
“No dia seguinte ao da mudança para a nossa pequena casa dos Campos, em Parnaíba, em 1896, toda cheirando ainda a cal, tinta e barro fresco, ofereceu-me a Natureza, ali, um amigo”.
É assim que Humberto de Campos abre o capítulo “Um amigo de infância”, em seu livro “Memórias”, editado em 1933. Eu sempre tive a curiosidade de saber mais sobre o cajueiro plantado em Parnaíba, em um terreno próximo à praça Santo Antônio, na rua José Narciso. Embora a cidade seja repleta de cajueiros em seus quintais, o que tornava especial aquele plantado por Humberto de Campos?
Na verdade, à primeira vista nada mais é do que apenas uma árvore a amenizar o calor equatorial parnaibano. Mas, se olharmos com atenção, há naquele cajueiro uma história de vida, um sentimento que durante anos acompanhou o poeta até que se fez prosa. Ele conta, com majestoso jogo de emoções, que certo dia, quando tinha 10 anos de idade, achou uma castanha brotando para a vida e foi estimulado por sua mãe a plantá-la no quintal de casa. E cresceram juntos, tornando-se amigos.
“O meu cajueiro sobe, desenvolve-se, prospera. Eu cresço, mas ele cresce mais rapidamente do que eu. Passado um ano, estamos do mesmo tamanho. Perfilamo-nos um junto do outro, para ver qual é mais alto. É uma árvore adolescente, elegante, graciosa. Quando eu completo doze anos, ele já me sustenta nos seus primeiros galhos”.
Essa relação de menino prospera. A árvore transforma-se, sustenta-o, diverte-o. O alto de seus galhos dá lugar ao mastro de um navio, de onde contempla o horizonte “onde o céu e o mar se beijam”.
Três anos depois, a primeira separação parte o coração do poeta, quando ele toma o rumo de São Luís, para mais uma luta pela vida. Mas ele não esperava que um dia uma simples correspondência de sua mãe o deixaria abalado, levando-o ao choro contido. Havia uma surpresa, acompanhada de uma carta que dizia:
“Receberás com esta uma pequena lata de doce de caju, em calda. São os primeiros cajus do teu cajueiro. São deliciosos, e ele te manda lembranças…”
De volta a Parnaíba, Humberto de Campos acompanha por mais um ano o fortalecimento de seu cajueiro, até que novamente outra despedida lhe parte o coração. Quando retorna pela terceira vez, descobre que o tempo o transformou em homem e deixou o cajueiro envelhecido.
“Os seus galhos ultrapassam a cerca e vão dar sombra, na rua, às cabras cansadas, aos mendigos sem pouso, às galinhas sem dono… Quero abraça-lo, e já não posso. Em torno ao seu tronco fizeram um cercado estreito. No cercado imundo, mergulhado na lama, ressona um porco… Ao perfume suave da flor, ao cheiro agreste do fruto, sucederam, em baixo, a vasa e a podridão!”
Mergulhado em tristeza pelas mudanças que o tempo provoca, o poeta não mais voltou a Parnaíba. Enveredou pelo mundo, como o seu cajueiro, “com os pés na lama, dando, às vezes, sombra aos porcos mas, também, às vezes, dourado de sol lá em cima, oferecendo frutos aos pássaros e pólen ao vento”.
Deixou o anonimato para se projetar como tipógrafo, escriturário e redator de jornal, até que chegou à Academia Brasileira de Letras, na sucessão de Emilio de Meneses. Humberto de Campos nasceu em Miritiba de São José do Piriá, litoral maranhense, que hoje o homenageia com seu nome por força do Decreto Estadual Nº 743, de 13 de dezembro de 1934, mesmo ano em que faleceu no Rio de Janeiro, aos 48 anos de idade.

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).