
Malraux continuou caminhando, mas foi atacado por uma vontade que se aprecia como a uma coceira. Procurou desviar pensamentos, acalmar a pele que pedia unha, apenas com cubos de gelo, mas o desejo retornava. Ele quis desfazer tudo o que havia caminhado, retornar saguão após saguão até a porta de entrada do aeroporto Charles de Gaulle. Talvez até comprar outra passagem para o Camboja e visitar Angkor Wat. Seu grande temor era a passagem estreita onde se ferira e quase ficara entalado. Mas deveriam existir caminhos alternativos, portas feitas para homens caminharem de cabeça erguida. No caso em que elas não existissem, poderia sair pela porta da frente e pegar um táxi até onde tudo havia se iniciado.
Era claro que também havia a possibilidade de não existirem táxis e aqueles terminais intermediários estarem localizados a uma distância imensa de onde iniciara sua jornada. Eram todos riscos inerentes a qualquer empreitada, mas que estava disposto a correr. Entretanto, ao mesmo tempo em que essas ideias ganhavam solidez, seus pés não paravam de caminhar na direção oposta à da entrada. Caminhavam até com mais energia e velocidade do que costumavam fazer. Havia uma parte de si que desejava o contrário da outra. E esse também era ele. Na verdade ele era a resultante daquelas forças opostas, que, se fossem divididas milimetricamente, resultariam em zero, na completa imobilidade.
Malraux sorriu sem razão aparente, e quando isso acontecia frequentemente era causado por pequenas ou grandes conclusões, ou pelo menos, pedaços delas: a morte, não seria o ponto de equilíbrio, quando vontades opostas tornam-se do exato mesmo tamanho? Enquanto seu sorriso não murchava, seus pés aproveitaram para distanciá-lo ainda mais do que parte de si desejava. Atravessou uma parte inédita de um aeroporto, terminais quase sem passageiros e inteiramente destinados à transporte de carga, nada de filas de embarque, apenas escritórios de companhias aéreas de todo o mundo acompanhados pela palavra “Cargo”. Dentro deles compenetrados funcionários não tiravam os olhos de grandes telas de computador, tudo ao redor eram fibras de vidro brancas iluminadas por luzes frias e alumínio polido, que distorcia a imagem de quem nele procurasse seu reflexo.
Aquele terminal era uma razão concreta para apurar o passo, pois nada de interessante havia ali, nem ao menos cadeiras onde pudesse se sentar em busca da compreensão sobre o que aquele tédio poderia ou não significar. Ele irritou-se com a extensão de escritórios, que se perdia de vista. Ao longe distinguia apenas uma infinidade de logomarcas de companhias aéreas, algumas conhecidas e outras não. Foi quando se lembrou que certa vez ouvira falar que era possível e até bem mais barato viajar em aviões de carga. Talvez conseguisse um voo direto para o Camboja ou algum país vizinho, dessa forma não precisaria retornar a pé todo o trajeto até o aeroporto Charles de Gaulle.
Escolheu um escritório onde só trabalhavam orientais, de uma companhia que nunca havia ouvido falar. Depois de muito esperar na recepção, foi atendido por uma moça que perguntava e respondia sem olhá-lo nos olhos. Eles eventualmente aceitavam passageiros, mas a companhia só operava voos para Ulan Bator, na Mongólia, e ainda assim o próximo voo só partiria em quatro dias. Antes de ser dissuadido por essas informações, deixou-se divagar enquanto a atendente mantinha um constrangedor silêncio, e sem saber para onde olhar, fingia verificar algo em seu relógio de pulso. Então se perguntou: que diferença existia entre as pedras de Angkor Wat e as estepes da Mongólia? Eram imensas, mas também era nenhuma, isso dependia do ponto de vista, ou de que parte de si mesmo responderia àquela pergunta.
Como ainda em si havia movimento, e a gangorra não equilibrara pesos e insistia em pender para um lado, decidiu que para seus propósitos, que preferiu não definir quais eram, não haveria diferença alguma entre os dois lugares. Poderia retornar até o terminal anterior, ou então prosseguir até o próximo e esperar por lá os quatro dias até a data de embarque. A funcionária desistira de olhar para o próprio relógio e agora passeava a cabeça pelas lâmpadas do teto sempre buscando evitar o encontro de olhares. Mas parecia ansiosa por uma definição de Malraux, dizia que só havia um assento disponível e que poderia ser vendido online a qualquer instante.
Malraux disse que iria encontrar um distribuidor de dinheiro e voltaria ali em breve. Na verdade tinha uma soma bem maior do que a necessária guardada em seu cinto de dinheiro. Precisava de alguns instantes, passear mentalmente pelos campos verdes, imaginar as noites estreladas molhando com estranhas luzes os campos de fósseis de dinossauros, depois as manadas de cavalos selvagens explodindo vida, à medida que deixam para trás torrões de relva arrancados com as patas. Ele sorriu, o veredicto fora dado, e a batalha possuía um vencedor. Com a mão vasculhou o cinto e encontrou o volume do dinheiro.
“O inesperado é barulhento”, essa frase, vinda do nada, sorveu toda sua atenção. Não conseguiu interpretá-la, mas o barulho nela contida espalhou-se ao seu redor. Grandes torrentes descendo sobre as pradarias mongóis e um raio fulminando aquele que acreditava ser. O nada, que era, o contrário de qualquer barulho, mas nem por isso menos ensurdecedor, assenhorando-se de sua consciência, que depois de não mais existir, ainda seria pisoteada pela força viva dos cavalos selvagens. Ele temeu, como fazem todos os homens, o grande ato humano que ocorre após o nascimento e antes da morte, encolhido em sua cadeira, torceu para que todas as luzes se apagassem e sobrasse apenas uma penumbra que o afastaria da escuridão. Queria o silêncio absoluto, escutar apenas os próprios ruídos. Pouco importavam as belezas e a poesia escondida da Mongólia. Não seria ele que as revelaria.
De olhos fechados experimentou um pouco daquilo que desejava, as partes do nada que o interessavam. Depois foi trazido de volta pelos ruídos que àquela hora, começavam a tornar impossível o tipo de fuga que desejava. Quando percebeu que seria inútil lutar contra as correntezas, levantou-se e caminhou com velocidade, precisava se afastar da Mongólia e de qualquer traço que lembrasse sua existência.
Mesmo sem fome, percebeu que um restaurante poderia ser um bom refúgio nessa hora. Eles haviam acabado de abrir e ainda estavam vazios. Só percebeu em que tipo de restaurante estava quando abriu o cardápio, comida oriental de três escolas diferentes, chinesa, japonesa e tailandesa. Os preços eram os praticados em grandes aeroportos do mundo, ou seja, o dobro do que se pagaria pelo mesmo prato se fosse comido em um restaurante de rua. Apesar disso Malraux se sentiu feliz de estar ali. A decoração possuía sutis referências ao oriente, as grandes superfícies negras de acrílico contavam com detalhes em cores claras iluminados por lâmpadas quentes. No centro do salão um balcão pouco iluminado escondia garrafas de todos os tamanhos e conteúdos, onde um barman entediado e com um visual moderno, parecia saber que naquele horário não haveria nenhum drink para preparar. O chão era coberto por um denso carpete vermelho escuro. Malraux percebeu que o ar condicionado estava ligado e enquanto fazia sua escolha, arregaçou as mangas da camisa para sentir nos pelos dos braços a temperatura artificial. Um bom observador conseguiria identificar em sua expressão facial que aquilo lhe era prazeroso.
Optou por um barco pequeno contendo sushis e sashimis. Para beber escolheu um drink chamado sex on the beach, um coquetel feito com vodka, schnapps de pêssego, suco de laranja e suco de oxicoco. Enquanto esperava pela refeição, Malraux, sem que ninguém percebesse, tirou os sapatos e as meias e mergulhou os pés na fofa camada de fibras do carpete. Dessa vez o prazer ficou mais claramente estampado em seu rosto. O barulho da coqueteleira se espalhou pelo restaurante mas ele preferiu não assistir ao trabalho do barman. Continuava sendo o único freguês do restaurante e com o canto dos olhos percebeu a variedade de tonalidades de cinza que o arquiteto decidiu espalhar por todos os lados.
A refeição chegou junto com o contraste, a barca azul-céu era tripulada por tons de alaranjado, branco, verde musgo, bege e vermelho claro, mas nada se comparava às tonalidades da bebida, no fundo do copo uma cor vibrante que se localizava entre o vermelho-cereja e um tom forte e brilhante de grená, na parte superior do copo a cor era de sol, luzes amarelas espalhando potência e vida. A bebida era decorada com uma fatia de laranja e cerejas espetadas em um palito. Ele não iniciou a refeição imediatamente e gastou bons minutos apenas contemplando a combinação de cores. Ali parecia estar a salvação para o poço de cinzas que o rodeava. Um sorriso antecedeu o primeiro gole, que de tão profundo quase acabou com a parte amarelada da bebida. Depois molhou um sushi no molho de soja e fez desaparecer outra cor.
Não tinha pressa, desfrutava de uma sensação de leveza que desejava estender indefinidamente. Afogou um dos sashimis na cor escura do molho e levantou o copo para poder admirar contra a luz a tonalidade que havia sobrevivido. Foi quando um outro encontro aconteceu. Deu de frente com o olhar do barman. Antes que conseguisse abaixar os olhos recebeu um constrangido sorriso acompanhado por uma taça sendo levantada no ar. O próximo sashimi já não teve o mesmo sabor. Algo dentro da frágil harmonia em que vivera durante a última meia hora havia se rompido. Sentiu uma tristeza que sabia, só seria aliviada caso atacasse a causa. Não havia desvios ou anestésicos capazes de maquiar o que começara a viver. E o culpado era só um: o barman. Mas o que o amarrava àquele homem que desconhecia não era raiva, mas piedade.
Não beberia mais nenhuma gota da bebida, aquele quase vermelho cheio de brilhos, se dissolveria no copo até desaparecer no ralo de uma pia, as cerejas e a fatia de laranja seriam trituradas até se transformarem em uma pasta sem cor ou gosto, para depois serem acumuladas em grandes caixas de gordura que em dado momento seriam despejadas em algum reservatório, então receberiam jatos de produtos químicos que farão com que percam todas suas características de nascença. Mas a bebida não tinha mais importância, quem contava, quem era o responsável pela trave que lhe incomodava os olhos era o barman.
O restaurante recebera outros fregueses e o barman estava distraído preparando novos drinks, então ele conseguiu discretamente observar melhor seu alvo. O rapaz era jovem, talvez trinta anos, branco, alto, tatuagem que deveria nascer no peito e lambia seu pescoço, talvez uma de muitas outras escondidas pelas roupas, cabelo raspado dos lados e comprido na frente, uma franja que insistia em cobrir-lhe os olhos. Não era musculoso, mas notava-se que algum cuidado costumava ser dispendido com aquele corpo, os braços eram bem definidos e não havia gorduras abdominais. Embaixo do queixo alguns fiapos de barba formavam um cavanhaque que não era fruto de desleixo, mas de um visual bem planejado, quase desenhado e, talvez, muito provavelmente, copiado de alguma referência. Seus olhos eram inflados com uma mistura indigesta de aceitação com rebeldia. Em doses homeopáticas, odiava os fregueses que tratava com sorrisos e palavras gentis.
Malraux percebeu que precisava abandonar o barco que estava à sua frente, mergulhou por três vezes, mais de um sushi dentro do mar escuro de soja, engoliu tudo quase sem mastigar e viu-se diante de uma conta que honrou deixando uma nota maior do que se pedia, e virou as costas antes que lhe oferecessem o troco. Tudo havia ficado para trás, menos o barman. Talvez o jovem tivesse origem em uma classe média baixa fascinada pelo sucesso, e aquele poderia ser o primeiro degrau das escadas que pretendia galgar. Mas esse não era o problema, na verdade nem o barman o era. A questão, de fato, estava para o barman, assim como um floco de neve está para as crostas polares. Aquele jovem, como outros, como crianças e velhos, como ele mesmo, só parcialmente estavam vivos, era preciso que algo brilhasse e doesse, que algo gritasse e chorasse, lágrimas feitas de prazeres e angústias, para que então a vida acontecesse por completo. Para que o mundo inteiro fosse o sol brilhante do drink. Mas sabia que não poderia se esquecer das sombras, elas são parte da vida e não podem ser extirpadas, devem crescer em liberdade e terem direito de produzirem novas sombras.
E onde estavam a selvageria, os gritos e o desespero? Onde estavam as sombras ocultas, arrastando-se por lugares que ninguém percebe? Malraux sorriu, mas também derramou duas lágrimas. Depois olhou para o teto e encontrou luzes sem força, manchas brancas geradas por elétrons obedientes, conduzido por fios, assim como o gado é levado ao abatedouro. Só havia uma saída, sentiu isso de maneira irrevogável. Mas o problema é que não sabia qual era. O mundo parecia esconder seus segredos com tanto afinco quanto as luzes se escondem dos cegos. Ele fechou os olhos e logo os abriu, pois desde a infância o maior de seus muitos medos sempre fora a cegueira. Então percebeu que todos, de uma certa maneira, estamos mergulhados em diferentes tipos de cegueira, que não nos angustia, pois nunca conhecemos nada diferente dela.
Nesse instante Malraux viu uma bela morena muito parecida com a musa da Nouvelle Vague francesa, Anna Karina. Isso fez com que se lembrasse de uma cena de um de seus filmes, O Bando à Parte, de Jean-Luc Goddard. O trio de jovens personagens, composto por Odile, Franz e Arthur, símbolos de todos os tipos de liberdade, apostam corrida nas galerias lotadas do Museu do Louvre. Malraux apressou o passo, não possuía a juventude ou os ideais daqueles personagens, isso sem considerar o importante fato de que eles eram ficcionais, mesmo que não tivesse certeza absoluta de que ele mesmo também não fosse, de qualquer forma e meio descontente com sua falta de criatividade, ele começou a correr.
Inspirando estranhos olhares em outros passageiros, que toleravam sua pressa achando que corria para não perder algum voo. Os guardas e policiais o acompanhavam com os olhos, mas também pareciam não possuir jurisdição sobre a pressa, especialmente em um ambiente que controla segundos como se fossem pepitas de ouro. Malraux sentiu-se o centro das atenções, o que por um instante fez com que achasse que havia descoberto a passagem secreta que tanto almejara, talvez a saída não estivesse atrás de uma porta, mas sim no aumento de sua própria estatura. Inflando-se, como um boneco de vento, conseguiria ver tudo e todos de cima, então, talvez descobrisse como funcionam as coisas.
Mas esse instante passou e levou consigo seu sonho de grandeza, o fôlego acabou e ele precisou parar. Sentou-se, sob o olhar curioso de alguns passageiros que cochichavam. Aos poucos, os olhares foram mudando de direção e Malraux voltou a ser apenas mais um rosto na multidão. Então ele começou a se sentir ridículo. Todas as pessoas, mesmo as crianças, tinham estaturas maiores do que a sua. Cada um dos que passava à sua frente, havia feito escolhas melhores, tido mais equilíbrio e discernimento, havia escapado com mais facilidade das tentações e cometido menos erros, em razão disso, agora colhiam os frutos, recebendo em forma de benesses para suas vidas, o resultado de suas atitudes.
Ele ainda resfolegava pesado, o rosto coberto por gotas inúteis, que se descessem da testa poderiam facilmente se transformarem em lágrimas. Mas isso não aconteceu, lágrimas costumam trazer alívio, e o que havia ali era confusão. Seu ego, que há pouco tentara fazer com que acreditasse que era o maior dos homens, agora saltara para a extremidade oposta, chicoteava-se, impondo a Malraux penas desproporcionais aos atos executados. Cada gota de suor, uma de ácido sulfúrico, corroendo a pele, mas principalmente o que existe embaixo dela.
“Só há uma saída e ela é infinitamente menor do que aquela que me arrancou pedaços da pele de meus ombros.” Depois de pronunciar essa frase em voz alta, diminuíram as força que alimentavam a fogueira de seu sofrimento. As chamas perderam altura até se transformarem em brasas vivas, que mostraram suas cores durante toda a madrugada, mesmo enquanto estava adormecido.
Foi acordado pela luz do sol que nascia atrás dos janelões de onde a pista de pouso podia ser vista. Um avião solitário taxiava lentamente e ele acompanhou-o até que ele decolasse e sumisse no horizonte. As lembranças da corrida, de Anna Karina, e das sensações que se seguiram tinham todas o mesmo tamanho, e diminuíam a cada instante. O dia ensolarado havia conseguido engolir a noite anterior, que se transformara provisoriamente em memória, para em um futuro próximo sofrer a segunda transformação, tornando-se nada.
O mesmo também ocorreria com todo o resto, suas alegrias, seus sonhos, medos, tudo inapelavelmente varrido para debaixo do tapete do esquecimento. O sorriso foi pálido, mas trouxe um frescor que o lembrou de como seria agradável tomar um banho, mas dessa vez decidiu que não iria usar as mesmas roupas. O primeiro passo seria encontrar uma loja. Caminhou bastante até mudar de terminal, mas o novo se parecia muito com o anterior, um lugar internacional que poderia estar plantado em qualquer país desenvolvido. O inglês continuava sendo a língua corrente.
Não demorou a encontrar um pequeno agrupamento comercial com várias opções de compra. Dessa vez escolheu pagar um pouco mais e não ter estampas em sua camisa. Comprou calça, camisa, cueca, meias e um novo par de sapatos. Ainda dentro da loja vestiu-se com suas compras e saiu de lá com uma sacola com suas velhas roupas. Assim que encontrou uma lixeira enfiou a sacola dentro e entrou em uma farmácia próxima. Comprou xampu, sabonete e lâmina de barbear. Caminhou um pouco e pediu várias vezes informação até encontrar um banheiro onde pudesse tomar banho. Quando a água desceu sobre sua pele levando embora os suores e sobras do dia anterior, o alívio fez com que acreditasse que talvez o bem-estar físico fosse a mais sólida resposta para suas inquietações. A sensação apenas aumentou depois que se enxugou, vestiu e saiu do banheiro. Apesar disso, já não tinha certeza sobre os prazeres do corpo. Aliás, percebeu que eles desapareceriam mais cedo se ficasse raciocinando a seu respeito.
A sutil brisa que massageia a pele que acabou de ser lavada, precisa apenas acontecer. A filosofia não cabe dentro do prazer. E foi o que fez, se desvencilhou de todas suas perguntas, esqueceu os medos e todos os penduricalhos que a eles se amarravam e degustou a sensação de ter seus cabelos ainda levemente molhados sendo assoprados por uma brisa, que mesmo que fosse artificial, cumpria seu papel vital. Escolheu como companhia uma grande bola de sorvete de amora. O dia transcorreu sem preocupações, embalado por algumas observações que nunca iam além da figura física daquilo que era contemplado. No final da tarde assistiu à decolagem e ao pouso de aviões, atentando para nada além das marcas das companhias aéreas. Foi quando se deu conta de que a opção pela leveza não deixava de ser uma escolha filosófica.
Depois avançou por um corredor que se emendava a um novo terminal em que havia muitas opções gastronômicas. A noite trouxera executivos apressados que entre consultas ao computador e ao celular, buscavam um restaurante para jantar. Malraux seguiu um deles que parecia não ter dúvidas de onde comeria. Quando entrou no restaurante percebeu que era de alto luxo, pelo menos para o padrão de aeroportos, um luxo um pouco caricato, sem raízes profundas que o sustentassem, mas ainda assim um bom pretexto para sustentar nas alturas os preços do cardápio. Depois de examinar o cardápio e fazer sua escolha, percebeu que não havia como se furtar a escolher um vinho de qualidade para acompanhar o prato. Assim que devolveu o cardápio ao garçom iniciou a soma dos valores e chegou à conclusão que a conta sairia quase a metade do valor que pagaria por sua passagem para a Mongólia.
Mas não se arrependeu, sentia-se bem e, se escolhera não viajar, esse dinheiro deveria ser gasto de alguma maneira, então que fosse com algo prazeroso. Passeou os olhos por seus vizinhos de mesa, o executivo que sem saber o arrastar até ali, não tirava os olhos de seu laptop, e por enquanto só havia pedido um suco de tomate. Além dele havia também um casal cujo homem com o dobro da idade da mulher, a tratava como se, de fato, fosse cinco vezes mais velho que ela. Com um guardanapo em uma das mãos e um garfo em outra, enfiava um pedaço de bife cortado em sua boca enquanto proferia palavras que, apenas alguém com um terço da idade real da mulher, profeririam.
Do outro lado havia uma grande mesa que Malraux logo identificou como um jantar empresarial pago pela sociedade que os empregava. Bebida e comida de qualidade e à vontade, riso solto e nenhuma preocupação com a conta. Os assuntos flutuavam entre banalidades de todos os tipos e pesos, mas devido à distância, ele captava apenas retalhos do banal. Percebeu que com as emendas desses pedaços, o que nascia, não perdia a banalidade, ao contrário, parecia mais viva e real do que as falas individuais.
A salada de vieiras acompanhada por trufas foi colocada à sua frente, o vinho rosé foi aberto e servido. O sabor da comida e do vinho injetaram em seu organismo nova dose de bem-estar. Solidarizou-se com seus vizinhos de mesa, somos o resultado de muitas forças que nos antecedem e outras sobre as quais não possuímos comando, portanto qualquer julgamento torna-se injusto. Sorriu, teve vontade de cumprimentar algum dos fregueses, mas nenhum deles tinha olhos para a sua mesa. Quando ainda nadava em sua piscina de aceitação e deixava com que a água morna amolecesse ainda mais uma alma que frequentemente se tornava espinhosa, colocaram à sua frente um belo prato de Steak Tartare. Dessa vez ele foi rápido o suficiente para sorrir para o garçom, que respondeu com um sorriso, que apesar de profissional, tinha o mesmo tamanho e consistência daquele que lhe foi enviado.
Gostava de contemplar a cor do vinho contra a luz, descobrir tonalidades. Fez o mesmo com a massa avermelhada de carne de seu prato, depois engolia as cores e esperava pela chegada dos sabores. Que não tardavam, e estavam sem dúvida entre os melhores que já experimentara, com certeza o melhor de todos que já provara em um aeroporto. A refeição transcorreu lentamente, garfadas seguidas por momentos vazios, em que olhava para um painel fotográfico que retratava a região de Champanhe, sem nada buscar ou concluir. Mas isso era exatamente o que buscava, sentir e depois abster-se.
Quando o estranho casal que estava na mesa ao lado se levantou, ele percebeu que ela era uns vinte centímetros mais alta do que ele, e para resolver essa questão, que parecia incomodá-lo, o homem mantinha da jovem uma distância suficiente para que a perspectiva de quem olhava, evitasse que notassem a diferença. Ele só voltou a segurar em sua mão quando deixaram o restaurante. Malraux sorriu mas não quis prosseguir no caminho daquele sorriso, respirou fundo e deu sua última garfada. Ainda havia um pouco de vinho na garrafa, o suficiente para estender sua estada no restaurante por mais meia hora.
Retirou de seu cinto de dinheiro as três notas de cem euros, as deixou sobre a mesa e saiu do restaurante. O bem-estar parece, assim como o chimpanzé e o ser humano, possuir praticamente a mesma composição da depressão, são só alguns genes diferentes que fazem com que as sensações caminhem em direções opostas. Quando chega, dá a impressão de que nunca mais irá embora e contamina todos os aspectos da percepção humana. Malraux refletia sobre seu sobrenome, formulava piadas incompletas, mas suficientes para que outros passageiros percebessem suas risadas soltas. As páginas do livro vão sendo viradas, e apesar de cada uma delas se relacionarem com a anterior e com a que vem depois, elas também possuíam vida individual. E ele, nesse instante, lia uma história que lhe prendia a atenção, e com a qual se divertia bastante.
Foi quando avistou um hotel dentro do terminal. Já havia visto desses hotéis em aeroportos, mas eles nunca o inspiraram a hospedar-se. Mas uma refeição como a que havia acabado de degustar não combinava com uma noite de sono em uma cadeira desconfortável ou então escondido embaixo de uma escada rolante. A pequena recepção estava vazia e contava com relógios ajustados nas horas de vários países acompanhados por fotos levemente desbotadas de cada um dos destinos. Depois de soar uma campainha, um homem à beira da velhice e com aparência de indiano, saiu de uma portinhola pequena localizada logo atrás dos relógios. Ele bocejava e entregou a Malraux as opções de estadia, que começavam com uma estada de duas horas até uma diária convencional de hotel.
Os preços não eram baratos, mas assim como fizera no restaurante, não os levou em consideração, o importante era prolongar o máximo que pudesse a vida do bem-estar que morava em seu peito. Foi obrigado a pagar a diária antecipadamente, e foi só então que percebeu que o volume de seu cinto de dinheiro, incomodaria cada vez menos sua virilha. O homem entregou-lhe um cartão-chave e voltou para dentro da portinha de onde havia saído. O curto corredor era mal iluminado em tons esverdeados, não havia janelas e, aparentemente, parecia ser o único hóspede daquele hotel. O quarto era pequeno e todos os detalhes guardavam uma modernidade envelhecida com pouca manutenção. A cama era confortável e dava de frente para um aparelho de televisão cujas cores pareciam combinar com as luzes do corredor e puxavam para o verde.
Depois de instalado tomou um banho, vestiu a mesma roupa e foi passear pelo aeroporto, que a essa hora, estava quase vazio. Percebeu que, apesar do banho tomado há poucos minutos, a doce sensação que sentira sobre a pele, havia ido embora, também, sem que conseguisse definir o instante em que isso ocorrera, o bem-estar havia secado suas pontas mais viçosas. Sentiu que se permanecesse muito mais tempo ali, a melancolia não tardaria a ocupar o lugar que há algumas horas pertencia a uma alegria descompromissada. Voltou rapidamente para seu quarto, antes de abrir a porta deixou que uma frase pronunciada em voz alta rasgasse o silêncio das luzes esverdeadas: “Ao animal, a sua toca.”
Talvez um terceiro banho lhe fizesse bem e o lavasse dos pensamentos pesados que pareciam querer desembarcar naquele quarto. Apenas despiu-se e enrolou-se na colcha, que parecia um volumoso livro de história, cada marca uma página. Depois atravessou nos dois sentidos todos os canais possíveis da televisão, não havia nada que lhe interessasse. A melancolia buzinava pedindo passagem, assim que entrasse no quarto seria tão barulhenta que o impediria de dormir. Tentou escolher o canal com o conteúdo menos ruim, um velho filme alemão dublado em inglês, a guerra espalhando morte e a vida boiando dentro de um barril de sangue. O filme era razoável, mas era terra fértil para a tristeza espalhar suas raízes. Antes de desligar encontrou um canal onde só havia estática, chiado e milhares de pequenos pontos e traços caminhando aleatoriamente de um lado para outro.
Lembrou-se que uma vez havia lido que dez por cento desse chiado corresponde ao barulho gerado pelo Big Bang, a grande explosão que gerou o universo. De olhos fechados imaginou-se no exato instante do surgimento de todas as coisas, e então, depois, quando a explosão já tivesse originado os planetas, a vida, as civilizações, e então muito depois, quando o universo deixou de se expandir e as estrelas começaram a se apagar, a vida desapareceu, tudo começou a resfriar-se, os buracos negros rasgaram-se e sorveram o resto de matéria que ainda existia, até que finalmente eles se dissolveram e a pergunta do filósofo André Malraux deixou de ter sentido: “Por que existe algo, no lugar do nada?”
Ele então voltou para trás, porque para frente, como nada existia, não havia caminhos possíveis, voltou prestando atenção em detalhes, as galáxias, a vida monocelular, a pós-civilizacional, prestou atenção principalmente nas amarras que mantinham toda a estrutura em pé, encontrou teoremas flutuando pelos recônditos mal iluminados do universo, teoremas selvagens, que nunca haviam sido anotados. Avistou pessoas sem corpos que pairavam como ideias sobre nebulosas de gelo e poeira, depois desceu um andar e leu o complicado manual que explica como a ínfima realidade amarra suas esquinas. Quando percebeu estava de volta ao exato instante do Big Bang. Abriu os olhos e a televisão continuava lá. De uma maneira pouco convencional e nada planejada havia obtido sucesso em bloquear a porta para que a melancolia ficasse do lado de fora. Um leve sorriso e depois o mergulho profundo em uma camada de nuvens de sono.
A diária dava direito ao café da manhã. Precisou bater na pequena porta que havia embaixo dos relógios para que o mesmo atendente da noite anterior, com bocejos ainda mais violentos, viesse e lhe indicasse uma pequena sala onde havia duas mesas com cadeiras e um acanhado balcão com café, suco de laranja, pães e geleias. A sala, cujo pé direito era pouco mais alto que sua cabeça, não possuía janelas, apenas um cartaz envelhecido que mostrava um homem musculoso saltando de um rochedo em Acapulco, no México. Malraux torceu para que nenhum outro hóspede chegasse, pois a proximidade das mesas e cadeiras tornaria aquele evento algo constrangedor.
Degustou seu café lentamente, mas sempre pronto para partir em caso de chegada de outra pessoa. Encarou o cartaz do saltador, que parecia uma isca feita para atrair um maremoto de ideias. Todas sem importância. Ouviu passos na direção da sala, pouco antes de se levantar percebeu que se tratava do homem da recepção trazendo leite e uma travessa contendo cereais. Prolongou a ingestão de alimentos, a sala, um tanto claustrofóbica, o empurrava para fora, mas havia uma força maior, que fazia com que permanecesse ali, experimentando a flutuabilidade dos cereais em um lago branco. Talvez essa força tivesse relação com a imagem do saltador de Acapulco, mas ele preferiu não investigar.
Depois que já não havia mais leite em sua tijela, observou a disposição dos cereais espalhados, construindo desenhos abstratos, compondo poemas escritos em língua desconhecida. Malraux prosseguiu admirando as formações, algum sentido deveria estar representado ali. Então levantou-se e deixou o hotel.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
