
A boca então se fechou e as pernas pediram movimento. As pastilhas chupadas caíram no chão sem que ele percebesse. A nova ideia o atravessara em todos os sentidos, como uma rajada de metralhadora que perfura um número maior de buracos do que os que a vida precisa para ir embora. O sorriso estampado fazia com que as pessoas que cruzavam seu caminho herdassem parte de sua alegria e, sem perceberem, levantassem as extremidades de seus lábios.
Malraux caminhava com a desenvoltura daqueles que possuem unhas intactas. A vermelhidão em seu curativo havia empalidecido, uma fina camada protetora nascia sobre a carne viva e, em breve, o ferimento se transformaria em memória, para depois virar nada.
A ideia nasceu no instante em que notou a semelhança entre a dança de Sherazade, e a música de Rimsky-Korsakov. Não importava se aquela mulher conhecera ou não a música, se aquelas notas flutuavam dentro de seu subconsciente esperando oportunidade para vir à tona, nem se ela, conscientemente, procurou adaptar seus passos de dança para se transformarem em uma demonstração física e corpórea daqueles sons. Essa última hipótese teria tanta importância quanto se ela nunca tivesse escutado a suíte sinfônica. O fato era que, ou ela, ou a música, moldaram-se, assim como faz a água em uma vasilha, ao outro. Então Sherazade, a mulher, se transformou em Sherazade, a música, e vice-versa. E essa mútua transformação ocorrera entre dois entes distintos, uma consciência pura, a mulher, e retalhos de ideias e sentimentos, organizados e hierarquizados por outra consciência pura. Ou seja, um ente primário, e o outro secundário.
Mas toda essa percepção era apenas um degrau que se oferecia, a revelação morava atrás do muro e para encontrá-la precisaria ascender esse primeiro degrau, talvez para então descobrir que muitos outros ainda seriam necessários. E foi o que fez, condensou toda sua percepção em uma pergunta: esse fato por ele notado, não ocorreria também com todo o resto, com tudo o que existe, o tempo todo, desde que o tempo existe e enquanto ele existir?
Descontente com a pergunta que conseguiu formular, ele parou de caminhar. Seus lábios, cansados do esforço, agora estavam em posição de descanso. Com a unha do polegar empurrou mais três pastilhas para fora do canudo de papel. Dessa vez desistiu de chupá-las e as mordeu, depois mastigou até formar uma massa, que depois de algum tempo precisava ser retirada dos dentes com a ponta do indicador. Cansado, engoliu tudo e permaneceu em silêncio, apenas sentindo o gosto de menta se afastando, até que nada sobrasse além das pontas grudentas que ainda escondiam-se nos vãos de seus dentes.
Precisava reagir, sentia-se como alguém que havia descoberto um tesouro, mas que só teria direito a ele se tivesse forças para carregá-lo. Na primeira tentativa o pesado baú não se movera um milímetro sequer. As dores musculares e o cansaço prometiam tornar a segunda tentativa ainda mais difícil, portanto era preciso mudar, usar menos os músculos e mais o cérebro.
Construiu um sorriso com aquilo que encontrou pela frente, com ele acendeu o fogo que alimentou com um líquido chamado entusiasmo, ele era a argamassa que mantinha ideias em pé, até que finalmente precisassem ser demolidas para darem lugar a outras ideias. Lembrou-se das pastilhas de menta mas decidiu deixá-las onde estavam. Então mergulhou, dessa vez sem prender a respiração:
Não, não cometeria o mesmo erro duas vezes. De nada adiantaria nadar contra correntezas, escavar a terra com as mãos até vê-las desaparecer de tão desgastadas. Não fazia sentido golpear com uma espada o imenso rochedo, as forças humanas são extremamente limitadas, se esvaem rapidamente transformando esverdeados entusiasmos em azedos sabores. Se alguém quiser avançar em territórios menos iluminados precisará se valer da intuição e de todos seus aparentados. Sabedorias sem nome ou receitas que pairam pelos ares a espera de quem as capture.
Dito isso, fica até difícil traduzir em pensamentos ou palavras essa tentativa tão pouco concreta. Difícil, mas talvez não impossível, pois pensamentos e palavras também são compostos eles mesmos por realidades pouco concretas, e desviam grandes obstáculos quando necessário, construindo outros mundos e espalhando sombras que, também elas, constituem realidades diferentes.
Então, sem querer desviar das Sherazades, do enigma que as amarra e as separa, percorro, como um dedo de água imiscuindo-se entre a vegetação, emitindo ruídos suaves que por ninguém serão ouvidos, percorro espalhando-me, espalhando-a, refletindo, encobrindo e esquecendo. Sou ela, sem o sê-lo, e o mesmo acontece com ela. Mas esses dedos noturnos que espalham suas moléculas aquosas por entre gramíneas e tímidas flores pálidas de luar, precisam ser ornamentados com joias que estejam à altura de sua graça e beleza. O anel da indeterminação é o adereço perfeito para aqueles dedos. Transforma-se em coroa no instante em que passa a deter entre seus limites circulares aquilo que de nenhuma outra forma pode ser contido, a coroa então resplande e espalha um poder que pertence a todos e a nenhum.
Então Malraux sorriu, um sorriso diferente dos outros. Nele não havia graça, prazer ou desdém, nem qualquer outro sentimento que os sorrisos costumam exprimir. Era diferente, e talvez a luz que refletia em seus olhos também estivesse diferente. Não havia conclusões ou pressa, nada a fazer e nenhuma ansiedade para que algo fosse inventado. Percebeu o ritmo da própria respiração, um ciclo, um círculo que o fazia viver. Então assistiu à sua sombra projetada no chão, ela estava para ele, da mesma forma que ele estava para ela. Um círculo que forma muitos outros. Essa era razão suficiente para mais uma pastilha de menta.
Caminhou alguns passos até uma longa passarela rolante. Preferiu encostar-se no corrimão e deixar com que o equipamento o conduzisse para onde quisesse. Foi surpreendido por encontrões de outros passageiros, que apressados pediam licença e raspavam malas de rodinhas em suas pernas. Ignorou tudo, concentrando-se naquilo que não pedia concentração. A longa passarela desembocou no coração de um movimentado terminal. Já fazia algum tempo que a língua falada e a aparência dos funcionários e passageiros não chamava mais sua atenção. Se precisasse se comunicar com alguém, um inglês básico parecia suficiente para resolver qualquer questão prática. Também a origem dos aviões que esperavam para decolagem no pátio, deixara de o interessar, apesar da diferença de pintura e de logomarcas, as aeronaves pareciam-se cada vez mais umas com as outras.
Ele viu uma lanchonete decorada com personagens da Disney e isso atraiu sua atenção. Os preços não eram altos, e no instante em que iria fazer seu pedido lembrou-se que não tinha mais nenhum dinheiro. Sorriu, enfiou mais duas pastilhas na boca e continuou andando. O terminal era moderno e havia grandes espaços abertos iluminados quase que completamente por luz solar, e ele percebeu o exato instante em que os raios começavam a ficar oblíquos e a incomodar o rosto dos funcionários responsáveis pelo check-in. O desconforto durou apenas alguns minutos e depois tudo se transformou em sombras. As luzes artificiais foram acesas, e a vida ali dentro tornou-se um pouco mais amarela.
Ele olhou para suas mãos, mergulhadas naquela luz que acabava de nascer mas ainda se misturava com a que vinha de fora. Suas mãos também eram ele, e cada pedaço daquilo que julgava ser si mesmo, amarelara-se. Um sorriso que dessa vez não foi acompanhado por pastilhas de menta.
Lembrou-se que deveria refazer seu curativo, talvez pela última vez porque o material que comprara para isso estava acabando. As dores desapareceram, então tomou coragem para encarar de frente seu dedão ainda sem unha. Retirou os esparadrapos e gases. Arrependeu-se. A carne vermelha tinha partes esbranquiçadas, exatamente como ocorria com pedaços mal passados que costumava pedir em restaurantes. Mas agora aquilo era parte dele mesmo, uma agrupamento de moléculas que construíam células, que precisavam serem nutridas assim como galinhas precisam de milho e bois de pasto. E aquela era uma parte do todo, suas melhores atitudes e seus mais valorosos esforços, não se diferenciariam muito daquele pedaço de carne que poderia ser cortado e servido para quem estivesse com fome.
Sabia que em instantes como esse a providência mais urgente seria evitar quaisquer odores originados no local do ferimento. Conhecia as maneiras estranhas da memória, que tudo diminuem, ampliam e transformam, e que costumam usar os cheiros como importante ferramenta. Prendeu a respiração, despejou um pouco de água oxigenada que, além de criar sobre a carne viva pequenas bolhas das quais desviou o olhar, mostrou que aquele pedaço de carne realmente pertencia a ele e que era capaz de, com suas fisgadas e ardências, dominá-lo por completo. Acalmadas as dores, cobriu tudo com gaze e enrolou com esparadrapo. Então enfiou a sacola com as sobras de material para curativos na lata de lixo.
Sentou-se para olhar o movimento e logo um sorriso brotou em seu rosto, lembrou-se de um documentário que havia assistido sobre André Malraux, que enquanto ministro da cultura do general De Gaulle, fez uma visita aos Estados Unidos. Acompanhado por sua esposa ele jantou com o casal presidencial John e Jacqueline Kennedy, que era fluente em francês. As imagens mostravam um André completamente fascinado pela beleza e sofisticação de Jacqueline, esquecera a própria esposa e o marido dela, que no caso, era presidente dos Estados Unidos. O sorriso nasceu porque Malraux imaginou que em seu caso, como não tinha mais dinheiro, em breve, qualquer pedaço de comida abandonado se transformaria em Jacqueline Kennedy.
Mas, por enquanto, as pastilhas e a respectiva azia que acompanhava seu consumo excessivo, mantinham a fome afastada. Ele assistiu a todas as cenas que já conhecia de cor, e depois se lembrou dos ciclos, dos círculos, talvez Jackie Kennedy e um toco de sanduíche abandonado sobre uma mesa de fast food fossem assemelhados, aparentados, talvez até, sob uma perspectiva mais ampla, a exata mesma coisa. Mas essa constatação traria implicações violentas sobre a maneira como encaramos a vida. Os detalhes todos perderiam importância, derreteriam, e depois se transformariam em uma fumaça anestésica dentro da qual todas as consciências estarão imersas.
Então, depois de viverem entorpecidas, se cansarão da igualdade e voltarão a valorizar os detalhes, o que fará com que o valor de Jackie Kennedy volte a ser trilhões de vezes maior do que o de um toco de sanduíche abandonado. Nada e tudo batalham, e nós só o que podemos fazer é assistir às faíscas de suas espadas, e torcermos para que nada nos caia sobre a cabeça.
Malraux levantou a cabeça e olhou para o teto, uma imensa estrutura feita de chapas de aço estilizadas. Aquilo parecia ser suficiente para protegê-lo de desmoronamentos de tudo o que fosse muito maior do que ele. Então olhou ao redor e percebeu que todos os outros, que estavam na mesma situação que ele, pareciam não se preocupar com essa questão. Inocentes, conversavam iniquidades ou olhavam para os celulares. Mesmo sabendo que diante do universo, ambos os posicionamentos possuem o mesmo valor e importância, não conseguiu deixar de sentir uma certa antipatia por todos aqueles inocentes que o circundavam.
Nesses casos o movimento era sempre o remédio indicado. Mesmo correndo o risco de não ter onde sentar-se, abandonou sua confortável poltrona, pois começava a ficar cercado por todos os lados e gostava de ter sempre um dos lados livres para se movimentar. Perdeu-se dentro de uma grande loja de departamentos, subiu e desceu escadas rolantes movido apenas pelo prazer de ser carregado de um lado para o outro. Passeou seus olhos por roupas de criança, livros e brinquedos, cruzou olhares com pessoas de todos os tipos, inclusive com um homem que parecia possuir um olhar parecido com o seu. Pelo menos com aquele que imaginava ter. Desse inusitado encontro nada conseguiu concluir, apenas decidiu segui-lo, atitude que em épocas pré-aeroporto, eventualmente costumava tomar quando tinha tempo e encontrava na rua alguém que parecia diferente de todos os outros.
Mas, nesse caso, não foi a diferença e sim a semelhança que o fez seguir aquele homem. Enquanto o desconhecido examinava martelos e serrotes na seção de ferramentas, Malraux aproximou-se e vasculhou prateleiras vizinhas. Entre pincéis, arruelas e parafusos, desviava olhares, procurando não perder de vista àquele a quem perseguia. Depois de muito selecionar seu alvo, finalmente se decidiu por um martelo, que com suavidade batia contra a palma de uma de suas mãos.
Malraux percebeu que precisava se apressar, deixou de lado o que tinha nas mãos e virou-se na direção do desconhecido. Os olhares se encontraram, talvez por menos de dois segundos, tempo suficiente para que se desenrolasse uma história que se iniciava antes do Big Bang e prosseguia por múltiplos trilhões de anos, até que o universo esfriasse, as estrelas se apagassem, e não sobrasse mais nada além de uma eternidade feita de escuridão. Mas de todo esse infindável tempo sobressaiam aqueles quase dois segundos, e os olhos em que mergulhou, tentando descobrir o que os seus próprios olhos escondiam, e sobretudo, aquilo que não escondiam, suas verdades gritadas ao mundo.
Escutou um ruído agudo que não conseguiu identificar a origem. O homem desviou o olhar e imediatamente Malraux perdeu o interesse nele. A história do universo foi esquecida e por ainda alguns instantes ele tentou interpretar aquilo que havia acontecido. Depois passeou os olhos por uma infinidade de prateleiras e homens de olhos baixos tentando encontrar nelas talvez aquilo que ele mesmo não conseguira encontrar nos olhos do desconhecido.
Não podia mais suportar aquele lugar, apressou-se, e impaciente desceu alguns lances de escadas rolante até a porta da loja. Foi quando uma imagem surgiu em sua mente, talvez ela tenha nascido devido a um sorriso inocente direcionado a ele por um menino de uns seis anos soprando um cata-vento. Malraux devolveu o sorriso e a imagem se formou. Era a clássica fotografia da entrada de Angkor Wat, sobre as ruínas cinzentas um céu azul sem nuvens. Ele sentou-se e, ao contrário do que acontecera com o desconhecido, dessa vez a imagem pronunciava palavras claras: ele deveria caminhar até a porta de saída, voltar para casa, trabalhar novamente até conseguir dinheiro suficiente para comprar uma nova passagem e voar até Angkor Wat.
Antes de embarcar deveria ler bastante sobre a história do lugar. Depois teria de se informar sobre a melhor época do ano para viajar, talvez também precisasse adquirir um equipamento fotográfico de qualidade capaz de fazer jus às imagens que iria descobrir. Passaria lá o tempo suficiente para conseguir compreender o lugar e construir conexões com seu mundo interior.
Os sons eram claros e a harmonia daquela decisão trouxe-lhe uma paz de espírito que, enquanto durou, inundou seus pulmões com um prazer juvenil. O mundo brilhava e cada pessoa era responsável por parte dessa luz. Mas então nuvens pesadas foram sopradas e cobriram o sol. Tudo ganhou sombras cinzentas e pesadas como o chumbo. As pequenas alegrias feitas de tons esvoaçantes derreteram, as pequenas poças que formavam tinham a cor da desistência.
Angkor Wat não o salvaria. Nada o salvaria. Não havia salvação e nem ao menos do que se salvar. A realidade era crua e incolor. Quem emprestava os sabores e pintava as paredes, era uma substância da qual somos preenchidos assim que nascemos, e que vai se esvaindo conforme os anos passam. Alguns chegam aos quarenta completamente esvaziados, outros, aos noventa ainda conseguem extrair do tubo de tintas algumas tonalidades esmaecidas. Mas isso não tem importância, pois essas quantidades de tempo são insignificantes diante da eternidade, o que faz com que nada sobreviva. Essa constatação abre o caminho para o nascimento de uma pergunta, essa de muito difícil resposta: Se nada sobrevive, algo terá, de fato, existido?
Malraux olhou para os lados e imaginou crianças, funcionários, painéis de publicidade, móveis e máquinas de sorvete, tudo desaparecendo, como se jamais tivessem, e/ou nunca existindo, não gerando consequências, tudo tragado por algo ou alguém que por sua vez também não existe, ou que existirá apenas enquanto estiver fazendo com que outros não existam, e finalmente se extinguirá sem deixar resíduos. Os grandes rasgos verdes dos olhos da modelo de cosméticos que estampam espaços publicitários sendo sorvidos, da mesma forma que as sujeiras invisíveis do chão ou as esperanças e tristezas que ainda moram em seu coração. Tudo engolido e moído junto com Angkor Wat e as planícies da Mongólia.
Malraux permaneceu circunspecto, calado, olhos nublados, que para quem o visse poderiam indicar tristeza. Mas ele não a sentia. Ele mesmo não conseguiria definir o que sentia, ou se, de fato, sentia alguma coisa. Estava lá, essa era sua maior certeza, mas mesmo dela possuía desconfianças. Esse instante seria propício ao nascimento de um sorriso, mas dessa vez ele não aconteceu. Os raios de sol rastejaram pelo chão até serem substituídos pelas luzes artificiais, só então ele interrompeu sua imobilidade. Retirou do bolso o tubo de papel e deixou três pastilhas flutuando em sua saliva. Restava-lhe ainda um tubo e meio de pastilhas, assim que constatou o tamanho de seu estoque conseguiu que as pontas de seus lábios se movessem discretamente, dando início a um sorriso que não teve vida longa.
Foi então que, pela primeira vez desde que entrara no aeroporto, Malraux se deu conta que não suportava mais tudo o que havia a sua volta.
Pessoas e objetos lhe causavam asco, mas o que mais o afetava era uma espécie de comportamento padrão que contaminava quase todos os viajantes. As pessoas pareciam bonecos criados para irem a banheiros, olharem para relógios públicos e mergulharem em seus minúsculos universos digitais. Mas não eram apenas as pessoas que se comportavam como relógios suíços, o aeroporto em si era uma engrenagem que se unia a outras e nunca modificava sua rotina, mesmo as sutis mudanças, que às vezes percebia, pareciam fazer parte de uma tentativa de apenas simular modificações.
Dessa vez a passividade de sentimentos deu lugar a uma angústia, que pedia movimentos bruscos ou até algum ato de violência, para que fosse aliviada. Ainda sentia fracas mas constantes dores no dedão do pé, o que o dissuadiu de ataques contra si mesmo. Também não queria ferir ninguém ou destruir objetos. Engoliu a revolta o quanto pode, depois foi até o banheiro lavar o rosto, quando foi enxugá-lo percebeu que lágrimas corriam por ele. Sentou-se no vaso sanitário, fechou a porta do cercado e permitiu que elas descessem na quantidade que quisessem. Então deixou com que seu celular se afogasse nas águas do vaso sanitário. Não teve remorsos. Meia hora depois sentia-se aliviado, não quis lavar os caminhos salgados por onde suas lágrimas haviam descido.
Saiu do banheiro com o movimento do aeroporto começando a diminuir. Elegeu uma cadeira na qual permaneceu sentado por dez minutos tentando planejar quais seriam seus próximos passos. Nada conseguiu definir. O cansaço ainda minava seus ideais, mas a angústia cansara de existir. Levantou-se cheio de uma espécie de preguiça que estalava seus joelhos e lhe espalhava pontadas pela bacia. Atravessou despedidas acaloradas, e olhares inexistentes de homens acostumados a voar todos os dias. Assistiu a bocejos de tédio de vendedores ansiosos para voltarem para casa. Depois diminuiu o passo para contemplar por alguns instantes o sono tranquilo de uma criança pequena em seu carrinho de bebê. Então imaginou a criança adulta, entediada, desfeita de suas purezas, acumulando centenas, milhares de noites, condenada a sonhar durante a noite e desejar durante o dia.
A criança ficou para trás “Elas sempre ficam”, disse em voz alta. Outra ponta de sorriso desfeita pela lembrança das milhares de noites, noites frias ou quentes, recheadas por angústias e expectativas, transformadas por sonhos que se desfazem ao amanhecer e revelam o contrário do que se havia sonhado. Noites pontudas, espetando recordações daquilo que não existe mais. Noites diferentes feitas para combinarem com dias iguais.
Teve vontade de nunca mais dormir, permanecer acordado escutando aos que dormem. Tinha certeza de que não iria invejá-los. Mas se sabia condenado, quando menos percebesse adormeceria, um sono pesado e culpado. Mas por enquanto não sentia o menor sono e era isso o que importava. Colocou mais duas pastilhas na boca para que a fome permanecesse junto com o sono e não viesse lhe perturbar.
Quando passou em frente a uma das portas de saída ela se abriu automaticamente para que alguém entrasse. Do lado de fora uma brisa fresca banhou seu rosto trazendo uma sensação agradável que parecia acompanhada por algum cheiro floral. Interpretou isso como um bom sinal. Continuou caminhando e após algum tempo percebeu que talvez sua interpretação estivesse errada e a brisa significasse um convite para que cruzasse aquela porta. Parou de caminhar pois ainda não estava longe da porta de saída. Talvez pudesse voltar até lá e esperar por um novo sinal.
A imobilidade foi interrompida apenas para que seguisse adiante e se afastasse ainda mais da porta de saída. Novamente havia um corredor conectando dois terminais. Nesse também havia esteiras rolantes, mas elas não eram tão longas quanto no terminal anterior. Deixou-se conduzir, acompanhado apenas pelo ruído mecânico das engrenagens. A essa hora os poucos passageiros aceitavam o ritmo lento da esteira. Ao redor havia vidros que refletiam parte das fisionomias cansadas daqueles que eram levados juntos com suas bagagens para o próximo terminal. Malraux reparou que, assim como fizera, os outros passageiros também procuravam desviar o olhar de suas imagens refletidas.
Assim que chegou percebeu que, ao contrário do anterior, esse terminal era modesto, alguns escritórios de empresas aéreas, fechados naquele horário, um quiosque para se pagar o estacionamento, dois banheiros e umas poucas cadeiras espalhadas pela parte mais afastada do saguão. Havia também uma escada que conduzia ao primeiro andar, mas mesmo sem subi-la, tudo lá parecia apagado. Umas poucas placas indicativas, talvez empresas de aluguel de veículos ou coisas parecidas.
Desde que iniciara sua aventura Malraux já havia passado por outros pequenos terminais, alguns muito menores do que esse. Passeou pelo miolo da sala tentando descobrir aquilo que não podia ser avistado de longe. Sentou-se um pouco e, quando estava prestes a se levantar, deixou com que sua boca se abrisse, e seu queixo pendesse abandonado. Segundos depois, subiu dois a dois os degraus que conduziam ao primeiro andar. Queria certificar-se do que havia visto. Desceu as escadas lentamente com o rosto transformado.
Permaneceu em pé. Sua suspeita se confirmara. Inquieto, buscou todas as janelas possíveis para assegurar-se de que não errara. Todas elas confirmavam: aquele era o último terminal. Era impossível seguir adiante. Sua cabeça se moveu por todos os cantos, seus pés cansaram-se de percorrer o pequeno saguão. Um sutil sorriso cheio de uma esperança volátil foi desfeito quando saiu do banheiro sem descobrir lá uma passagem que pudesse conduzi-lo adiante. Precisava se conformar.
Localizou um monitor que indicava partidas e chegadas, estava ligado, mas todos os espaços destinados a informações sobre voos estavam em branco. Devorou quatro, e depois mais seis pastilhas ao mesmo tempo. Sentiu por duas vezes um bolo gelado descendo até o estômago, na segunda vez o desconforto piscou luzes, indicando que havia apenas iniciado seus trabalhos. As duas últimas pastilhas teve a paciência de chupá-las até que derretessem por completo.
Sua última porção de alimento fora ingerida e até agora conseguia maquiar a fome. Mas ela era tão inevitável quanto as marcas de pneus nas pistas dos grandes aeroportos. Mesmo assim, essa era uma das realidades que menos o incomodava. Não sabia com certeza qual era o maior peso que carregava. Havia bifurcações de todos os tamanhos e cores, umas que passavam por terrenos pantanosos e outras que terminavam em precipícios. Em outras o caminho parecia não ter fim, passaria a vida e adentraria à morte, caminhando.
A azia que experimentava parecia aumentar à medida que novos caminhos se ofereciam. No banheiro vomitou sua última refeição feita de pastilhas, e encheu o estômago com a maior quantidade possível de água. No espelho reconheceu um homem em cujos olhos pendiam lágrimas oriundas de seu corpo e não de sua alma. Deixou com que elas escorressem sem remorsos. Depois de um segundo exame, conseguiu ler uma mensagem escrita de maneira sutil em seu retrato emoldurado no espelho: aquelas luzes brancas sem personalidade pediam a ele uma definição, que escolhesse logo seu caminho. Saísse por uma das muitas portas que o libertavam do aeroporto, ou então que desfizesse tudo o que havia percorrido e terminasse sua jornada no saguão do Aeroporto Charles de Gaulle, onde poderia tanto voltar para casa, quanto novamente comprar uma passagem e viajar para Angkor Wat, ou qualquer outro lugar que desejasse.
Sentindo-se pressionado, Malraux afastou-se do espelho. Caminhou pelo pequeno hall e sentou-se nas cadeiras que estavam encostadas na parede, a última delas, que o separava de um mundo que desconhecia. Ficou ali bastante tempo, analisando todas as possibilidades. O tempo foi suficiente para a chegada da fome, seu crescimento até níveis quase insuportáveis, e até seu ligeiro declínio, quando parecia que o organismo começava a se conformar com a falta de alimentos.
Todos os caminhos gritavam em voz alta que eram melhores e mais lógicos do que os outros, depois expunham as doces consequências que seriam geradas caso eles fossem os escolhidos. Mas também desenhavam em negro o jogo de acontecimentos que se sucederia caso a escolha fosse qualquer outro caminho. Nesses casos a perdição seria dolorosa, estridente e, principalmente, vergonhosa.
Malraux, aos poucos, foi curvando-se. Sua cabeça por pouco não encostava em seus joelhos. Passou a mover-se pouco e dormir naquela mesma cadeira. Conseguia alguma comida enfiada nos grandes cinzeiros em forma de torre, ou então contava com a misericórdia de alguns poucos passageiros.
Continuou analisando possibilidades sem jamais conseguir se decidir por uma delas.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
