, desejando mergulhar naquele pedaço de mal caminho. Eu pensava: “Ah, se eu pudesse ser aquela toalha que esfregava seu corpo…”. Voltei às pressas. A meninada não comentou minha ausência nem notou meu ar de satisfação.

Aquela era uma época mágica, ninguém tinha responsabilidade com nada, éramos uns garotos alegres, brincalhões, divertidos, cheios de imaginação. Houve uma vez em que alguém – que não me lembro qual de nós – percebeu que Alzira costumava tomar banhos durante o dia, usando o banheiro que ficava no centro do quintal, feito apenas de quatro paredes de tijolo, sem cobertura, uma pequena porta de madeira e uma torneira com uma mangueira, baldes e bacias de alumínio pelo chão. O piso era ladrilhado e havia pequena abertura na base de uma das paredes, por onde a água escorria para irrigar as bananeiras que meu avô plantava. Ao lado, havia uma mangueira frondosa, alta, de copa fechada, que pela grossura do tronco se percebia ser muito antiga.

O garoto que teve a ideia genial de ver Alzira tomando banho – e eu pensava que somente eu prestava atenção nela – sugeriu que subíssemos na árvore em silêncio e nos acomodássemos em seus galhos, quietos, para ficarmos na espera e assistirmos ao espetáculo. Eu acompanhava o grupo, que se arriscava por um grande momento de prazer. Para que Alzira não desconfiasse, escalávamos os galhos frágeis alguns minutos antes de sua chegada e aguardávamos ansiosos, mantendo um silêncio cúmplice. Mas deu-se que ela percebeu e gritou a plenos pulmões: “Seus moleques!” Nós descemos em segundos e ainda hoje não sei como um de nós não despencou lá de cima, tamanha a velocidade.

Confesso que tivemos, eu e Alzira, muitos momentos juntos, depois daquele dia em que fomos flagrados. Creio até que ela se sentiu desejada por isso e já havia notado o quanto eu me habituara a estar por perto, acompanhando seus gestos com discrição, ansioso por iniciar uma aproximação com maior confiança. De vez em quando, na escuridão do fundo do quintal, em horas sem ninguém por perto, ela me permitia um beijo, um aperto, e às vezes metia a mão no meu calção, como se me fizesse uma caridade. Depois, ela ria e corria para dentro de casa. E assim vivíamos, eu e ela, uma amizade cada vez mais íntima. E nunca ninguém soube disso.




Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

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