Chova, um conto de P3N4

Ilustração gerada por IA


As nuvens que se erguem, os raios que as costuram, anunciam o que vem do céu nascente – a linha entre dois mundos que convivem (o dos que olham para baixo e o dos que sonham voar).

A tempestade se anuncia. Não precisa ser discreta. Nunca se importou com isso. É tempestade. Mostra-se como é para os que dormem e para os que se desesperam. É tempestade alheia aos medos e desejos; é tempestade.

Os tons e o movimento, as luzes e os sons compondo-se em tormenta despertam no homem o temor do que não se pode controlar nem prever. E ante os olhos se agiganta, indiferente ao que rege cada sentença.

Indolente à abstração humana, a bátega se declara ao longe. Ergue-se como um véu intrépido a cobrir até onde os olhos chegam. Não necessita cautela. É tormenta que se vê, que vem tomar o céu e ocultar o sol dos olhos que ainda velam as próprias existências.

Fecham-se as vistas e todos os medos reservados em si passam a compor o que se aproxima. Transferência. Deixa de ser a agitação externa e passa a ser o que se ergue no íntimo com cores próprias e temores particulares. Uma saraivada de medos que passa a tecer a chuva forte que se aproxima.

Agora, diante do paredão tomando o mundo, são as ameaças devidas que nascem do âmago e contorcem-se enquanto o vivente tenta conter-se em si. O medo é meu, sou eu.

As nuvens tomam a alma, são mãos que se agigantam sobre todos com nervuras de raios e trovões esturram como feras raivosas. O frio brota de dentro abalando todo o corpo e tingindo as nuvens com medo sangue que enche a boca e impera nos sentidos.

Cerram-se os punhos, fecham-se os olhos, trava-se os dentes e se encolhe enquanto gotas caem sobre o corpo como flechas lançadas da muralha que estronda em violência. O corpo arde com a chuva o encobrindo. Não há forças para sair do lugar. Abraça-se aos joelhos, tenta encobrir os sentidos em presença do que se agigantou.

A chuva vai passando. Trovões rugem ainda, cada vez mais distantes. Não se veem mais os raios, mas não se abrem os olhos; não. Uma brisa vem e abraça o peito disparado. O corpo treme sem frio. A respiração finge normalidade enquanto assina que também somos feitos de medos.

 P3N4Nairton Pessoa do Nascimento; Formado em Letras/Português – UESPI; Especialista em Estudos Literários – UESPI; Professor de Linguagens – SEDUC-PI. Em processo de organização do livro de contos “Trechos de livros que não escrevi”. Alma inquieta e intuitiva, levado pela prosa e pela poesia, por vezes no espaço em que ambas se juntam.

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