Andrey Luna Giron/Cinema: Béla Tarr – A arte de aprofundar a terra da vida



László Krasznahorkai (1954–), grande escritor húngaro, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2025. Seus livros serviram de inspiração para outro grande artista da poética terra da Hungria, o cineasta Béla Tarr, que dentre sua obras filmou Satantango (O Tango de Satanás – 1985) considerado um dos grandes filmes de todos os tempos, Ellenállás melankoóliája (A Melancolia da Resistência – 1989).

A Hungria, possui uma cultura única, enraizada em folclores, lendas, povos e mitos que permeiam sua história e que ainda se sente na alma e no coração do pulsar de seu povo, reverberando ainda hoje. 

Muitos artistas cristalizaram estas tradições ancestrais em obras de eterna força e beleza. Estão entre eles os cineastas: Charles Vidor, Miklós Jancsó, Alexander Korda, Emeric Pressburger, István Szabó e Zoltán Fábri. 

Os compositores Béla Bartók, Antal Doráti, Karl Goldmark, Joseph Joachim, Emmerich Kálmán, Zoltán Kodály, Joseph Kosma, Franz Lehár, György Ligeti, Franz Liszt e Miklós Rózsa.

Os escritores Zoltán Ambrus, Lajos Áprily, János Arany, József Bakucz , Bálint Balassi e László Krasznahorkai.

E os fotógrafos Robert Capa e László Moholy- Nagy.

Além de Béla Tarr, o grande artífice de um cinema tão único como a alma de sua terra e que por tal sinceridade de criação tornou-se genuinamente um precioso legado universal.

Tarr nasceu em 21 de julho de 1955 e faleceu em 6 de janeiro de 2026. Foi casado com Ágnes Hranitzky, também co-realizadora e editora de seus filmes.  Além de sua obra-prima Sátántangó, dois de seus outros filmes figuram na última edição da mais conceituada lista de melhores filmes de todos os tempos, promovida pela revista britânica Sight and Sound, em colaboração com 846 críticos e realizadores de todo o mundo: A Harmonia Werckmeister (Werckmeister harmóniák) e O Cavalo de Turim (A torinói ló).

Tarr tem ampla admiração de artistas e cineastas ao redor do mundo, como o brasileiro Walter Carvalho que em seu documentário Um Filme de Cinema de 2017, faz uma homenagem ao diretor húngaro, o entrevistando junto a outros diretores de renome internacional. Além do americano Gus Van Sant que reconhece nele uma forte influência.

“[Béla Tarr] é um dos poucos realizadores verdadeiramente visionários” disse Sant.
 
O ritmo dos filmes de Tarr aproxima-se de tal modo do ritmo da vida, que extende seu tempo ordinário, para enriquecer seu espaço, e aprofundá-lo. Tal desejo de aproximação e penetração neste ritmo cósmico do viver nos faz trazer à consciência a filosofia estética tão apregoada pelos gregos antigos, de que a harmonia do cosmos se expressa como números, como música e como arte. Se a genuína arte gera uma vida mais rica, bela e poderosa, a vida vivida no quotidiano das dores, das alegrias, das imensas belezas estendidas, também se cristaliza como apreensão de arte. 

Béla Tarr talvez tenha unificado em perfeita harmonia este belo paradoxo, Apolo-dionisíaco, de arte e vida.


Andrey Luna Giron é poeta, músico, maestro, artista plástico, fotógrafo e budista. Tem 5 livros publicados de poesia – Cósmicas pela editora Protexto, Claritas, Mistério AcesoDo Fundo Da Palavra e Terra Celeste pela editora Insight. Participou das Coletâneas 100 Anos da Semana de Arte Moderna e Amazônia em Prosa e Verso da AIAP Brasil. Gravou CD de música clássica contemporânea com composições próprias com o grupo Ethos Fractallis realizando concerto de lançamento no Museu Guido Viaro e distribuído nas mediatecas de Paris. Fez trilha sonora para cinema e tem várias composições orquestrais e para piano. Trabalha no Museu Guido Viaro onde faz recepção, monitorias e palestras semanais sobre cinema no Cineclube Espoletta deste Museu.

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