Coluna Guido Viaro: Aeroporto/Capítulo 5

Ilustração: Tommy Ingberg


Angkor Wat estava lá, suas pedras poderiam ser pisadas e o calor nelas acumuladas, sentido nas palmas de suas mãos. O céu tinha a força azul da infância, e o negror das torres centenárias era uma mancha valente combatendo as belezas transitórias do mundo. O ar ainda guardava um pouco da pureza da madrugada e o calor preguiçoso chegava aos poucos.  
                                                                                                                     
Os turistas carregados de chapéus, mochilas e câmeras fotográficas, avançavam como um exército que precisa ocupar território e tem de verificar portas e alçapões para se certificar de que não há franco-atiradores escondidos. As divindades em pedra são fotografadas como se o movimento de suas danças não fosse necessário. Esculturas de plástico em forma de garrafa lotam as esquinas dos caminhos entre os templos. A batalha prossegue, o exército avança para dentro de construções escurecidas pelo tempo, têm todos os tamanhos e possuíam muitas funções, o sol revela interiores, mas não é suficiente para iluminar cantos que serão responsáveis pelas mais sólidas memórias dos turistas.                             
 
Malraux está sentado ao lado de uma cabeça de dragão, aparenta não pertencer a nenhum dos exércitos, mas também não é alguém que desperte suspeitas. Aceita o sol que mancha sua pele e mantém protegidos apenas os olhos, escondidos atrás de lentes escuras. Carrega no ombro direito uma pequena mochila que aparenta estar vazia. Veste uma camisa florida aberta no peito, calças que descem até as canelas e sapatos largos sem meias.
                                                                                   
O calor aumenta e, na velocidade de um lagarto preguiçoso, ele muda sua localização, agora a sombra do dragão o protege do ataque direto do sol. Um pelotão poliglota de guias turísticos dispara datas, em um segundo ataque revelam como viviam aquelas pessoas que moravam em Angkor Wat. Malraux passa incólume, nenhuma informação foi capaz de atingi-lo. Se algo ali o interessava, e não tinha certeza disso, eram apenas as pedras, do jeito que estavam, recebendo o calor do sol e sendo pisadas por turistas e macacos. Quem eram, como foram e porque construíram aquele lugar, para ele eram questões irrelevantes.                         
 
Por volta do meio-dia precisou abandonar o dragão, não era o calor, mas sim a luz, que começava a invadir as frestas das lentes de seus óculos escuros. Caminhou alguns metros e, distanciando-se das avenidas principais, descobriu uma pequena habitação vazia, que pela modéstia, parecia não despertar o interesse dos turistas. Experimentou momentos tranquilos imerso em uma sombra que cobria o chão de pedra esverdeado por um tapete de musgo. Havia também pequenas poças d’água que pontualmente recebiam uma gota caída do teto. As luzes se modificaram e a única invasão estrangeira era um distante zumbido turístico, assim como o musgo e a gota d’água que caía, ele permaneceu dentro de seu refúgio, tranquilo, até ser avisado por um guarda de que o parque estava fechando e ele precisaria sair.                                                                                            
 
Assim que pisou fora da casa ele sentiu uma pontada nas costelas. A mesma que o fez acordar. Nas últimas noites dormira sentado em cadeiras feitas para descanso, com a movimentação noturna, havia um instante em que seu peso incidia sempre sobre as mesmas costelas que eram as responsáveis pelo encerramento abrupto de seu sono. Assim que ficava em pé a dor ia embora, mas o sono interrompido sempre cobrava um preço durante o dia. Cansava-se rápido e estava sempre mergulhado em um constante mau humor. Retalhos de seu sonho viveram ainda algumas horas, tentou conceder um sentido àquela história, mas novas imagens e sons gritavam ao seu redor, clamando pelo mesmo sentido. O sonho acabou esquecido e as interpretações adiadas.                                                     
 
O mau humor se espalhava por seu estômago, invadia o fígado e se materializava em um gosto azedo que contaminava sua boca. Teve vontade de escovar os dentes, mas sua nécessaire estava dentro da mala que abandonara. Não muito longe de onde estava havia uma farmácia, lá encontrou uma seção inteira dedicada aos dentes, pastas e escovas de todas as qualidades e preços. Indeciso, fez uma concha com uma das mãos, assoprou dentro e o cheiro que sentiu foi menos desagradável do que esperava. Optou por uma caixinha com pastilhas de menta e desistiu da escova de dentes.    
                                                                                            
Assim que saiu da farmácia sentou-se em uma poltrona logo em frente a ela, era bem macia e mais largas do que as em que havia dormido nas últimas noites. Passou ali o tempo suficiente para engolir todas as pastilhas. Depois de uns goles de água no bebedouro experimentou a mesma sensação de frescor que conhecera na infância enquanto ele e seus amigos, realizavam experiências parecidas no recreio das aulas. Foi surpreendido porque em outras ocasiões, o resgate de fatos vividos há muitos anos, costumava trazer algum incômodo emocional. Agora, não mais. O rio parecia seco. Aquela memória possuía o mesmo peso da recordação que tinha da refeição que fizera no restaurante japonês, ou dos modelos de escovas de dentes que descobrira na farmácia.                 
 
Mas essa não era a única mudança, passado algum tempo o frescor bucal desaparecia e nascia um peso estomacal que não se lembrava de experimentar quando era criança. Parecia que a sombra da sensação agradável que acontecera dentro de sua boca, agora se manifestava dentro do estômago, uma azia que parecia combinar com as luzes minguantes que vinham dos janelões, e com uma momentânea baixa do movimento no aeroporto, que parecia tomar um fôlego antes da partida dos voos noturnos. 
                                                                                                  
Ele usufruiu de suas dores sentado na poltrona confortável. Depois, a contragosto, obedeceu à sua decisão de não saltar refeições. Mesmo sem saber se era isso exatamente o que queria, decidiu que uma boa refeição poderia sepultar seus arrepios estomacais. A nova ala em que entrara oferecia muitas opções de restaurantes. Indeciso, optou por uma hamburgueria. Assim que o sorridente atendente entregou-lhe o cardápio, arrependeu-se. Frituras apenas aumentariam seu problema. Mas o embaraço era algo que temia mais do que as dores. Mesmo sem fome escolheu a combinação de maior tamanho, um grande hambúrguer recheado de queijo e bacon e acompanhado por um pequeno balde de batatas fritas. Havia ainda um copo de refrigerante que poderia ser enchido quantas vezes quisesse.                                                                        
 
Assim que o jovem atendente trouxe a bandeja repleta de comida, e decorada com bandeirinhas coloridas, Malraux não conseguiu conter um rápido acesso de felicidades que não possuía pilares de sustentação. Na bandeja ainda havia uma tábua onde estavam encaixados pequenos copinhos contendo molhos de todas as cores e sabores. Já na primeira mordida percebeu que havia feito a escolha correta. Os sabores, apesar de pouco sofisticados, injetaram em seu organismo uma energia que parecia estar em falta. O processo foi gradual, a cada vez que mergulhava uma batata frita nos potinhos de molho, parecia expulsar pedaços da indiferença em que vivera mergulhado nos últimos dias. A carne foi responsável pela expulsão da fraqueza e os açúcares do refrigerante trouxeram de volta a expectativa que vivera quando ainda esperava por Angkor Wat.                                                                                                                  
As cores brilhantes que saltavam para fora dos painéis publicitários pareciam fazer mais sentido, deveriam de fato existir em algum canto da natureza e não eram apenas mentiras contadas pelo homem para influenciar nas vendas de algum produto. Quando percebeu o bem-estar que se espalhava por seu corpo, diminuiu o ritmo em que comia, queria que suas veias trabalhassem tranquilas, conduzindo nutrientes aonde eles fossem necessários. Abasteceu-se de mais um copo de refrigerante, dessa vez optou por um que vinha na cor vermelha. Degustou-o olhando para as três batatas que haviam sobrado e para o resto de sanduíche onde se via uma fatia de tomate e um pedaço de bacon.                                             
 
Enquanto não tomava a decisão de por onde iria começar, observou a paisagem ao redor. Viu esperanças. Jovens carregando mochilas se preparando para uma viagem. Mas, pela primeira vez desde que chegara ao aeroporto, não as enxergou com desdém, elas eram uma semente arrebentando a própria casca para se transformarem em plantas, talvez em flores. A terra não era apenas aridez, mas também a sombra das plantas que um dia cresceriam. Reparou nas bochechas avermelhadas da jovem que carregava a mochila, e depois, quando ela colocou-a no chão, na coleção de bandeirinhas que demarcava os países que já havia visitado. Imaginou-a daqui a 30 anos, uma árvore frondosa com raízes bem estabelecidas, cuja casca rugosa carregará a marca do que já fora vivido.    
           
Deixou com que duas lágrimas caíssem dentro do pequeno mar avermelhado e carbônico que carregava nas mãos. As sombras só existem porque há fontes luminosas que as projetam. A pele de pêssego da jovem que estava ao seu lado seria transformada em cortiça, mas pela primeira vez em sua vida, essa constatação trouxe-lhe alegrias. Havia belezas escondidas nessa percepção, embaixo da cortiça moravam não apenas uma, mas várias peles de pêssego, e havia ainda o material invisível que amarrava umas às outras. Aquela moça, que agora sorria e tirava fotografias de suas companheiras de viagem, não sabia o que as décadas lhe reservavam. Mas fosse o que fosse, tivesse ela uma vida feliz ou não, havia esse grande segredo sendo construído. Essa parte secreta do universo, que desenha seus autorretratos pelos cantos para aqueles poucos que conseguem enxergá-los. 
                                                                           
Teve vontade de abordar a moça e dizer-lhe que sobre sua pele nasceriam maravilhas, e que ela não se assustasse com isso e lutasse para arrancá-las pois aquilo seria o que de mais maravilhoso teria na vida. Mas a cortiça a que se referia não era apenas aquela que marca a pele, mas também a que invade aquilo que você julga ser você. Ela modificará aquilo que você julga ser, o que acarretará uma imediata mudança em todo o seu ser, pois somos em grande parte aquilo que acreditamos ser. Somos isso, e a sombra disso. E essa sombra também ganhará contornos desconhecidos.     
                                                                                                            
A moça não tinha mais do que vinte anos e olhos puros como nascentes de água cristalina. Então, pela primeira vez em sua já razoavelmente longa vida, Malraux amou uma mulher. Amou-a porque ela era símbolo, em suas estrofes estavam escritas algumas palavras, mas muitas outras sobre elas pairavam, tentando nascer, espetando e contaminando com sua seiva outras estrofes. Em sua pele havia espaço para rastros de cometas, explosões de supernovas e fósseis de animais extintos.  
                                                                                                          
Finalmente ele fez sua escolha, optou pelas batatas. Enfiou cada uma delas dentro de um molho diferente e experimentou três cantos distintos do universo. Antes de voltar-se para o sanduíche, a moça desapareceu de sua vista. Provavelmente nunca mais a veria, mas isso não o impediria de a continuar amando. Reparou na sombra que seu copo de refrigerante projetava sobre a mesa. Sombra pálida originada de uma luz branca sem personalidade, mas mesmo ela, assim como uma infinidade de objetos, acontecimentos e situações sem importância, tudo isso, da mesma forma que as geleiras dos polos e os mares subterrâneos de Júpiter, também poderiam construir suas embaixadas e nomear representantes, na pele de sua jovem amada. Quando algo possui a capacidade de poder abrigar, mesmo de maneira simbólica, tudo e todos, esse algo deve ser amado.                                                                                                     
Depois dessa pequena conclusão truncada, Malraux sentiu-se à vontade para terminar seu sanduíche. Quando mordeu a fatia de tomate experimentou um arrepio na pele, talvez fosse o sol sob o qual ele havia sido cultivado. O arrepio invadiu suas veias e ele as sentiu iluminadas pela luz solar, o calor se espalhou por todo seu corpo. Assim que saiu do restaurante buscou a luz do sol, ele começava a ir embora, mas ainda era uma bola suficientemente vigorosa para fornecê-lo aquilo que procurava. Apesar da distorção que acontecia em razão dos grossos vidros, sentiu que as cores que via eram diferentes de todas as outras que havia dentro do aeroporto. Havia nessa percepção muito de racional, mas ela era ainda mais emocional, mas havia mais uma camada, aquilo era percebido de uma outra maneira que não conseguiu definir, e essa era a parte mais importante dela.                                                                                                                     
 
A paz foi tão grande que logo se transformou em sono, acordou quando já era noite, mas sem as dores no cotovelo que costumavam aparecer quando dormia sentado em cadeiras públicas. Acordou refeito, pronto para encarar uma nova manhã, mas a noite apenas começava. Decidiu caminhar, atravessou um longo corredor que conduziu a outra ala que jamais suspeitara existir, parecia um aeroporto africano, tanto funcionários quanto passageiros eram majoritariamente negros, e os escritórios das companhias eram todos de aéreas desse continente. Reparou na grande presença de soldados armados com fuzis acompanhados por cães farejadores.                                                                                   
 
Não sabia se era apenas uma autossugestão mas parecia que a temperatura havia aumentado. Uma gota de suor escorreu por sua testa confirmando a suspeita. O movimento era grande e havia numerosas famílias viajando, carregavam muita bagagem, eram malas, baús de madeira e até caixas de papelão lacradas com fita adesiva. As poucas cadeiras estavam ocupadas e parecia haver fila de espera para ocupá-las.                       
 
Malraux não quis seguir adiante, mas desistiu da briga pelas cadeiras e sentou-se no chão, ao lado de uma das portas de saída, mas dando as costas para ela. Percebeu que nesse terminal as pessoas conversavam muito mais entre si, mesmo aqueles que não se conheciam. Aquele era também o mais rico dos terminais quando o quesito eram cores. Elas gritavam, tentando se libertar da roupa das mulheres. Estavam também nas bagagens e até no layout do aeroporto, que reproduzia em grandes painéis a riqueza da fauna e flora africanas. Aquele seria um bom ambiente para observações, assistiu do primeiro andar à partida de alguns voos, depois desceu e caminhou entre os passageiros escutando trechos de conversas em muitas línguas. Os sorrisos explodiam pelos quatro cantos e grandes dentes brancos pareciam emprestar àquela gente uma impressão de saúde coletiva que não conhecera em outros terminais.                      
 
Com o calor que fazia ele pensou que talvez até pudesse dormir sobre o chão de mármore, se conseguisse um pedaço de papelão para a cabeça, já até escolhera seu refúgio. O papelão não demorou a aparecer, parcialmente enfiado em uma lata de lixo. Havia uma escada tradicional e embaixo dela um lugar muito tranquilo. Separou o pedaço de papelão que lhe interessava, mas antes de se instalar em seu dormitório decidiu comer alguma coisa leve.                                                                                                                      
 
Depois da refeição passeou pelo terminal, o movimento diminuíra, a maioria das lojas já estavam fechadas e ele pôde apreciar de perto as cores estampadas por todos os cantos. Até mesmo o monitor que mostrava partidas e chegadas possuía uma estampa vegetal, um retrato aéreo de uma floresta coberta por pássaros cor de rosa, e foi nele que Malraux leu os sonoros nomes das cidades africanas: Bangui, Bamako, N’Djamena, Nairobi. Se fosse poeta comporia algo com essas vogais que pareciam querer saltar para fora das palavras
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De repente deparou-se com algo que sugou toda sua atenção. Era o escritório de uma agência de viagens que vendia, além de passagens, excursões e outros produtos turísticos. O lugar, que já estava fechado, era ilustrado com uma grande foto de um grupo de brancos dentro de uma aldeia de pigmeus. Na parte externa do quiosque havia algumas explicações sobre os serviços oferecidos, inclusive aquilo que era descrito como: “Viagem ao centro da selva – um encontro com a etnia dos pigmeus.”                                                                                                                                
Ele finalmente encontrou uma cadeira, precisava sentar-se. Sua fisionomia mudara, estava inquieto, ansioso, vasculhou os próprios bolsos, retirou o cinto que usava sob a roupa e onde guardava as notas maiores. Depois, através do celular, consultou seu saldo bancário. Então ele sorriu, caminhou em círculos, desperdiçou passos e pronunciou uma palavra: Bangui. Essa era a capital da República Centro Africana, país para onde deveria embarcar se quisesse conhecer os pigmeus. O dinheiro, apesar de apertado, era suficiente. Dormiria embaixo da escada e assim que o escritório abrisse compraria sua excursão. Substituiria as pedras de Angkor Wat pela selva africana.                                                                                                     
 
O entusiasmo fez com que caminhasse em longos círculos, tomando cuidado para não sair do terminal em que estava. Sentia que o coração pulsante da floresta sussurrava seu nome, talvez ali estivesse a explicação para muita coisa. Voltou a sentar-se, o entusiasmo havia arrefecido um pouco devido ao cansaço acumulado. A natureza pulsante era algo importante, mas em um rápido exame de consciência, concordou que foram os pigmeus que o fizeram decidir pela viagem. Então mergulhou dentro de si mesmo, precisava descobrir a razão pela qual eles o convenceram. A explicação mais evidente era alguma espécie de perversão: gozaria de um prazer, ao assistir a um grupo humano que possuía quase todas as desvantagens possíveis, pelo menos aos olhos de um europeu contemporâneo. Mas não se contentou com essa explicação, esse tipo de prazer barato poderia ser encontrado na esquina de sua casa, ou em quase todas as esquinas do mundo. 
                                                             
Muito mais robusto era o desejo de pertencer a algo raro, de distinguir-se da massacrante similitude que produz homens e mulheres em escala industrial, e os faz pensar de maneira padronizada. Queria ser diferente a todo custo, mesmo que para isso precisasse se tornar pior do que os outros.  
                                                                                                                    
Essa segunda explicação pareceu ainda mais inconsistente do que a primeira. Então desistiu de justificar seu desejo. Os raciocínios que se seguiram foram claros e rápidos: quem justifica desejos é porque carrega culpas. Permitiu que seus ombros se aliviassem, apenas esperaria a abertura do escritório de vendas, compraria sua passagem e viajaria. Voltou para o refúgio que havia escolhido embaixo da escada, dobrou várias vezes o pedaço de papelão de modo que servisse como travesseiro.             
 
Estava cansado, seus pés latejavam de tanto caminhar, já havia se instalado quando viu que no banheiro havia a indicação de que se poderia tomar banho ali. Seria seu primeiro banho desde que chegara ao aeroporto. Não teve dúvidas e se dirigiu para lá, não teria com o que se secar e precisaria colocar a mesma roupa que vinha usando, mas o calor tornava o banho algo mais urgente do que uma refeição. Não havia ninguém no banheiro além de um homem adormecido atrás de uma escrivaninha. Além de cobrar pelo banho ele também alugava toalhas. Malraux constrangido, depois de muitos ruídos, decidiu tocar em seu ombro. O homem mal humorado, recebeu o dinheiro, entregou-o a toalha, e sem agradecer apontou para os chuveiros.  
                                                 
A ducha parecia uma armadilha de fios, alguns enrolados muitas vezes com fita isolante e outros desencapados a poucos centímetros de por onde a água caía. Mas nenhum deles parecia conseguir produzir calor, o banho morno, quase frio, era complementado por um fluxo independente, que descia do centro do jato de água e que, esse sim, era bastante gelado. De qualquer forma o calor não era necessário àquela temperatura. Ele levantou o braço e assistiu à água escorrendo por seu corpo, sentiu que algo importante estava acontecendo, livrava-se muito mais do que de sujeira ou suor, de uma certa forma Angkor Wat desprendia-se de sua pele e descia pelo ralo.                                                
 
Depois que se enxugou sentiu um prazer corporal que há muito tempo não experimentava. Se ele mesmo, fosse um dia, não possuiria nuvens, e muitas horas depois, mergulharia em um entardecer multicolorido seguido por noite estrelada. Antes de vestir as velhas roupas lavou os pontos mais suscetíveis ao calor. Já do lado de fora do banheiro o prazer que sentia prosseguiu e ele desistiu de deitar-se no chão sujo. Talvez faltassem apenas seis ou sete horas para o escritório de vendas abrir, ele descansaria em uma cadeira, talvez cochilasse um pouco, caso contrário teria bastante tempo para dormir no avião.                                                     
 
O sono, sempre que tentava aproximação, era afugentado por uma excitação que possuía raízes sólidas. O coração selvagem da floresta abrigava pequenos corações, inseridos dentro de minúsculos corpos , seres quase sem século, cuja condenação era dividida entre o tribalismo e a atração turística. Não nutria piedade por eles. Eles eram o que eram, também sobre si mesmo pesavam condenações que a outros olhos poderiam parecer injustas. Ninguém escapava delas, ainda menos aqueles que corriam de um lado para outro louvando a própria liberdade.      
                       
O que retirava seu sono não eram os pigmeus, mas seus companheiros de viagem. Quem seriam? Certamente uma esmagadora maioria de europeus. Provavelmente todos de meia-idade ou se aproximando dela. Afora isso sobrariam diferenças, culturais, financeiras, de interesses, talvez algum estudioso vinculado a uma universidade, outro mais interessado na floresta do que em pigmeus, mas todos pequenas fatias do grande queijo Roquefort europeu, a mistura do sabor com o apodrecimento. A sofisticação brotada do caldo da barbárie, que depois de florescida espeta suas raízes para fora da terra, e aos poucos, vai inclinando flores e frutos na direção da terra escura. Até finalmente encobri-la e transformar beleza em adubo. 
                                                              
A madrugada naquele terminal era absolutamente silenciosa, o calor já transformava o frescor que sentira em grossas lágrimas espalhadas por toda sua pele. Seu raciocínio foi perdendo velocidade, suas pálpebras ganhando peso, mesmo assim, quando amanheceu, ele não tinha certeza se havia dormido ou não. Provavelmente sim, pois lembrava vagamente de certas ideias que jamais teria enquanto estivesse acordado, relacionavam-se à ingestão de grandes quantidades de queijo Roquefort, uma espécie de campeonato, que coroava o maior glutão da Europa.                  
 
A vida voltara ao saguão, passageiros arrastavam suas malas, sorrisos de apreensão já estavam acordados, o mundo viveria novamente. O relógio marcava nove horas da manhã, o que transformava em certeza o fato duvidoso de haver dormido. O calor parecia maior do que nunca. Pensou em tomar mais um banho, mas decidiu que ele poderia esperar, o urgente agora seria comprar sua passagem para Bangui e a viagem para visitar os pigmeus. Dirigiu-se ao escritório que já estava aberto, então a curiosidade da noite anterior foi saciada. Um europeu vestido com uma camisa florida e bermudas estaca sendo atendido. Assim que se aproximou, ele pode ouvir a palavra “Bangui” e “pigmeus”. Como a conversa poderia se prolongar por alguns minutos, decidiu caminhar um pouco, talvez comer alguma coisa, e voltar lá depois.                            
 
Descobriu algo que não havia visto na noite anterior, um pequeno quiosque, composto por uma mesa e um fogareiro e que ficava embaixo de um colorido cartaz com ilustrações de todos os tipos de aves, galinhas, codornas, patos e avestruzes. Era um lugar especializado em omeletes, desde pequenos pratos, feitos com dois ovos de codorna, até um banquete feito com um ovo de avestruz. Ele sabia que em vésperas de embarques era melhor não arriscar quando o assunto era comida, por isso optou pelo tradicional, uma omelete feita com ovos de galinha. Quando foi pedir mudou de opinião, escolheu uma omelete mista, com pequenas porções de ovos de todos os tipos de aves, misturado a nacos de carne de algum animal que achou melhor não perguntar qual era.                                     
 
O prato era saboroso, mas assim que deu os primeiros passos sentiu que algo se movimentava, não apenas dentro do estômago, o ritmo avançava pelo esôfago e subia na direção da cabeça, nem suas ideias escaparam. Não esperou o alimento ser processado, recorreu ao banheiro o mais rápido que pode e vomitou tudo. A ressaca que se seguiu também não se restringiu ao aparelho digestivo, espalhou-se por todo seu ser. As luzes frias do banheiro, e que piscavam por falha de contato, combinaram com seu estado de ânimo, evitou o quanto pôde os espelhos, apenas lavou o rosto e continuou dentro do banheiro, em pé e de costas para qualquer superfície que refletisse sua imagem.                                                               
 
Uma hora depois passou em frente ao escritório onde compraria sua viagem para a República Centro Africana. O mesmo atendente conversava animadamente com outro europeu vestido de maneira parecida com o que vira antes. Mostrava-lhe um álbum de fotos onde pigmeus caçavam com suas zarabatanas. Havia uma cadeira dentro do quiosque para os clientes esperarem por sua vez, e o atendente convidou-o a sentar-se. Dessa vez não conseguiu escapar de um espelho decorado com representações coloridas do que deveria ser a selva africana. Descobriu seu rosto entre verdes desbotados e marrons interrompidos por riscos. 
                                                                                                                      
Parte de sua coloração estava de volta, talvez, para alguém que não fosse ele mesmo, sua aparência fosse perfeitamente normal, mas ele percebeu sutilezas, principalmente em seu olhar, inteiramente diferente daquele de pouco mais de uma hora atrás. A horta que enxergava possuía pés de entusiasmo murchos e brotos pontudos, que atravessavam a terra com vigor, e que ele desconhecia de qual espécie vegetal se tratava. Voltou a olhar para o atendente, que agora mostrava fotos de gorilas, que segundo ele, além dos pigmeus, são autóctones daquela região, e se dessem sorte, poderiam ser observados. Ele então observou a expressão de satisfação no rosto do europeu, olhava para as fotos dos gorilas com a mesma expressão que um pedófilo teria ao descobrir um bando de crianças nuas nadando em um lago. Instantaneamente Malraux percebeu que nada daquilo que o cercava combinava com sua horta espiritual que estava em processo de renovação.                                                                                    
 
Caso optasse por viajar, efetuaria uma mistura ainda mais indigesta do que a das omeletes. Levantou-se aliviado de um imenso peso, caminhou rápido, precisava se distanciar daquele escritório, do terminal, atravessou grandes grupos de viajantes empurrando seus carrinhos transbordando bagagens, mães carregando bebês em grandes lenços coloridos amarrados às costas, pessoas cheias de sorrisos e lágrimas que estavam ali apenas para despedidas, cruzou com gente entediada, para quem o tempo não passava, e que preferiam viver dentro de seus dispositivos eletrônicos, e apenas eventualmente tinham olhos para o mundo físico. Depois de tudo isso percebeu que o movimento diminuiu e que aquele terminal junto com tudo o que representou para ele, havia ficado para trás.   
                                                                                                                 
O que surgira no lugar era um longo corredor com esteiras rolantes. Ele acomodou-se no canto esquerdo e deixou que a esteira o conduzisse. Alguns viajantes apressados escolhiam o lado direito e caminhavam sobre a esteira. O panorama ao redor o lembrou o da horta imaginária cheia de plantas murchas ou desconhecidas e que, não sabia exatamente por que, lhe trazia uma sensação de abandono. E o panorama se resumia a isso, grandes janelas de vidro pintado de branco e que só deixavam entrar uma luz pálida. Ao redor apenas carrinhos de transporte de bagagem vazios, deixados lá por quem já não mais precisava deles.                                  
 
Depois de uma longa viagem, subitamente a esteira deixava de existir. Mas o que havia após ela ainda era um ambiente confuso, outro corredor cheio de portas de saída e carrinhos de bagagem abandonados. Ele desviou o olhar das portas de saída e prosseguiu como se estivesse enxergando em frente a linha de chegada de uma competição em que desejava mais do que ninguém vencer. Mas o corredor parecia tão longo que ele não conseguia distinguir o que existia no final. 
                                                         
Caminhou bastante até vencer a imensa distância. Não havia mais carrinhos abandonados porque não existia quem os pudesse abandonar. A nova ala estava completamente deserta. Salas cheias de cadeiras vazias. Atravessou duas delas, na segunda reparou no painel de embarque e desembarque desativado. Avançou mais um pouco até chegar em um grande salão onde não havia ninguém, apenas duas grandes esteiras destinadas a coleta de bagagem. Estava cansado e sentou-se em uma das esteiras. Acima dela havia uma placa eletrônica que servia para indicar a origem da bagagem. A placa piscava, mas estava em branco e nada indicava. Cansado de seu descanso, prosseguiu, localizou um corredor longo e estreito, também vazio, dessa vez não havia o conforto das esteiras rolantes. O calor diminuira, mas sentiu o cansaço acumulado da noite mal dormida. O corredor também não possuía janelas laterais e a única iluminação vinha das lâmpadas frias do teto.  
                                        
Sentiu-se sozinho, isolado, como se tivesse cometido um erro e cada novo passo o afundava ainda mais dentro dele. Por isso caminhava sem convicção. Sentiu vontade de retornar ao terminal anterior, mas a inércia o empurrava para frente. Aos poucos a iluminação diminuiu, a quantidade de lâmpadas era a mesma, mas a luz parecia mais fraca e pálida. A distância entre as paredes também parecia encolher a cada metro que avançava. Ao mesmo tempo o teto se aproximava de sua cabeça, e se levantasse o braço conseguia encostar o cotovelo nas lâmpadas.                                
 
Parou de caminhar e olhou para trás, não via nada além de alvenaria branca mal iluminada por luzes frias. Em frente o panorama era mais sombrio, paredes estreitas e baixas, mal iluminadas por lâmpadas que começavam a falhar. Precisou continuar, havia algo muito precioso que começava a rarear: o ar. Respirou fundo para garantir suas reservas, mas o ar, além de pouco, parecia poluído por odores envelhecidos. Precisou imprimir aos seus passos vontades que não possuía. Sua cabeça agora estava prestes a raspar no teto, e quando se aproximava de um reator de iluminação, precisava se abaixar. Seus ombros também não estavam muito distantes das paredes laterais, que a partir de determinado ponto eram feitas com cimento chapiscado e pareciam ansiar por arranhões.       
                                                                                                                        
Por prevenção passou a caminhar curvado, o que pareceu aumentar seu consumo do já pouco oxigênio. Grandes gotas de suor se espalharam por sua testa e desceram vigorosas na direção dos olhos. Para limpá-los acabou oferecendo o cotovelo ao muro áspero, não quis ver a mancha vermelha sobre a cal branca. Abaixou-se ainda mais para entrar em uma região em que não havia lâmpadas e a penumbra ficava mais fraca a cada metro que avançava. Seus olhos eram assaltados pelo suor que descia de todos os lados, mas agora não quis secá-los, apenas aceitou que enxergaria menos. O teto agora pedia que ele se curvasse até a altura que se tem quando de joelhos. Sua camisa, nas duas mangas, sentia o contato das pontas de cimento congeladas, por isso precisava caminhar o mais reto que pudesse.   
                                                                                                       
Então a penumbra deixou de acontecer, seus olhos puderam permanecer fechados, porque se decidisse abri-los, não faria diferença. A escuridão foi acompanhada pela necessidade que teve, de primeiro se ajoelhar, mas logo alguns metros à frente, deitar-se e começar a rastejar. O ar dava sinais de que dentro de mais alguns metros simplesmente deixaria de existir. Malraux usava os músculos abdominais para prosseguir avançando, erguia o tronco alguns centímetros e ganhava um palmo, batia com a cabeça no teto, engolia a última sobra de ar, raspava os ombros nas laterais, essa se tornara sua vida.  
                                                                        
Precisava prosseguir, agora não havia mais escolha. Não se tratava de heroísmo, mas sim de medo puro. Havia se transformado em uma serpente viajando pela tubulação de algum esgoto. Essa ideia ocorreu no exato instante em que, em razão da falta de oxigênio, colocou a língua para fora para conseguir respirar melhor, e sem querer lambeu o chão, que estava coberto por uma espécie de poeira grossa cujo gosto, imaginou, deveria ser parecido com o de dejetos humanos.                                   
 
Uma luz no fim do túnel molhou suas pálpebras fechadas. Seus ouvidos foram marejados por algum murmúrio não muito distante. Então ele experimentou o sopro vindo de um lugar diferente daquele. Quando menos percebeu havia atravessado um buraco, que lhe cobrou como pedágio algumas escoriações nos ombros e na testa, e sido despejado em um terminal aéreo para aviões de pequeno porte. Ainda deitado no chão examinou o buraco de onde havia saído e não acreditou como, com seu tamanho, havia conseguido atravessá-lo.                                                                            
 
Levantou-se e sentou-se em uma das poucas cadeiras do saguão. Sua camisa estava rasgada nos ombros e percebeu pelos reflexos em uma coluna coberta por uma chapa de alumínio que sua testa tinha manchas avermelhadas. Ao seu redor percebeu o sotaque anasalado do inglês americano, as poucas pessoas que havia no saguão eram saudáveis espécimes de homens acima dos sessenta anos vestindo bermudas coloridas e camisas polo. Carregavam músculos que já haviam sido mais vigorosos mas que ainda impressionavam, e que agora eram sustentados por superfícies acolchoadas de gordura abdominal. A maioria deles usava óculos escuros e bonés. Marlraux passeou pelo terminal, subiu dois lances de escada que davam acesso aos janelões sobre a pista e percebeu que todos os aviões ali eram pequenos, bimotores e até monomotores. Aquilo parecia um aeroclube, e aquelas pessoas eram muito mais parecidas com aficionados por aviação do que com passageiros.
                                                            
Ele percebeu que muitos deles se conheciam e entretinham entusiasmadas conversas sobre aviação. Por detrás de seus bronzeados espalhavam conhecimento técnico e experiências vividas à bordo de aeronaves. Os interlocutores ouviam em silêncio, mas pareciam ansiosos para que a história terminasse para que eles pudessem contar as suas. Malraux ainda estava mergulhado na piscina de prazeres a que todos têm acesso depois de enfrentarem e vencerem um grande desafio cheio de sofrimento. Permitiu que seus ouvidos engolissem horas de informações e experiências pessoais. Simpatizou com aqueles homens de espírito leve e roupas claras.
                                                                                                         
Subiu novamente os dois lances de escada e ficou assistindo aos aviões decolarem e pousarem. Reparou que a cor das aeronaves era exatamente a mesma das roupas daqueles homens que estavam ao seu redor, eram o azul-bebê dormindo e o verde-mar tranquilo. Os aviões partiam e alguns deles em meia hora estavam de volta, havia aqueles que carregavam paraquedistas, outros com instrutores de voo, mas também os que levavam dois homens ou um homem e uma mulher, quase todos usando óculos escuros. Estavam ali para verem tudo de cima, mergulharem dentro de nuvens, abrirem a janela e terem seus cabelos desarrumados por um vento frio, descobrirem o que havia além da próxima montanha e depois narrarem aos que ficaram em terra sobre as diferentes cores do sol quando enxergado de determinada altura.                             
 
Malraux reparou no olhar insistente de um homem em sua direção, parecia olhar para seus pés. Foi quando percebeu o motivo daquela inquietação, a harmonia cromática havia sido rompida. Uma gota de vermelho carne escorrera por seu ombro e manchava o chão feito de lajotas beges. Discretamente, com a ponta do pé, tentou desfazer a pequena poça que havia recebido uma segunda gota. O resultado foi desastroso, o que antes só poderia ser percebido por olhos bem treinados, agora conseguia ser visto por todos, uma mancha avermelhada que era diferente de tudo o que havia ao redor.                                                                
 
Envergonhado, recorreu ao banheiro, mas como o terminal era pequeno os banheiros não eram evidentes, teve de perguntar, e um homem de má vontade que estava atrás de um balcão de recepção, entregou-lhe uma chave e pediu que a devolvesse assim que saísse. No espelho fez um levantamento de todos seus ferimentos, o da testa era pequeno, o sangue se espalhara bastante mas o corte tinha menos de um centímetro de comprimento. Lavou o sangue coagulado e colocou no rasgo um pequeno quadrado de papel higiênico. Já nos ombros a situação era bem pior, dois cortes de tamanho e profundidade razoáveis. Com cuidado lavou a região e conseguiu extrair dali pontas de cimento. O papel higiênico era logo engolido por manchas vigorosas de um vermelho, que de tão vibrante, deveria ser mesmo a substância que faz a vida continuar existindo. Desperdiçou meio rolo em suas tentativas de acalmar o próprio organismo, até que finalmente o fluxo começou a perder força. Quando estava com o serviço quase completo começou a ouvir batidas na porta. Colou dois grandes pedaços de papel higiênico nos ombros e abriu a porta. O homem pediu-lhe a chave e entrou no banheiro para verificar se não havia estragos. Reclamou do sangue na pia e no chão. Malraux abaixou a cabeça e saiu.   
                                                             
Precisava comprar uma nova camisa, mas não havia lojas naquele pequeno terminal. Localizou o buraco na parede por onde havia entrado e rumou na direção oposta. O caminho prosseguia através de um corredor modesto com piso de tábuas envernizadas, umas poucas cadeiras soltas eram os únicos objetos no caminho. Logo em seguida havia uma curva à esquerda, depois disso duas escadas rolantes modernas e cheias de gente davam acesso ao que parecia ser um grande centro comercial. Ficou feliz, pois era justamente de um lugar como aquele que estava precisando. Em meia hora carregava uma sacola contendo a camisa que iria substituir a sua. Voltou ao banheiro, que agora já era igual aos banheiros dos grandes aeroportos. Teve dificuldades para extrair todos os pedaços de papel que ficaram grudados a seu sangue coagulado. Renovou a camada de proteção, mas depois arrependeu-se, em um terminal como aquele certamente haveria uma farmácia onde poderia fazer um curativo de verdade, desinfetando o ferimento e o cobrindo com gaze. Mas como o pior já havia passado, julgou que não teria problemas. Depois das camadas de papel higiênico, tirou a camisa da sacola e a vestiu.
                 
Foi só então que reparou na estampa que carregava no peito: uma catedral gótica sendo engolida por uma imensa fenda que se abria no chão. Agora era tarde para arrependimentos, em um espelho que havia ao longo do corredor, verificou se pelo menos o chão que engolia a catedral não seria molhado por manchas de sangue que poderiam alterar a simbologia da ilustração. Mas isso não aconteceu, seus ombros permaneceram secos e um pouco mais largos do que o normal. Enfiou a velha camisa rasgada em uma lata de lixo e continuou caminhando. Ao seu redor tudo o que havia era comércio. Sob todas as formas possíveis, ele era as placas luminosas, as vitrines, uma infinidade de produtos, outra de vendedores, o comércio também era os olhos ansiosos dos compradores, era cheiro de comida e o som discreto das máquinas de cartão, era as luzes coloridas e a alegria daqueles que carregavam sacolas cheias de compras.  
                                                                                                             
Ele sentou-se em um banco e logo um panfleto com algo à venda lhe foi entregue. Aquilo era um oceano, e o dinheiro, a água. Precisava respirar. Caminhou até deixar o centro comercial para trás. Depois desceu escadas rolantes, atravessou um longo corredor cheio de gente apressada e desembocou novamente em um terminal    movimentado. Desviou de malas, pessoas distraídas, carrinhos de bagagem abandonados, depois encontrou uma sala de espera com apenas uma cadeira vazia. Sentou-se, escutou histórias nas duas línguas que compreendia e sons que, em outras línguas, pareciam dizer exatamente o mesmo daquilo que compreendera. Depois reparou em sorrisos, em beijos de namorados, percebeu o carinho com que a mãe embalava a criança adormecida. Uma suspeita necessitava de confirmação, por isso ficou em pé e sua cadeira foi logo ocupada. Sim, à primeira vista ele parecia a única pessoa sozinha naquele ambiente, todos estavam acompanhados por alguém. Era claro que sempre há homens de negócio, cuja única companhia que admitem é de seus celulares e laptops, mas naquela hora eles estavam ausentes.                                       
 
Sem lugar para sentar-se, apenas encostou-se em uma coluna e continuou observando as pessoas. Sentiu que algo se movia dentro de si. E o fazia com intensidade. Voltou a caminhar e dessa feita, pela primeira vez desde que iniciara sua jornada, não teve medo de olhar para a direita e encarar as portas de saída. O que viu foi uma longa faixa de piso de concreto manchada por um sol que começava a perder suas forças. Deixou-se lá, assistindo à mudança de cores, os amarelos dando lugar aos azuis-escuros, até que a noite não permitisse enxergar mais nada. Engoliu uma melancolia que quase lhe arrancou parte da garganta. Bebeu água torcendo para que ela não se transformasse em água salgada.                                           
 
Conseguiu amainar as forças do pêndulo que se mexia dentro de si. Mas ele ainda resvalava em superfícies sensíveis. Foi com o estômago ainda revolto que adentrou em um restaurante colorido de alguma rede internacional: comida fantasiada de felicidade. Escolheu o mais colorido e infantil dos pratos, o garçom, um jovem imigrante asiático, em um inglês padronizado, sorri de uma maneira que poderia possuir muitos significados, ou nenhum. Por um instante pensa em inquiri-lo sobre o sorriso, mas desiste quando ele, ao trazer o prato, traz estampado no rosto, o mesmo sorriso.                                                                                                               
Os sabores eram básicos, como o roteiro de uma comédia pensado para extrair risadas sobre situações recorrentes do cotidiano, mas dentro da proposta, a comida era farta e muito bem feita. Coroou a refeição com um grande taça de sorvete decorada com cerejas e com direito a um minúsculo fogo de artifício que espalhava inofensivas fagulhas assim que era servido. Nesse instante o sorriso do garçom pareceu-lhe mais desdenhoso do que nunca, mas isso já não tinha importância. Mergulhou em seu baile de açúcares, arrastou cadeiras com seus passos alegres, embriagou-se com a cerejas e de olhos fechados apaixonou-se enquanto devorava a camada de chantilly. Pagou pela refeição com a satisfação de uma criança que sai da noite de Natal carregada de brinquedos. Quando se levantou percebeu que os açúcares ainda trabalhavam em suas veias e ainda teriam muito felicidade para espalhar por seu corpo.                                           
 
Lembrou-se vagamente daquele homem que há pouco tempo atrás assistira à morte do dia e, quase em segredo, sussurrava para si mesmo, analogias sobre outras mortes possíveis. Permaneceu um longo tempo de cabeça baixa mas mantendo restos de um sorriso no canto dos lábios, então rompeu-o com uma frase em voz alta: “Por maior que seja a tempestade, sempre, acima das nuvens, o céu é azul”. Depois de pronunciada a frase, o sorriso aumentou, aquela conclusão era digna de um almanaque destinado a moças da década de 1940. O sorriso se transformou em uma gargalhada que chamou a atenção de outros viajantes. Quando percebeu isso, a intensidade das convulsões de riso dobrou, ocasionando um princípio de falta de ar. As pedras de Angkor Wat o ajudaram a se acalmar, imaginou-as sob a luz do luar, vazias de turistas, desafiando os próximos séculos.                                                                                   
O imenso terminal, cujo idioma falado era o inglês, contava com vários grupos de escadas rolantes e foi embaixo delas que ele decidiu passar a noite. Antes de adormecer revisitou seu longo dia, especialmente as últimas horas, havia saltado de um extremo a outro, visitado dores e flertado com alegrias, tinha também experimentado todas as graduações intermediárias desses dois estados. Então voltou a sorrir, dessa vez discretamente: se precisasse escolher entre todos esses estados de espírito, incluindo as graduações, aquele que mais combinaria consigo, a resposta era estranha: nenhum. Não se sentia parte de nenhum deles, ao contrário, a todos preferia distância. O que entretanto o encantara era o movimento, a possibilidade de atravessar distâncias emocionais. Mas o movimento não o encantava apenas no tocante a emoções. Precisava assimilar o novo, deixar para trás o velho novo, e viver o presente com olhos atemporais. 
                                                                                                               
Talvez esquecer-se completamente do tempo, permitindo com que o movimento nublasse suas cores. Quando o sono batia à sua porta e suas pálpebras pesavam como grandes aviões, ele se levantou, foi ao banheiro e lavou o rosto. Aquilo não era hora de adormecer. Encontrou um bar aberto e pediu dois cafés. Pedira uma trégua ao sono e o pedido parecia estar sendo estudado por algum órgão regulador. Depois de beber o primeiro café foi avisado pelo funcionário que eles em breve fechariam. Virou o segundo café em dois goles e sentou-se em uma cadeira esperando pela dispersão do sono.    
                                                                                
Naquele instante o movimento acontecia, o sono se distanciava e ele abriu um sorriso, mas era um sorriso-criança, que desconhece a origem da graça e se alimenta de expectativas futuras. Dos grandes janelões à sua frente viu um avião sendo empurrado por um trator que o colocaria no ponto onde deveria começar a acelerar. Um casal passa conversando animado, funcionários fecham as lojas e vão embora, o movimento estava em toda parte, era o que havia de mais consistente na realidade. O sorriso ganhou a autoconfiança da adolescência. Se o que havia desejado era permanecer aceso, conseguira, seu cérebro reclamara de haver sido acordado, mas talvez por vingança, prometia atividade duradoura, as luzes pediam algo que pudesse ser iluminado.    
                                      
Ele arrependeu-se do segundo café, o mundo e a vida sempre seriam do jeito que são, e ele bem que poderia prosseguir com sua vida sem conhecer o que havia por detrás dos panos. O sentido dela, da vida, não se modificaria apenas porque descobriu alguns segredos. O sorriso imediatamente envelheceu, e em seguida desapareceu. O movimento inverteu a curvatura de seus lábios, que agora pareciam carregar um peso. Um suspiro fundo trouxe leivas de esperança. Qual o significado das pedras de Angkor Wat? Da filosofia de André Malraux? O que devemos fazer com os nossos dias? Buscamos, ou não, um significado? Em caso afirmativo, o fim de nós mesmos, representaria o término desse mesmo significado? E se assim fosse, a que serviria algo que pretende-se absoluto, ao demonstra-se provisório?                                                                                    
 
Malraux levantou-se e caminhou como um leão aprisionado em uma pequena cela. Círculos curtos, passos pesados, que aos poucos foram perdendo a tensão, apesar de todas as pessoas serem determinadas em seus propósitos, o mundo, e talvez a vida, não o eram, tudo acontecia apesar de nossos desejos, e viver acabava se transformando nesse eterno confronto entre as vontades e aquilo que não possuía vontades. Uma batalha sem vencedores, onde o ser humano nunca era abatido, mas sempre entregava as armas, desistia. Então ele fez o que ainda não fizera desde que desembarcara no aeroporto: refletiu sobre a própria vida, como havia se formado aquela pessoa que buscara salvação nas pedras de Angkor Wat, mas que depois desistira, talvez de quase tudo, sobrara apenas sua crença no movimento. Uma crença mais corporal do que intelectual, seu corpo decidira prosseguir.                                                                    
 
Não desejava tecer teias de recordações onde histórias meladas por emoções seriam penduradas em varais, e misturariam suas tintas com outras memórias. Tentou apenas se compreender, mas isso não era fácil. Acabou desistindo de si mesmo, nada de definições, apenas um cheiro, sentia que era uma fruta sem caroço, que já começara a perder seus sucos e logo confundiria suas cores com as da terra. Lembrou-se da travessia, as paredes se fechando e perdendo altura, até tudo se transformar em um buraco por onde deveria passar.     
                                                                                       
Uma olhada para a catedral engolida pela grande fenda do chão, seus ombros não haviam molhado a estampa. Estava orgulhoso, mas também confuso e vazio, sentiu vontade de mergulhar em um sono sem sonhos, mas o café mantinha seus olhos vivos como duas brasas na escuridão. E elas não poderiam ser jogadas no chão, precisariam serem seguras por mãos vigilantes que eram obrigadas a suportar todos os calores. E essas chamas incendiavam mãos, braços e chegavam até aos corações, depois se cristalizavam em palavras rápidas, dolorosas, gritadas em tom de exigência:
 
“Alguma coisa, uma definição, uma resposta, por favor, não me deixem sendo nada, fruta podre sem sentido, arrombo minha voz, queimo meus olhos com seu próprio calor, decepo minhas pernas, meu sexo, extraio minhas papilas gustativas, pago todos os preços que forem pedidos, mas em troca preciso da trilha, da pedra indicativa de direção, da voz murmurando – é por ali – arrasto-me, sem pernas, mergulhado nas dores, espalhando minhas entranhas rubras, que o caminho fará com que se dissolvam, mas isso não importa, elas não foram feitas para eternidades, só preciso do grito agudo nascido de minha própria voz – é por ali – siga adiante e o sentido brotará como uma epidemia de margaridas prontas para existir.                                                            
 
A fera perdeu suas forças e precisou sentar-se. Não quis enxergar os próprios olhos refletidos no espelho com medo de que já não ardessem como brasas prontas para incendiar. Entretanto o sono permanecia afastado, as emoções mais espinhosas estavam encobertas e agora o estado de espírito parecia mais propício para raciocínios maduros. Mas eles não vieram, o que nasceu foi um medo irracional de se deparar com outra daquelas passagens que vão se contraindo até que todo o seu ser se transforme em um tijolo. Uma passagem ainda menor do que a anterior, onde ele não conseguisse atravessar e acabasse se transformando em parte do aeroporto.                                                                                                                   
 
A noite avançara e o terminal agora estava quase vazio, os relógios digitais continuavam sua marcha circular, as modelos permaneciam eternamente bonitas e jovens nas fotografias trabalhadas em cores fortes, as luzes claras do teto pingavam sobre as poucas cabeças, gotas de uma leve felicidade, o suficiente para que o aeroporto continuasse funcionando. Tudo isso parecia demonstrar a certeza de alguma coisa, certeza essa que ele mesmo não possuía. Invejou aquilo que o rodeava, aos poucos a inveja apodreceu e se transformou em ódio. Quando estava prestes a chutar um cinzeiro metalizado, percebeu que o único prejudicado seria ele mesmo. Assim como a inveja e tudo o que existe, as certezas também apodrecem e se transformam em adubo para o novo mundo.  
                                                                                                                             
Então ele adormeceu, sobre sua cabeça os olhares lânguidos de uma modelo tentando exalar uma sensualidade casual, congelada no tempo, empalhada em tonalidades de roxo e vermelho-cereja. Ali estava Malraux, deitado sobre o carpete, embaixo de um painel publicitário, encolhido, talvez sonhando, refletindo seu rosto cansado na superfície côncava metalizada do cinzeiro, iluminado por lâmpadas frias que a essa hora diminuíam sua intensidade em vinte por cento, vigiado por câmeras de segurança e tolerado pelos vigias noturnos. Um corpo abandonado por algum tempo, até ser despertado por pés descuidados ou por ruídos maiores do que a hora pede. Para então acordar na metade de seu sonho, com os olhos inchados e o paladar azedo, lembrando-se parcialmente do que havia sonhado, recordações que em poucos minutos serão tragadas pela cratera do esquecimento, e ele será arremessado em um novo dia, sem direito à apelação. Nascendo lentamente, ainda com imensos buracos vagos na cabeça e no peito, que os dias se encarregarão de preencher com material descartável, florestas de papel em chamas, cujas cinzas ainda manchadas pelo amarelo do fogo, se erguerão na direção dos céus.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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