7 poemas de Guido Viaro

Ilustração: Gwendolyn Roth


 
 
Ser flor. Soprada pelo vento.
Aceitando o tempo,
Espalhando pétalas,
Misturando-as com a terra.
 
Enquanto a flor permanece,
Molhada pelo sol,
Inventando cores,
Existindo no mundo.
 
Ser e não ser,
Flor e sua negação.
Brotando para sempre,
Florescendo, nascendo.
 
Flor, luz, gota de orvalho,
Beleza manifesta,
Afirmação do existir,
Música da eternidade.
 

 
No alto da montanha nevada,
O sol molha o branco e derrete a noite.
 
*
 
A poça d’água espalha o azul do céu pelo chão.
 
*

Andrajos do dia, sombras feitas de chão.
 
*

O soldado caído molha o mundo com seu sangue,
As nuvens contam-lhe histórias,
Símbolos dançando com o vento,
Significando o que não se compreende.
 
Os olhos do soldado tem a cor do céu,
E agora, dentro deles, as nuvens congelam.
 

 
A glória tem cores sem nome,
Sensações antônimas espalhadas pela vida.
Tem formas estranhas engolindo desejos,
Sopros sutis sobre a pele suada.
 
*

Não há nada.
Ele experimenta isso.
Recorre ao espelho e a sensação aumenta.
Tudo havia começado com tristeza.
Mas ela foi derretendo, até sobrar apenas o que não existe.
 
Assim ele permaneceu: Vazio.
Até perceber que se tudo era nada,
Ele mesmo, que comportava a ausência,
Se distinguia dela por servir de suporte.
 
Estaria também se transformando em nada?
Ou seria um condenado a existir?
As duas possibilidades eram assustadoras.

Enquanto isso, o nada prosseguia sólido e perene.
Mas agora também contrapunham-se a ele as dúvidas
E suas muitas consequências,
Que multiplicavam-se com grande ansiedade.
 
E ela, a ansiedade, contaminava o homem, o ar rareava.
Mas se havia ar, ou pulmões que o reclamavam,
O reino do nada se afigurava cada vez menor.
Havia tanto, que talvez fosse essa a razão da angústia.
 
Um tanto que nada significa,
Ou cujo significado era desconhecido.
O espelho agora diz que o nada é pequeno,
E que mesmo ele pertence a tudo aquilo que é.
 
O homem confuso vasculha os cantos,
Adentra às sombras.
Tenta encontrar cordas escondidas,
Feitas para amarrar a realidade.
 
Só o que sobra é o vácuo seco.
Significados sem nome dançando em baile mudo.
Há também as grande gotas vazias,
Feitas para aniquilar tudo aquilo que é,
E que pendem dos beirais como chuva terminada.
 
Antes que caiam, ele mesmo derruba suas próprias lágrimas,
Que formam poça no chão.
Lá ele se enxerga, vê olhos fundos atravessados por medusas vermelhas.
Vê dores purulentas e dúvidas cravejadas de espinhos venenosos.
 
Então percebe, escondido entre as sombras,
Uma substância que emana de seus olhos e que desconhecia existir.
Examina-a, buscando palavra que a defina.
Ela flui, espalha-se, assume novas formas,
Mas mesmo diferente continua exalando o mesmo odor.
Que sem conseguir melhor nomear, define como: Nobreza.
 
Essa é uma parte de si.
Há também o vazio, a dúvida e todo o resto.
Uma massa desconhecida que flutua sobre o mar eterno,
Espalhando cores que são sombras,
Mas que nunca deixam de ser espelho.




Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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