Coluna Guido Viaro: 7 poemas

Maximilian Bungart/Unsplash 


A manhã invade as retinas,
A luz me condena ao dia,
Estou em ambos os lados das grades.
Flutuo sobre desejos e temores.
Nada me é estranho ou familiar,
Cheiros e sabores se confundem a reflexos,
Compondo uma palpável ilusão,
Feita de brisas, esperanças e desalentos.
 
*** 
 
Para cada luz a respectiva sombra,
A pedra fria já foi lava incandescente.
Como corais coloridos, o provisório se ergue dentro do infinito oceano.
E diante do nada, acorda o existir.
Assim, sobre as ondas, paira o horizonte.
 
***
 
Tenho direito a duas gotas de tempo,
Vivo dentro dessas bolhas iluminadas,
Elas refletem o sol que me faz brilhar,
E que consumirá a água que me envolve.
 
***
 
A dor é grande se for minha,
Os outros estão devidamente anestesiados,
Protegidos das agruras mais agudas.
Eu sou ferida aberta,
Latejando injustiças.
Incompleto.
Buscando o segundo pulmão.
 
Sou o que posso ser.
E isso nunca é suficiente.
 
***
 
O homem é um.
A ele corresponde sua imagem.
Única.
A sombra da vida tudo transforma.
Olhos separam-se dos desejos,
Dedos encontram medos.
Então esses e outros fragmentos chovem sobre o mundo.
 
Antes que a terra as engula,
Dentro das gotas vivas,
Brilham inteiras muitas réplicas do homem.
 
***
 
O que me separa do outro,
São todas as manhãs que não vivi.
Aqueles olhos alheios aos meus,
Guardam azuis e alaranjados com tonalidades ocultas.
Jamais perceberei o odor que a rosa exala,
Para todos que não sou eu.
 
O mesmo mundo que me mantém em pé, aparta-me do semelhante.
O dedo de Deus jamais encostará no de Moisés.
 
***
 
Amanhã é o destino.
Escuto a vibração dos dias,
Sinto a brisa molhando minha pele.
Permito a partida das expectativas.
De olhos fechados encontro as luzes da escuridão,
No espelho percebo as sombras do ontem.
 
Dou as costas para o reflexo,
E caminho na direção daquilo que ainda não aconteceu.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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