Coluna Guido Viaro: 10 poemas

Ilustração: db Waterman


 
Conforme nos afastamos de nós mesmos,
Encontramos fragmentos ocultos,
Brilhos rasgando a eternidades escura.
Engolimos ondas de ideias,
Sentimentos gerados pela explosão de estrelas,
Nada consegue solidez.
Cada realidade se esvai entre os dedos da alma.
 
Não há eu ou nós.
As brumas sem tamanho a tudo devoram.
Quem eu era torna-se o universo inteiro.
 
***
 
O agora, é essa poça de eternidade dentro da qual flutua o ser.
Enquanto for, ele, eu, ou nós, pouco importa, seremos o instante,
A projeção infindável de acontecimentos encadeados.
 
As cores e sombras encantam os sentidos,
Os dias perdem suas noites, e um sol calmo,
Que não nasce ou se põe,
É a lâmpada que ilumina as almas sem pálpebras,
E que nominam realidade, aquilo a que assistem.
 
 *** 
 
Passeando pela multidão,
Perguntei-me o que me separa dos outros.
Porque não me confundo,
E amanheço sendo aquele que não sou?
 
Abandonando medos e orgulhos,
Esquecendo os traços de glórias e os vapores amorosos,
Decido que não mais serei aquele que sempre fui.
De olhos fechados apalpo qualquer um,
Elejo aquele que serei,
Então me transfiro,
Esqueço nomes e sensações,
Engulo novo cotidiano e ele me apresenta o espelho.
 
As cinzas do fogo que não ardeu pairam entre as gotas da vida.
Os sabores são outros.
Mas eu sou o mesmo.

***
 
A brisa sopra as margaridas anônimas,
Fazendo hastes dançarem com a relva.
O dia derrama suas luzes sobre a paz.
A noite cai junto com uma pétala,
Que mancha de branco o coração da noite.
 
***
 
Sou um conjunto de sensações conectadas.
A liberdade é aquilo que não sou.
Contemplo o azul e o sol manchando o horizonte.
Então desejo o que não me pertence,
Porque tudo que sou possui limites.
 
Mas há um brilho em mim,
Talvez minha força mais profunda,
Que não aceita muros ou relógios,
E que deseja ser o instante esmagado entre céu e mar.
 
***
 
Antes do mundo havia esperanças fluidas,
Possibilidades invisíveis sem pressa de acontecer.
Todas as flores, homens e acontecimentos estavam contidas nesse ventre,
Que não era nada, pois apenas poderia sê-lo.
 
A grama cresceu por tudo aquilo que se transformou em espaço,
Isso aconteceu gradualmente conforme o tempo nascia.
O mundo passou a ser banhado pelo sol e pelos mitos.
 
As árvores e desejos condenaram o mundo ao amanhã,
E o homem, náufrago nesse oceano,
Tornou-se noite sem fim.
A eterna espera pela manhã.
 
***
 
No dia de seu casamento, dorme abandonado entre ventiladores estragados
E coleiras sem dono, a boneca com que a noiva brincou.
A chuva de verão faz com que o casal e os convidados,
Procurem abrigo sob o toldo da cerimônia.
 
De olhos fixos no telhado do depósito, a boneca aceita a goteira,
Que, após molhar seus cabelos, lhe escorre pelo rosto.
 
***
 
Há segredos ocultos entre os números,
Escondidos dentro de frações infinitesimais
Multiplicações que invertem direções,
Emprestam significados ao que não possui,
Encobrem por séculos verdades tímidas,
Que após reveladas derretem como sorvete.
 
Até que frações ainda mais extensas removam os véus que
Disfarçam aquilo que possui cheiro e forma de eternidade,
Mas que como tudo,
É perecível como a folha amarelada pelo outono.
 
***
 
Possuir é existir no descartável,
Amarrar-se ao torrão de açúcar solúvel,
Esperando que o brilho reluzente do acrílico,
Se transforme na permanência do desaparecer.
 
***
 
Tijolos de mim,
Janelas luminosas, quartos abandonados,
Um corredor que a nada conduz,
Portas abertas empurradas pelo vento,
Rangidos do dia borbulhando dentro das paredes.
Carpete sedoso que não conhece pés.
Unidade perdida entre ondas de cimento,
Repetições feitas de mar e ferro,
Esperando que a maresia das semanas,
Se transforme em décadas, e amarele as paredes,
Trazendo ao ar o cheiro pesado de passado,
Lambendo as paredes e descobrindo o gosto
Melancólico da felicidade derretida.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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