Coluna Guido Viaro: Aeroporto/Capítulo 2

Ilustração: Georges Allin

                                                                                                                                 
Ele acordou de uma noite revigorante, demorou-se um bom minuto entre piscadas e movimentos dos membros até reconhecer onde estava. Lembrava-se de haver sido retirado de um sonho cheio de prazeres, mas o enredo derretera assim que abrira os olhos. Acendeu sua memória e emendou os acontecimentos da noite anterior com aquilo que deveria acontecer daqui para frente, o Camboja, a perda do voo, a nova passagem, o escritório da empresa aérea.  
                                                                     
Assim que saiu de seu refúgio, percebeu que a vida voltara a povoar o planeta Charles de Gaulle. Centenas de pessoas esperavam sentadas por seus voos, havia também gente que caminhava carregando cafés em copos de papel, crianças impacientes tentando descobrir grandes segredos escondidos dentro de cinzeiros parafusados no chão, havia homens de todos os tipos de negócios e mulheres exibindo belezas de todas as cores, crenças e pesos. Havia uma mistura de cheiros e expectativas, pitadas de tristeza evaporavam diante das energias trazidas pelos passageiros, e de seus respectivos reflexos acontecidos na arquitetura do aeroporto. Aliás, ela, a arquitetura, parecia conseguir empurrar todos que estivessem parados, qualquer poça de águas mórbidas seria instantaneamente seca diante da pujança daquelas linhas e da consistência daqueles materiais.
                                                                                         
Malraux deu seus primeiros passos, confuso como um potro recém-nascido, encontrou alguns olhares interrogativos no instante em que abandonou seu refúgio. Percebeu quando um jovem tentou descobrir o que havia embaixo das escadas rolantes. Depois disso o mundo se esqueceu dele. Se decidisse sentar em uma daquelas poltronas e esperar até a morte, só seria perturbado quando seus odores começassem a atrair os outros passageiros. Caso descobrisse uma maneira de reter dentro de suas roupas os cheiros da própria desintegração, então só seria removido de sua poltrona quando a aeroporto fosse demolido para a construção de outro, maior e mais moderno. 
                                                                         
Desviou dessas conclusões, já sabia ser pequeno e insignificante, não precisava empilhar novos exemplos confirmatórios, talvez necessitasse do exato oposto, sentir-se grande. Talvez fosse por isso que gostasse tanto de aeroportos, e principalmente de voar, enxergar milhares de pequenos destinos escondidos atrás de melancólicas lâmpadas amarelas, enquanto ele, a consciência que sobrevoa, ocupava-se por alguns instantes, no espaço entre um e outro pensamento vadio, de sorrir, risos amarelos de escárnio, que julgavam e condenavam ao eterno nada, aqueles homens e mulheres que dormiam em suas casas pouco iluminadas. 
                                                                                                                                      
Malraux lembrou-se da orientação da funcionária, deveria se dirigir ao escritório da empresa, explicar sua situação, e contar com a boa vontade de quem o atendesse. Estava confuso, não sabia exatamente o que iria pedir. Nem ao menos sabia se teria dinheiro e vontade de prosseguir com sua viagem. Depois de pedir orientações, descobriu que o escritório se localizava em outro terminal, mas ele poderia chegar lá caminhando por dentro do terminal em que estava.   
                                                
Decidiu nada decidir enquanto não tivesse uma posição da empresa. Desfrutou de sua caminhada, representantes do mundo inteiro desfilavam por aqueles imensos corredores, as roupas multicoloridas das mulheres africanas pareciam um antídoto contra o branco absoluto das túnicas árabes, havia ainda o preto total das burcas, que se dissipava nas vestes coloridas de mochileiros, havia os carrinhos de bebê, empurrados por olhos orgulhosos, os homens de negócio e suas armaduras incolores e anódinas, havia os fascinados pela tecnologia, cujos corpos precisariam serem transportados por aviões, mas cujas mentes estavam embrulhadas pelo fascínio de cores e movimentos que são apenas representações numéricas. E havia também uma infinidade de gente comum, alguns deles entediados, outros exultantes com a quebra da rotina, talvez esperassem poder se transformarem parcial ou integralmente em outros, dissolverem-se em desejos, e enquanto ainda restassem formas de seus antigos seres, usar aqueles velhos olhos para compararem-se com seus semelhantes, e escarnecerem-se de suas mediocridades.  
                                                                          
Malraux engolia aquelas informações com deleite, observava também a imigrante africana limpando com determinação os cinzeiros do terminal, e a bela loira maquiada que trabalhava em uma loja de lembranças, e então, entre odores e cores, entre pedaços de palavras emitidas em vários idiomas, entre anúncios oficiais vazados pelo alto-falante, ele chegou a uma conclusão, nada que envolvesse a si mesmo ou a seu destino, nem ao menos uma definição sobre o que faria caso não conseguisse uma nova passagem para o Camboja: concluiu que a vendedora de lembranças e a faxineira eram a mesma pessoa. Por mais que as diferenças se acumulassem, e pudessem encher algumas páginas de um romance realista, aquelas duas almas lutavam para existir, não apenas pela existência concreta, composta pelo corpo e suas consequências, mas por uma existência mais ampla e enraizada, o exato contrário de não existir. E essa mesma pessoa era também o bebê, envolvido por uma manta bordada e carregado nas costas por uma Chola boliviana, era o punk envelhecido e acima do peso que caminhava olhando para pontos vagos e, em última instância, mesmo que isso parecesse um absurdo, era ele mesmo.    
                                                                       
Depois de concluir esse fato, Malraux não conseguiu retê-lo, ele evaporou-se, e as mesmas e outras pessoas e situações, agora serviam apenas como distração, cores e formas que se repetiam, às vezes despertando alguma sensação passageira, que se emendava com um desejo fugaz, somas que costumavam compor o dia, e serem descarregadas dentro de sonhos nascidos para serem esquecidos.  
                              
Ele então se lembrou que havia esquecido a razão pela qual caminhava naquela direção. Depois de perguntar, finalmente localizou os escritórios da empresa aérea. Apresentou-se e explicou seu caso para uma atendente que mergulhou em um computador em busca de respostas. Sem conseguir encontrá-las, recorreu a seu supervisor. O homem parecia haver sido fabricado sob medida para a companhia aérea, simpático, sorridente, escondia um leve sotaque de seu país de origem atrás de frases bem pronunciadas que pareciam haverem sido ensaiadas durante um longo processo de treinamento. Seus cabelos negros estavam rigorosamente penteados, sem que nenhum fio se rebelasse para o lado oposto. Sobre sua camisa branca bem passada o símbolo da Singapore Airlines parecia prestes a bater asas. O homem também recorreu ao computador e após alguns minutos, ao contrário de sua funcionária, saiu de lá com um sorriso.
                                                                                                          
Como Malraux já havia efetuado cinco viagens com a Singapore, a empresa, que segundo ele não tinha nenhuma obrigação legal, no caso de não comparecimento do passageiro, se solidarizará com ele e lhe oferecerá cinquenta por cento de desconto na compra de um novo bilhete para o mesmo destino, ou então poderá optar por viajar na classe Bussiness pelo mesmo preço de uma passagem na classe econômica. Malraux respondeu à oferta com um sorriso, mas apenas por educação, pois pensava nas duas mulheres que há alguns minutos atrás o haviam conduzido a uma conclusão. O gerente teve de tirá-lo de seu transe: “Senhor Malhereux, qual será sua escolha?”   
                                                        
Sem muito refletir, e esquecendo-se de mencionar o episódio do ônibus que o conduziu ao terminal errado, Malraux estendeu o braço com o cartão de crédito na ponta, e sem responder à pergunta foi questionado mais uma vez. Até responder que queria uma passagem igual àquela que havia perdido.  
                                                                                                                           
O gerente então imprimiu os dados de seu novo bilhete. O embarque seria somente à noite. Malraux teria um dia inteiro no aeroporto. Depois de meia hora sentado em uma poltrona decidiu que voltaria para casa, descansaria e no final da tarde retornaria ao aeroporto. Caminhou até uma das saídas para esperar por um táxi, chovia e a fila estava imensa. Voltou para dentro do aeroporto para esperar, sentado por meia hora percebeu que era quase meio-dia e a fome começava a aumentar. Se considerasse a possibilidade de dois engarrafamentos um na ida e outro na volta, decidiu que o melhor e mais barato seria esperar por seu voo noturno por ali mesmo.
                                                                                           
Como teria todo o tempo do mundo, caminhou sem preocupação pelos corredores, quando encontrasse um restaurante interessante pararia e almoçaria com tranquilidade. Experimentou uma leveza de espírito rara, atravessou longos corredores cheios de batalhões coloridos de pessoas de todos os tipos. Havia os tons gritantes dos turbantes das africanas, parcialmente neutralizados pelo branco das túnicas árabes. Havia o náilon avermelhado dos mochileiros, os anódinos tons de cinza dos ternos dos homens de negócio e o negro das burcas, desafiando um exército semi-colorido de gente comum, gente que carregava cores no sorriso, na doce expectativa do rompimento da rotina. Tudo isso estava mergulhado em alaranjados, vermelhos e azuis dos grandes painéis de acrílico iluminado. Cores por toda parte, cores que se moviam e compunham novos tons.                                                                                                                  
De tudo isso Malraux não tirou nenhuma conclusão, extraiu sorrisos, doces sensações que o lembraram o que sentia quando ouvia os primeiros acordes da Sexta Sinfonia de Tchaikovsky. O mundo transformado em ondas musicais, que se sucedem até que o movimento não mais seja necessário, uma paz que, após algum tempo, volta a se transformar em insatisfação. Lembrou-se de como o próprio compositor apelidara essa sinfonia: “Patética”. Então ele sorriu, ser patético talvez fosse enxergar melhor a própria condição e os caminhos por onde o mundo acontece. E se preocupar menos com as velhas trilhas batidas por onde todos caminham.
                                                                                                         
Quando deu por si estava em frente a um restaurante brasileiro. Um imenso painel fotográfico que misturava imagens da Amazônia com mulheres seminuas, gigantescas quedas d’água e coloridos pássaros tropicais, eram um convite para entrar. Foi recepcionado por uma moça morena com dentes muito brancos e um doce e musical sotaque. Sentou-se, e assim que examinou o cardápio, percebeu que os preços se aproximavam da exorbitância. Mesmo assim não teve dúvidas de que almoçaria ali, pagar tanto por uma refeição em um aeroporto não deixava de possuir algo de patético.  
                                                                                                  
Escolheu uma feijoada completa acompanhada por caipirinha. Assim que anotou o pedido a garçonete sorriu, Malraux leu em seu rosto algo que custou a definir, mas que quando o fez julgou haver bem encontrado as palavras: havia naquela moça uma pureza sensual. Ela exalava uma sensualidade sem fazer força para isso. Sua pele, mais escura que a das europeias e mais clara do que a das africanas, parecia um convite ao toque. Mas essa sensualidade não era necessariamente sexual, ao contrário, sua grande força era a graça. Ela era graciosa na maneira de falar, de sorrir, de andar.   
                                                                                                                  
Quando ela trouxe seu pedido, Malraux percebeu que um pouco dessa graça existia também na culinária, as carnes temperadas eram neutralizadas pela laranja e pela couve, a farinha e o feijão se misturavam em uma pasta que compunham algo estranho, talvez patético, mas delicioso. O limão açucarado da caipirinha também formava uma estranha combinação com a cachaça. As peças do quebra-cabeças não se encaixavam, mas isso não tornava aquele prato menos prazeroso. 
                           
Naquele instante, se alguém o abordasse desejando trocar sua passagem aérea para o Camboja por uma para o Brasil, não hesitaria. A garçonete se aproximou e perguntou se ele havia gostado. Sem saber o que responder, Malraux uniu as pontas dos cincos dedos de uma mão e os beijou. Sabia que um gesto como aqueles atrairia mais sorrisos do que qualquer palavra. E foi o que aconteceu.   
                                                                      
Ele não quis sobremesa e recebeu junto com a conta um novo sorriso. Ele também sorriu mesmo depois de ler a soma: oitenta euros. Não permitiria que algo tão irrelevante destruísse os belos momentos que vivera. Enfiou uma nota de cem dentro do pires e saiu do restaurante sem se despedir. Depois ficou pensando nos novos sorrisos que nasceriam de sua atitude generosa. 
                                                                                                              
Ainda faltavam muitas horas para o embarque, seu bem-estar poderia se espalhar à vontade pelos longos corredores, a humanidade inteira parecia ali representada, homens e mulheres usavam de todos os disfarces possíveis para parecerem diferentes. Malraux desconfiava que só havia um homem e uma mulher, e em última instância, um ser, a consciência que se descobre viva e desconhece a razão pela qual existe algo, ao invés do nada. Mas isso não era assunto para aquele instante, o importante agora era deleitar-se com o humano, passeando olhos por seus detalhes, encontrando suas sombras escondidas, tentando descobrir aquilo que cada um julga que o faz diferente de todos os outros.
                          
No quadro que anuncia as partidas localizou seu voo previsto para aquela noite. A palavra confirmado ainda não estava colocada ao lado do número do voo, mas aquilo também acontecia com todos os outros voos que aconteceriam a partir das 18 horas. A feijoada cobrava seu preço e parecia que todo seu sangue era utilizado para a digestão, sentiu um sono difícil de controlar. Por um instante temeu por seu voo, mas depois sorriu quando percebeu que seria um herói se conseguisse dormir durante as nove horas que o separavam de sua partida.   
                                                                
Caminhou até seu refúgio secreto sob as escadas rolantes. O encontrou ocupado por espaçosos mochileiros australianos que dormiam um sono profundo. Teve de se contentar com as muito concorridas e pouco confortáveis cadeiras de espera do saguão. Amarrou sua mochila na mala e posicionou ambas embaixo de sua cadeira. Adormeceu quase que instantaneamente, um sono confuso, descobria que na verdade seu voo para o Camboja deveria partir do aeroporto de Orly, e não do Charles de Gaulle, então tentava descobrir uma maneira de ir até o segundo aeroporto de Paris. Não havia ônibus, trens ou táxis, poderia apenas recorrer a caronas, mas ninguém estava disposto a levá-lo. Depois de muitas negativas se lembrou da garçonete brasileira. Voltou até o restaurante e antes mesmo de explicar sua situação, ela pediu para que ele se apressasse pois iria deixá-lo em Orly.  
                                                                            
No estacionamento ele foi surpreendido por seu estranho veículo, uma espécie de carro-ave. Um longo veículo que lembrava os carros americanos dos anos 50, mas decorado com plumas coloridas de pássaros tropicais. As plumas cobriam cada centímetro do carro, inclusive os pneus, e após examinar com cuidado a superfície sobre onde eram fixadas as plumas, ele chegou à conclusão de que não se tratava de alumínio ou nenhuma outra espécie de metal, era algo muito mais parecido com pele. 
                   
Partiram na direção de Orly, mesmo em situações de pressão e com muita pressa, ele reparou que por nenhum instante ela retirava de seu rosto o sorriso, fato que pela primeira vez não foi interpretado como algo completamente positivo. Após alguns quilômetros o carro para. Ela o informa que o combustível acabou. Ambos descem e ela pede sua ajuda, eles carregam para fora do carro uma pesada panela cheia de feijoada borbulhante. Então ela pede que a ajude a derramar o conteúdo da panela no tanque de combustível.  
                                                                                         
Com esforço enorme e algumas queimaduras nas mãos eles transferem a feijoada para dentro do tanque e conseguem dar a partida, deixando para trás um rastro de caldo de feijão e algumas orelhas de porcos.  
                                                                                                                               
Malraux acordou antes de Orly. O sonho não havia consumido nove, mas inacreditáveis quatro horas. Depois que voltou a si caminhou alguns passos e logo percebeu que a doce sensação de bem-estar havia ido embora. Sentia-se como costumava se sentir todas as manhãs, o que tinha aproximadamente a cor do terno de algum executivo. Percebeu então que estava prestes a viajar para um destino longínquo e exótico, e que precisaria de energias maiores do que aquelas que contava naquele instante. Injetou-se mentalmente aquilo que pode, alegrias vindas da infância, esperanças da adolescência, e um otimismo sem raízes que estava por toda parte e em nenhuma.     
                                                                      
Aproveitou para ir ao banheiro enquanto o check-in ainda nem estava aberto. Lavou o rosto e percebeu que parte do otimismo injetado já começara a derreter. Então inflou o peito e fez alguns alongamentos como os lutadores de boxe que estão prestes a subirem no ringue. Assim que saiu do banheiro deu de cara com um monitor que indicava as partidas dos voos, e ao lado do número de seu voo encontrou a palavra que tanto esperara: Confirmado. Instintivamente passou a mão pelo rosto como querendo se livrar de seus derretimentos.   
                                                            
Dirigiu-se o mais rápido que pode ao balcão de check-in, mas assim que chegou lá já havia uma fila de tamanho médio. Reparou nas pessoas que estavam à sua frente, o mesmo velho tipo, europeus entediados acima dos trinta e cinco anos, todos ricamente equipados com mochilas, bastões de caminhadas, óculos escuros e chapéus, as mesmas peles brancas avermelhadas pelo sol, os mesmos guias de viagem sendo folheados enquanto a fila não avançava.    
                                                                     
Foi quando Malraux reparou que não eram apenas os tipos que eram os mesmos dos que havia visto na noite anterior, algumas das pessoas eram as mesmas que esperaram pelo voo, depois pegaram o ônibus para o outro terminal e subitamente desapareceram. Reconheceu uma mulher sozinha na faixa dos cinquenta, vestida inteiramente em náilon alaranjado. Talvez fosse aquela sua última chance para descobrir o que realmente havia acontecido na noite anterior. Assim que fez o check-in e passaram para o portão de embarque, Malraux pensou em abordá-la e perguntá-la sobre o que havia acontecido na noite anterior. Assim que se aproximou dela, percebeu que duas lágrimas rolavam por seu rosto. Desistiu. Aquilo não tinha mais importância.    
                                                         
Aos poucos as cadeiras próximas ao portão de embarque foram sendo ocupadas, e Malraux reconheceu outras figuras que havia visto na noite anterior, mas a página já havia sido virada e muitas outras precisariam serem lidas. Ao contrário da noite anterior, parecia que agora o clima entre os viajantes estava mais descontraído, risadas explodiam entre palavras de entusiasmo, a barreira entre desconhecidos havia sido rompida, e havia aqueles que explicavam seus itinerários a outros. Ele decidiu não participar dessa congregação, escutava rabos de histórias e com esses restos compunha outras para consumo próprio. Mas parecia que o egoísmo, tão presente na noite anterior, havia, em parte, derretido, ou pelo menos sido encoberto com algum material fosforescente.     
                          
Afastado do grupo, como fez na noite anterior, Malraux observava aquelas pessoas de fora, apenas compartilharia com elas algumas horas dentro de um mesmo avião, não queria ser confundido ou misturado, suas cores eram outras. Não se julgava melhor ou pior do que ninguém, apenas um animal cuja espécie seria extinta com sua morte. E isso não era triste ou alegre. O escritor André Malraux considerava que uma das grandes perguntas da filosofia era: Por que há algo, ao invés de nada? Para Malraux, o viajante, assim que deixasse de existir, esse algo desapareceria, continuaria existindo para outros, mas para ele, aquilo já não teria a menor importância. Ele não seria mais ele, seria parte do nada, uma grandeza sem fins ou méritos.                                                                                           
Havia um menino passeando entre os passageiros, embalado em náilon colorido vasculhava cinzeiros e descobria novos mundos embaixo de cadeiras. Malraux torceu para que ele não se aproximasse, queria observá-lo à distância, como aquele que contempla os passos vacilantes do cabrito recém-nascido, e então espera até que a graça comece a brotar. O menino continuou brincando a alguma distância de Malraux, o suficiente para que pudesse ser examinado sem influenciá-lo com olhares. A velha percepção de que sobre o planeta só há um ser humano usando bilhões de disfarces diferentes, voltou a assolá-lo. A energia que movia aquela criança ainda não havia sido gasta de nenhuma maneira, então o que enxergava era o rio transbordando seus excessos. Em trinta ou quarenta anos, quando o solo começasse a sugar suas águas, quando canais desviassem seu curso, e a erosão assoreasse suas profundidades, talvez ele também escolhesse o Camboja, o Vietnã ou Uganda.     
                   
Mas se havia apenas um homem sobre a face da Terra, quem era ele mesmo, que ao contrário dos outros, conseguia perceber essa realidade? Havia algo que o distinguia? Não poderiam então, todos os outros, possuírem essa mesma distinção, transformando cada indivíduo em uma célula absolutamente única do grande corpo humano? As duas teses diziam o oposto e pareciam igualmente verdadeiras e falsas. E, assim como elas, poderia ser todo o resto, verdades aparentando mentira e também o contrário. Verdades que se comportavam como mentira em determinadas situações e voltavam a ser verdadeiras. Um universo estranho e sem bordas.  
                                                                                                                 
A mãe da criança a puxou pela mão, Malraux sorriu sem mostrar os dentes. O tempo, por outro lado, enfiava os seus, em tudo e em todos. E não era apenas estragos o que causava, destruía belezas e expectativas, mas também misturava realidades, a criança passava a ser parte de seus pais, e de todos com os quais teria contato. A maioria das pessoas interpreta o tempo apenas como destrutor, mas ele constrói cada vez que mistura, que infiltra um não com bocados de sim, que dissolve o sim em uma piscina de negação. 
                                                                                                               
A criança agora dormia nos braços de sua mãe, negava a energia demonstrada há poucos minutos. Sua impaciência transferira-se para aquela que agora o ninava, a mulher balançava a perna, levantava e abaixava o joelho enquanto o marido, que também recebera alguns respingos da energia do filho, caminhava de um lado para outro. A medida que o tempo passou e a noite avançou, as conversas entre passageiros rarearam. Pouco se conversava e quando se fazia, era entre casais ou famílias. Havia aqueles que desembrulhavam sanduíches ou equilibravam fatias de pizza entre os dedos. Outros esperavam ansiosos pelo jantar que seria servido no avião.   
                                                                                                            
Mesmo que o sistema de ar condicionado mantivesse a temperatura no aeroporto sempre constante, alguns passageiros aproveitaram a chegada da noite para se agasalhar melhor. Casacos foram retirados de mochilas e até cobertores colocados sobre os ombros. Todos, instintivamente pareciam se preparar para uma noite dormida a 11 mil metros de altura, em lugar incerto, ou talvez em lugar algum, porque a cada minuto essa localização mudava em quinze quilômetros. Ele então imaginou um voo em que em vez das mudanças relativamente consideráveis de espaço, o que mudasse fosse o tempo, a cada minuto de voo, um ano transcorrido. Em nove horas mais de cinco séculos. Então olhou ao seu redor e se perguntou quem daquelas quase trezentas pessoas teria coragem de pegar um avião daqueles. Ele mesmo, teria?  
               
A atenção do grupo foi chamada pelo alto-falante: “Caros senhores, informamos que em virtude de razões técnicas, o embarque do voo 7139 da Singapore Airlines com destinação de Phnom Penh ocorrerá através do portão 42 do terminal 2F. Colocaremos imediatamente ônibus à disposição de todos para o transporte até o novo terminal.”    
                                 
O burburinho tomou conta de todos, alguns sinalizavam negativamente com a cabeça, outros maldiziam a empresa aérea. Mas de todos, o mais preocupado era Malraux. Mesmo em silêncio, espantaria todos aqueles que prestassem atenção em seus olhos. Tinha sobre o rosto dois buracos feitos de dúvida e medo. Os passageiros começaram a se levantar, exatamente como havia acontecido na noite anterior. A mesma aglomeração aconteceu ao redor do portão de embarque. Enquanto não chegava sua vez, Malraux decidiu filmar a fila com seu celular.   
                                   
A criança agora dormia confortavelmente nos braços de sua mãe, e de todos os presentes, era a única cujos eventos anunciados não trouxeram consequências. Malraux a invejou, e se lembrou de seu refúgio sob as escadas rolantes, adoraria estar lá e não possuir horários e obrigações. A fila avançava lentamente empurrada por uma ansiedade que não possuía justificativa lógica, pois os ônibus só partiriam quando todos os passageiros tivessem embarcado.  
                                                                           
O primeiro ônibus partiu levando quase metade dos passageiros, o segundo levou quase todos que sobraram, Malraux ficou por último, junto com outras seis pessoas. Esperou sua vez com impaciência e depois de dez minutos percebeu que aqueles que haviam ficado para trás possuíam algo em comum, usavam roupas iguais, em um segundo exame percebeu que as roupas continham o emblema da Singapore Airlines, o pássaro alaranjado. Dos seis remanescentes só encontrou três. Alarmado perguntou pelo Ônibus que o levaria ao novo terminal. Os funcionários disseram que esperavam pela condução para o hotel.   
                                                               
Sem saber o que fazer, recorreu a esses funcionários, pediu para que o ajudassem a chegar a tempo no terminal em que deveria embarcar. Um deles chamou a central pelo rádio e explicou a situação. Depois ouviu muitas perguntas e entregou o rádio para que o interessado respondesse sem intermediário. Do outro lado da linha a funcionária parecia confusa e fez várias perguntas desnecessárias para aquela situação. Depois que ele respondeu a todas elas, pediu licença para consultar um superior. Enquanto isso a condução para os funcionários chegou e um deles chamava aquele que havia emprestado o rádio.  
                      
Malraux, que esperava para falar com o gerente, foi advertido que os funcionários precisariam partir e ele devolver o rádio. Ele pediu um instante e foi reprimido com um pesado suspiro. Finalmente o gerente atendeu-o e pediu novamente suas informações pessoais, a essa altura os três funcionários se acumulavam ao redor de Malraux, um deles tinha as mãos levantadas prontas para recuperar o rádio. Depois de mais alguns minutos o gerente informou-o que seu voo estava prestes a partir e que ele deveria se dirigir o mais rápido que pudesse ao terminal indicado.   
                 
O funcionário então arrancou com rispidez o telefone de sua mão. Sem perceber a agressividade com que foi tratado, Malraux pediu ajuda, precisava que o transporte que iria levá-los ao hotel o deixasse no novo terminal, caso contrário perderia seu voo. O homem olhou-o e demorou alguns segundos antes de responder, talvez tenha enxergado algo em seus olhos que o fez mudar de ideia, pediu para que Malraux o acompanhasse. Caminharam sem muita pressa até uma porta lateral onde havia uma van que os esperava. O homem que carregava o rádio entrou primeiro e demorou alguns minutos em conversa com o motorista. Depois saiu carregando um peso nas pálpebras. Não poderiam levá-lo, era contra o regulamento. 
                                                                                                                               
Ele voltou correndo para dentro do velho terminal, tentou localizar-se, descobrir as saídas ou o ônibus que une terminais, correu o quanto pode de um lado para outro sem descobrir nada do que desejava. Localizou o balcão de informações, mas ele estava fechado. Sua mala de rodinhas de tanto ser puxada com violência acertou seu próprio pé e sentiu que a unha do dedão sofreu, a umidade começou a tomar conta de sua meia. A essa hora o aeroporto tinha pouca gente e a maioria dos guichês de embarque estavam vazios. Ele tentou evitar os relógios com medo de aumentar ainda mais a pressão que experimentava. 
                                      
Assim que abriu os olhos Malraux custou a entender onde estava, só então foi informado de que aquele ambiente branco e antisséptico que o rodeava era a enfermaria do Aeroporto Charles de Gaulle. Então percebeu um grande curativo em sua testa. Havia desmaiado e batido com a cabeça em uma cadeira, nada de grave segundo a enfermeira. Mas ele precisaria ficar mais algumas horas em observação e pela manhã receberia alta. Adormeceu e acordou várias vezes, e a cada nova vez que abria os olhos demorava a reconhecer o ambiente em que estava.   
                                                    
Pela manhã, assim que saiu da enfermaria, sentiu-se estranho, parecia que o Aeroporto, de alguma maneira que não conseguia definir, havia mudado. Caminhou um pouco pelos corredores, mas logo se cansou de arrastar sua mala e carregar a mochila, sentou-se nas primeiras cadeiras que viu e permaneceu por lá um longo tempo, sem pensar em nada ou chegar à conclusões. Observava as pessoas mas elas pareciam indiferentes, não conseguia criticá-las ou descobrir segredos escondidos atrás de suas aparências. 
                                                                                               
Foi só quando a fome começou a apertar que lembrou-se de sua situação, havia pela segunda vez consecutiva perdido seu voo. Não sabia se teria dinheiro para comprar um terceiro bilhete, mesmo com desconto. E o desconto provavelmente não viria após um segundo fracasso. Não gostaria de enfrentar tudo aquilo de novo, pedidos educados, seguidos por pequenos surtos de raiva engolidos com dificuldade. Não suportaria principalmente se câmeras de segurança lhe fossem mostradas novamente provando que mais uma vez o erro havia sido seu. E depois, seu desejo pelas pedras de Angkor Wat minguara, pedras antigas pisadas por milhares de turistas poderia encontrar a alguns metros de seu apartamento. 
                                                                                                                             
Mesmo com todos esses argumentos em contrário, Malraux ainda não desistira formalmente da viagem. O que lhe preocupava era a imensa fome que o assolava. A primeira ideia que teve foi voltar ao restaurante brasileiro, mas a possibilidade de ser reconhecido pela simpática garçonete, e ter de explicar sobre seu ferimento na cabeça, fez com que desistisse. Optou pela impessoalidade de uma lanchonete de kebabs. Além do sanduíche, uma porção dupla de fritas espalhada pela bandeja de plástico e mergulhada em uma mar vermelho de catchup, trouxeram de volta sua capacidade de perceber o outro e transformá-lo em tese para seu próximo raciocínio.   
                                                                                                           
A mesma velha pessoa continuava assumindo todas as formas possíveis. Ele então se perguntou se o escritor que seus pais quiseram homenagear quando ele nasceu, se um homem como ele, que havia questionado profundamente a existência, a arte e a sociedade, havia percebido isso, que apenas uma pessoa habita o planeta Terra? Para observar os múltiplos disfarces, talvez não existisse melhor lugar no mundo do que um grande aeroporto. Pequenos exércitos de aeromoças, que se comportavam como Pinguins imperiais, arrastavam suas malas de rodinha e desapareciam dentro de portões vetados aos outros reinos animais. Elas normalmente eram acompanhadas pelos reis das selvas, pilotos engalanados, homens em geral manchados por gotas grisalhas que atravessam os corredores carregando pequenas valises de mão, e com olhares parecidos com os de meninos que, mesmo sem saberem jogar futebol muito bem, sempre participam das partidas por serem os donos da bola.  
                                                                                                                                     
Havia também as quase anônimas faxineiras, algumas pilotando pequenas máquinas de limpeza e outras apenas vassouras, esvaziavam cinzeiros e estavam atentas a tudo que pudesse ser jogado embaixo das cadeiras. Ele descobriu também as bonecas maquiadas, escondidas atrás de totens acrílicos, e sempre prontas a demonstrar a eficiência de batons e blushs, os homens uniformizados, que passeavam pelo aeroporto sem nada fazer e apesar de usarem a logomarca dos Aeroportos de Paris em suas camisas, ninguém descobria quais eram suas funções. Havia também os vendedores de Free Shop, os policiais, os trabalhadores da alfândega e muitos outros tipos de trabalhadores, todos eles formavam a grande selva que todos os dias era invadida por uma horda de bárbaros vinda de todos os cantos do mundo, gente de todas as idades, tamanhos e aparências. Uma civilização com vida curta, que desaparece engolida pelos grandes dedos de embarque após apenas algumas horas. Para em seguida ser substituída por outra geração, imensamente parecida com a anterior e com a posterior. 
                                                                                                                         
Assim que as batatas terminaram, Malraux ainda permaneceu ali, engolindo centenas, milhares de rostos, escutando restos de palavras, reparando na artificialidade das luzes, na temperatura controlada, na indiferença dos relógios digitais, e no percurso quase ritmado, matemático, dos passageiros, sentam-se, levantam-se, vão ao banheiro, caminham sem direção para voltarem a se sentar. Obedecerão a algum sistema oculto? O mesmo que mantém todas as células de nossos corpos funcionando em harmonia, mas que a cada quinhentos ou mil casos as desarranja de propósito? A mesma quantidade de garrafas Pet enfiadas na boca dos grandes cinzeiros prateados, o mesmo número de pessoas em uma determinada fila, ou de minutos decorridos sem que haja filas. Uma matemática misteriosa que amarra todos os acontecimentos, e que não se contenta apenas com os nós, mas que deseja transformá-los em significados.
                                                                                                                                 
Mas eles, os significados, pareciam objetos soterrados por milhões de toneladas de pedras, dissolvidos em outras dimensões, transmutados em sistemas sem lógica. Estava conformado em não descobrir significados, contentava-se em saber que existem, por isso continuou observando, ritmos, sinais, números, cenas banais, não importava, nada abriria qualquer porta isoladamente, era a combinação mágica de muitos fatores que faria as engrenagens estalarem e a porta secreta revelar seu conteúdo.
                                                                                                                          
Constrangido em permanecer por mais de duas horas após terminar a refeição sentado à mesa, ele caminhou alguns passos, sentou-se em uma cadeira mas depois permitiu que suas pernas se movessem lentas pelos longos corredores. Quando menos percebeu passava em frente dos escritórios de sua companhia aérea. Reconheceu o gerente sorridente que o atendera no dia anterior. Vestia a mesma roupa da véspera e provavelmente vestiria roupa igual no dia de amanhã. Por um instante achou que deveria entrar no escritório, explicar o que havia acontecido e esperar pelos argumentos do gerente para contrapô-los um a um.  
                          
Então percebeu que não tinha certezas ou vontades, e nessa condição nada conseguiria exigir. Malraux sorriu: todos estão sempre exigindo suas partes, mesmo que não saibam o que fazer com elas, ou se elas, de alguma maneira ou em alguma medida, o ajudarão ou a qualquer outra pessoa, a conseguirem o que quer que seja, a vencerem qualquer obstáculo que os faça melhores, ou mesmo, provisoriamente felizes. Todos sempre prontos a lutar, mesmo que elas, as lutas, não possuam sentidos, para nada sirvam além de encher horas vazias e esvaziar o sangue que lhes preenche as veias.    
                                                                                         
Ele sentiu suas pálpebras pesarem. Não queria adormecer em uma cadeira do saguão, então se dirigiu para seu refúgio embaixo das escadas rolantes. Felizmente o lugar estava vazio. Deitou-se e dormiu quase que imediatamente.    


 

Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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