Coluna Guido Viaro: Aeroporto/Capítulo 3

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Quando acordou já era noite. O aeroporto estava cheio, muitos voos internacionais chegam e partem nesse horário. Teve dificuldades para encontrar uma cadeira onde pudesse se sentar e ajustar as ideias, então apenas se deixou levar pelos longos corredores. As luzes que vinham de fora eram estranhas e estavam amarradas a uma melancolia que não gostaria de suportar. Desviou os olhos das portas e dos grandes janelões. Ao contrário, dentro do aeroporto, as luzes artificiais ofereciam doces mentiras, zonas de conforto pensadas para facilitar o consumo. E não eram só as luzes que trabalhavam nesse sentido, as cores e texturas completavam a caverna sensorial que excluía riscos e dúvidas.     
                   
Malraux passeou, encontrou produtos e, mesmo já havendo desistido das conclusões, amarrou-os à pessoas, depois descobriu sorrisos de todos os tamanhos, experimentou perfumes, agradeceu vendedoras, esbarrou em viajantes desatentos, pediu desculpas, cansou-se e se sentou em uma cadeira. Estava vazio de pensamentos, mas novamente seu estômago fez com que se movesse.     
                                                                                    
Uma fatia de pizza e um suco de fruta exótico. Depois um saquinho contendo uma mistura de nozes e castanhas. Para encerrar, uma casquinha de sorvete mista, baunilha e chocolate. Com o estômago cheio voltou a sua cadeira, o movimento apesar de intenso começava a diminuir. O painel que mostrava partidas estava esvaziando-se, havia um ou dois voos na madrugada e depois apareciam os primeiros do dia seguinte. Então ele se levantou apenas para fazer o que sempre fazia em aeroportos, comprar pastilhas mastigáveis de menta e saboreá-las em silêncio, guardando seu pequeno prazer como um tesouro secreto.   
                     
Decidiu que precisaria aproveitar aquelas últimas horas de movimentos para contemplar outros portões de embarque. Depois de uma parada estratégica no banheiro, prosseguiu com sua exploração. Logo na saída encontrou um grupo de aeromoças caminhando animadas para mais um voo. Elas sorriam e pareciam possuir uma espontaneidade que não combinava com uniformes, maquiagem e cabelos padronizados. Malraux foi a única testemunha de um instante que, se não fosse por sua presença ali, passaria despercebido, e acabaria não existindo. O grupo de quatro aeromoças sorridentes cruzou com uma moça, de idade aproximada igual à do grupo, mas que ao invés de sorrir, chorava copiosamente.                                                                                                         
Então foi sua vez de sorrir. Vocês já devem ter percebido que Malraux costuma sorrir quando julga que descobriu algo, mesmo que isso se transforme em mentira alguns segundos depois. Ele não sorria em solidariedade às aeromoças ou em desdém da moça que chorava, o fazia porque acreditava haver salvo da não-existência aquele instante de contraste entre lágrimas e sorrisos. Não que aquilo em si tivesse alguma importância, mas era uma semente que poderia brotar frutos. Ele mesmo seria, ou pelo menos deveria ser, a terra onde a semente arrebentaria sua casca para que a nova planta nascesse.     
                                                                          
Nesse instante o leve sorriso que estampava no rosto, desapareceu. Seus lábios até se moveram na direção contrária, demonstrando para quem o visse que aquela pessoa, se não passava por momentos de sofrimento, pelo menos descobrira para si caminhos bloqueados, e agora tentava encontrar estradas alternativas. O que aconteceu foi que ele descobriu seu grande problema, mas não a solução para ele. Percebeu que era um ávido e eficiente descobridor de sementes, as encontrava por toda parte, fato incomum, pois muitos homens e mulheres até mesmo desconhecem a existência dessas sementes, e quando as encontravam, as ignoram por completo. Seu problema consistia no fato que, apesar de seu conhecimento sobre sementes e de seu desejo de fazê-las florescer, ele nunca conseguir fazer com que um broto furasse a terra e mirasse seus ramos verdes na direção do céu.            
                                                                            
Sentou-se a uma distância suficiente para que com o rabo do olho continuar observando a moça que chorava. Ela ainda não enxugara as lágrimas, mas estava entretida com seu telefone celular, parecia digitar um longo texto. Foi quando Malraux percebeu como era bonita aquela mulher, ruiva, rosto harmônico e claro, ombros largos e seios volumosos e firmes. Os lábios dele se moveram novamente na direção de um sorriso, nada escandaloso, nenhuma ideia brilhante, apenas uma dedução em forma de aposta. Apostaria com qualquer um que aquelas lágrimas possuíam ligação direta com sua beleza.    
                                                                       
Prosseguiu, quando já estava distante, percebeu que a moça retirara da bolsa um lenço e enxugava as lágrimas. As lágrimas, assim como as pessoas, talvez também sejam sempre as mesmas, então a uma certa hora, é preciso deixá-las em paz para que outros delas possam usufruir. Ele atravessou um longo corredor cheio de escritórios de empresas aéreas, todos fechados ou se preparando para fechar, depois outro onde alguns passageiros faziam fila para o check-in dos últimos voos noturnos. 
                                                                                                                                       
Foi só então que percebeu que nada havia decidido. Então tomou coragem e fez sua opção, escolheu que nada decidiria. Que apenas permitiria que tudo acontecesse em seu ritmo natural. Olhou para o longo corredor e não conseguiu enxergar seu fim. A perda consecutiva de dois voos talvez indicasse que a era das decisões e dos números exatos, não fosse tão absoluta quanto parecesse. A vida não era construída com esses materiais. Ele sentiu que as pedras de granito branco em que pisava, nesse instante significavam mais do que as rochas esculpidas de Angkor Wat. Não sabia se era impressão sua, mas pareceu-lhe que a intensidade das luzes do terminal diminuíram. Percebeu bocejos e cobertores sendo retirados de dentro de malas. As últimas lojas abertas fecharam suas portas e os vendedores caminhavam ansiosos para suas casas, que normalmente ficavam a muitos quilômetros de distância. Malraux observou um desses vendedores, um homem pequeno, que parecia de origem indiana. Reparou quando ele cumprimentou outro vendedor, não possuía qualquer sotaque, provavelmente um imigrante de segunda ou terceira geração. Então ele percebeu para onde se encaminhava seu raciocínio, não queria aquilo: pintar retratos realistas de seu cotidiano pobre e repetitivo. Respeitou aquele homem, igual a todos, igual ao único homem.   
                                                                                                                                   
Sem esquecê-lo, Malraux desviou o raciocínio em direção oposta, ao invés das consequências, as causas. Assim que se percebia viva, a consciência, para buscar resolver sua questão essencial, percorria todos os ângulos do horizonte tentando encontrar uma explicação para si mesma. Como não conseguia encostar em nenhuma resposta sólida, nasciam os desejos, qualquer sensação passa a ser interpretada como uma possível resposta. O homem encontra desejos de todas as cores e consistências, mas dentre todos eles, o melhor é sempre o próximo, aquele que está longe do alcance de nossos dedos. As vidas escorrem como areia durante essa perseguição frenética. Alguns se agarram naquilo que julgam possuir um maior poder de flutuação. As águas escuras da vida corroem qualquer superfície, e no final, diante da eternidade, pouca diferença fará o nome do desejo a que você se agarrou, antes de só poder contar com a forças de seus braços e pernas, em uma noite fria e escura de um oceano sem bordas.    
                                                                                                                                         
Malraux molhou aquele início de madrugada com um sarcástico sorriso sem testemunhas. Depois se lembrou da figura do imigrante indiano e amenizou o sarcasmo com pitadas de uma solidariedade humana que desconhecia possuir. Seu pescoço foi envolvido por um nó, que por um triz não se transformou em duas lágrimas. Abriu sua mochila de onde tirou uma garrafa de água. Dois goles foram suficientes para derreter qualquer incômodo na garganta. Seu corpo foi se desfazendo de todas as amarras, uma paz esbranquiçada envolveu-o: “Estava exatamente no lugar onde deveria estar.”     
                                                                        
Ficou em pé. Teve vontade de ver o céu. Caminhou até um janelão no primeiro andar. As luzes da pista ofuscavam a noite. O céu estava encoberto por nuvens, mas não conseguiu enxergar o azul escuro, o preto ou o cinza, apenas um alaranjado resultante do reflexo de muitas combinações de luzes. Um avião taxiava, talvez o último antes dos primeiros voos do fim da madrugada. Pela logomarca conseguiu identificar a aeronave: Thay Airways, em 12 horas aquelas pessoas estariam aterrissando em Bangkok. Quais seriam suas expectativas?      
                                       
Belezas naturais, história, arqueologia, religião, sexo, o que mais? Dessa vez Malraux teve a certeza de que o melhor que poderia ter lhe acontecido fora não conseguir embarcar. Recusaria até mesmo a passagem para o Brasil entregue em mãos pela simpática garçonete.    
                
O aeroporto, a essa hora, havia se transformado em um imenso dormitório. Havia gente espalhada por todos os cantos, deitadas sobre o granito frio, estiradas sobre os carpetes dos portões de embarque, estavam enroladas em cobertores, cobriam-se com casacos, havia mães abraçadas a filhos pequenos e homens solitários que roncavam como se estivessem em suas casas. Poucos eram aqueles que estavam acordados, e neles parecia haver a inveja da inconsciência.       
                                                               
Havia também alguns trabalhadores do turno da madrugada, seguranças e faxineiros acostumados a trocar o dia pela noite. Uma mulher limpava cinzeiros perto a um homem cujo sono espalhafatoso faria qualquer um rir. Ela agia como se o lugar estivesse vazio, mecanicamente desvia de suas pernas e evita pisar em sua bagagem. Faz aquilo que a pagam para fazer, e avança na direção do próximo portão.     
                                        
Para não encontrar com seu olhar Malraux fecha os olhos, mas ele não tem sono. Escuta os ruídos do aeroporto que se assemelham a um constante e não muito alto zumbido elétrico, que eventualmente é reforçado pelo barulho de algum motor de carro acelerando nos estacionamentos. Sabe que essa paz terá vida curta e em pouco tempo uma nova leva de viajantes, que pouco se importam com os sonos alheios, invadirá o saguão de maneira ruidosa, esvaziando sobre aqueles corredores expectativas que julgam mais sólidas do que de fato são.      
             
Esse seria o momento mais indicado para um cochilo. Desistiu de seu refúgio e continuou caminhando em busca de outro. O longo corredor estava quase deserto. Os painéis publicitários luminosos com belas modelos maquiadas continuavam lá, acesos, em busca de testemunhas que pudessem desejar aquela imagem. Mas naquele instante só quem tinha olhos era Malraux, mas seus olhos não eram do tipo esperado pelos publicitários, para aqueles propósitos a nada serviriam. Eram olhos cheios de sombras escuras e cores sem definição. 
                                                                       
Ele escolheu um canto coberto por carpete junto a um balcão de embarque, sabia que em poucas horas teria seu sono perturbado, e nem tinha certeza de que conseguiria dormir. Muitas sensações mergulhavam, e disputavam espaço com pedaços de ideias ansiosas para encontrarem primeiro seus pares, depois os próprios descendentes. E dessa confusão aquática transbordavam gotas de luz, que mesmo sem testemunhas, escorriam pelos olhos de Malraux. Não eram lágrimas, mas brilhos parecidos com elas.  
                                                                                                                   
A essa hora todas as lojas de comida, maquiagem, revistas, estavam  fechadas, mas os anúncios luminosos prometiam que, em breve, a roda voltaria a girar. O mesmo valia para as filas vazias demarcadas por hastes de metal escovado, logo se encheriam de passageiros carregando suas bagagens, ansiosos e orgulhosos por seus imensos saltos através do espaço. Aquele esqueleto em breve seria preenchido com músculos vigorosos, pele sedosa e veias vibrantes, prontas para irrigar todos os cantos daquele organismo.   
                                                                                             
Ele então fez um exercício de imaginação, espalhou passageiros pelas filas, encheu as lojas com vendedores e fregueses. Criou funcionários do aeroporto prontos a dar informações e fez com que tripulações de voos prestes a partir se apressassem pelos corredores arrastando suas malas pretas de rodinhas. Depois disso lotou as cadeiras com mais passageiros e fez com que raios oblíquos de um sol suave mergulhassem através dos grandes janelões do aeroporto.  

Então ele mesmo, aquele homem que criara o aeroporto lotado, mas estava em um quase completamente vazio, fechou os olhos pedindo para que todos fossem embora, e que aquelas horas vazias permanecessem assim. Não porque a multidão imaginária impedia seu sono, mas por fazerem com que percebesse que nem uma ínfima parte de tudo aquilo, nem qualquer uma daquelas pessoas, nada possuía o menor vínculo consigo mesmo. Nenhum indivíduo, de fato, importava para aquele sistema. As filas seriam engolidas pelas bocas dos aviões e substituídas por outras com o mesmo sabor e consistência. Toda a gentileza, educação, todas as gratuidades e benesses que pudesse encontrar ali, tudo servia a propósitos que não possuíam relação consigo ou com qualquer outro indivíduo. Se desmaiasse e batesse a cabeça no chão, seria atendido por um serviço treinado para essas ocasiões, pessoas que seriam atenciosas até surgir o próximo chamado. Depois faxineiras limpariam as manchas de sangue e, em caso de morte, o corpo seria encaminhado para um outro departamento.    
                                                             
Todas as alegrias e solidariedades, todos os sorrisos e direitos assegurados, nada se referia a suas apreciações sobre o homem, a suas dúvidas sobre o existir, a suas grandes fraquezas e vergonhas, seções de si mesmo que ocupariam pelo menos seis das sete letras de seu nome. Todo o resto, a mecânica, o caminhar, respirar, construir rotina, poderia facilmente ser acumulado dentro da letra “X”, a última de seu nome. A única com importância suficiente para fazer o aeroporto funcionar.     
                             
Não havia ilusões, o aeroporto não ofereceria mãos prontas para afagar o animal selvagem que desconfortavelmente habitava seu peito. Muito pelo contrário, o castigaria se qualquer pelo ou detrito dessa fera escapasse e fosse derramado sobre o piso de granito ou a zona acarpetada. Era estritamente proibida a mera menção de que existia uma fera aprisionada. 
                                                                                                                                
E foi por isso que, de repente, Malraux, naquela madrugada que parecia que não seria engolida pelo relógio digital do teto do aeroporto, sentiu-se um estranho, animal extinto caminhando entre táxis e turistas, todos prontos a apontá-lo e fotografá-lo, depois finalmente capturá-lo. O único antídoto para essa perseguição seria o fingimento. Demonstrar que havia acreditado nas luzes e filas.   
                                                                                      
Quando acordou tudo havia voltado ao normal, a ansiedade e os sorrisos ocupavam corredores, transbordavam lojas, a fidelidade dos funcionários também poderia ser lida como funcionalidade, eles estavam lá, prontos para fazerem as engrenagens rodarem. E elas, as engrenagens, necessitavam da matéria-prima que a cada segundo atravessava as portas de entrada. Malraux passou a manhã inteira contemplando o funcionamento da máquina e o encaixe das peças. Os bois atravessavam as portas caminhando, pareciam despreocupados, depois formavam longas filas para inspeção, onde no final delas, cada um era obrigado a se desfazer de seus bens pessoais. Feito isso, ganhavam um passe especial para outra ala do aeroporto, longe dos olhos daqueles que não receberam o mesmo passe. Do outro lado formavam outra fila e eram inspecionados novamente, era nesse ponto que alguns diziam que partes importantes daqueles indivíduos desapareciam, que a metamorfose transformava aqueles seres em matéria carnal pronta para ser devorada pelas grandes bocas que existiam na ponta oposta de longos túneis sanfonados.     
                        
Malraux sorriu, depois desconfiou de que aquela não era uma ocasião para sorrisos. A máquina gritava suas instruções pelos alto-falantes, ele desistiu, não queria mais acompanhar o funcionamento daqueles longos intestinos feitos de alumínio e fibras coloridas. Sentiu que o seu próprio intestino rebelava-se, pedia liberdades. Depois de meia hora no banheiro voltou flutuando em novas energias, reparou nos odores coletivos emanados pelo aeroporto, uma mistura de borracha, vidro e produtos de limpeza. Desistiu do motor, de descobrir como os pistões empurravam energia suficiente para que a máquina se movesse. Quem se moveria seria ele mesmo.  



           

Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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