
Gostava de atravessar galerias. Mesmo não precisando ir a lugar algum. Nem percebia as lojas enfileiradas, atenção ao piso, ao teto e aos rostos com que cruzava. Os túneis urbanos separavam luzes de duas avenidas. As travessias interrompiam o fluxo encadeado de ideias. Durante noventa segundos permitia que os canos enferrujados do pensamento alheio gotejassem aleatórios, espalhando círculos que se expandiam até as bordas de seu tempo, e às vezes, como fazem as gotas de óleo, derramassem cores inesperadas.
Recebia também os rostos, cada qual arrastando consigo manchas transeuntes, que derretiam como algodão doce, mas sempre deixavam algum resíduo. Uma mulher jovem era uma pitada de medo, o executivo de terno e gravata abandonou dois sacos de sal do cotidiano, e uma menina de sete anos esqueceu as raízes secas de um pé de surpresas. Colecionava esses detritos, divertia-se em catalogá-los. Estocava-os em dois grandes barracões mentais, aos quais recorria quando queria aprender algo sobre a condição humana, ou simplesmente dar umas boas risadas. Com o passar dos anos, como ele fazia o tour das galerias ao menos duas vezes por dia, os barracões começaram a ficar sobrecarregados. Emoções empilhadas sobre sentimentos que deveriam ser guardados em caixas especiais e fechadas a chave. Como um terceiro barracão mental ele não queria construir, decidiu que não aceitaria mais pedaços de pessoas, sentimentos, alegrias. Entretanto, não desistiria das caminhadas diárias pelas galerias, sua grande paixão. Precisava arrumar outra diversão. Nas duas primeiras tentativas o que conseguiu foi ausentar-se do mundo, olhar para cima e percorrer os cento e vinte metros sem pensar em nada. Além de não fazer sentido, aquilo não tinha a menor graça.
Tinha de mudar de atitude, se olhar para o teto sem pensar em nada era um extremo, buscaria a outra ponta da corda. Para pensar sobre esse assunto escolheu um lugar com vista para uma galeria. Derramava grandes quantidades de açúcar no café, depois assistia ao naufrágio de uma cor devorada por sua oposta. Com a garganta aquecida percebeu o ar condensado que o frio fazia sair das bocas que entravam na galeria. Precisava atravessá-la.
Deixou três moedas sobre a mesa e caminhou o mais devagar que pode. O tempo poderia presenteá-lo com alguma ideia. Um táxi. Fixou-se na intensa cor alaranjada do carro. Depois na mulher carregada de sacolas que saia de dentro. Nada. Pistas falsas. Cada significado verdadeiro é embrulhado por milhões de outros, muito parecidos, mas que não servem para nada.
Aspirou o ar gelado de junho. Agora é comigo. Enxergo o outro lado da galeria. Quando tiver atravessado quero ser um homem modificado, tenho um minuto e meio para isso. Mas como? Modificar o quê, para quê? Começa a chover, é a deixa para resolver meus problemas ou aumentá-los. Dou o primeiro passo. Sinto que algo vai acontecer. Um frio profissional percorre minha espinha. A galeria está igual a todos os dias. Pelos ares pairam eflúvios de espera, conquista, tédio e chateação. O teto hoje parece especialmente mais descascado. Ando, quatro, cinco passos, o piso está escorregadio como sempre. Mas eu preciso do fato novo, do grandioso. Uma horda de anões morais vem na contramão, sou o príncipe espiritual, os anões carregam suas sacolas cheias de produtos de quinta categoria comprados dentro da galeria, estou imune a esses desejos comerciais, sou tão grande que vou tentar aquilo que passariam um milhão de anos antes que eles tivessem a ideia, e quando a tivessem, faltar-lhes-ia o desejo.
Vou atravessar a galeria com passos lentos, olhos pregados na porta de saída. Durante o percurso vou tentar decifrar o grande segredo da vida. Abro todos meus canais de comunicação e recebo sentimentos, vibrações, sabedorias alheias. Depois preciso digerir tudo isso, e quando pisar fora da galeria serei um homem modificado, e meu pé, tocando a pedra branca do calçamento, será o marco de um mundo melhorado. Pretensioso? Claro que sim. Não conseguirei tudo o que quero, mas uma fatia microscópica já seria suficiente para me tornar melhor do que sou.
A condição humana, a busca pela felicidade, o direito à extinção de uma raça, a humana, a descoberta científica de deus e o consequente mapeamento divino, uma maneira mais madura de lidar com a ilusão tempo-espaço, a necessidade da descoberta do símbolo supremo, uma máquina capaz de extirpar todas as dores humanas, inclusive aquelas que trazem prazer, sobreviverei em meu filho? Vida vegetariana em cavernas sem celulares, geladeiras, dormir com o sol se pondo acordar com ele chegando, colher, fogo, plantar, ou conquistar o outro para dominar suas posses?
Não sei se meu estômago aguentará todas essas questões, e para cada uma que for respondida, surgem dez novas ainda mais difíceis. A morte, a vida fora do universo físico, as muitas dimensões, devo conseguir misturar essas questões com uma adolescente comendo uma maçã, ou um velho que se prepara para dormir. A eternidade devo amarrar a um caixão cheio de carne amarela vestida e doze pessoas a sua volta. Chorando e fingindo que não estão pensando apenas no instante em que cada uma delas estará no centro da roda.
Começo, caminho devagar, mas não posso exagerar, senão chamo a atenção para mim. O olhar fixo no final da galeria também pode atrair curiosos. Passeio a cabeça pelas lojas, o que vai acabar me distraindo. De novo, as grandes questões, de onde viemos, haverá um sentido para a vida humana além da busca vã? Um anão, esse verdadeiro, carrega uma pasta 007 que por dois centímetros não encosta no chão. Um terço da galeria já se foi. Vou parar, olhar uma loja e voltar a me concentrar. Porcarias vindas da China, Papais-Noéis que cantam, globos que projetam luzes coloridas, ferramentas, cadernos escolares, doces, há também produtos nacionais, canecas em forma de porco estampadas com emblemas de times de futebol. Embrulho mentalmente todo esse lixo para construir em cima dele o meu pedestal filosófico. E o que coloco em cima dele? A vendedora vem em minha direção, preciso andar. No futuro haverá a união dos homens, que perceberão que tudo que conduzir a uma disputa atrapalha o ser humano, e a única força sólida da humanidade é a união plena, deixando para trás ideologias, dinheiro, religiões. A humanidade se transformará em sua própria religião, sem dogmas, deuses ou livros sagrados.
Lindos olhos azuis, me viro para conferir o resto da embalagem . Metade da galeria. Não posso mais perder tempo. A física quântica, o entrelaçamento de todas as realidades, agricultura e soluços estão conectados, é preciso que todos consigam entender esse imenso crochê com o qual está construído o que existe. Se não conseguir haverá outras galerias, múltiplas chances de continuar descobrindo. Não. Mentira, muitas chances de repetir o fracasso. Um zelador idoso, trinta anos de galeria, frágil, rugas escorrem como a cascata da desistência. Vontade de gritar. Meu pensamento é a explosão de uma barragem, águas aleatórias devastam minhas intenções. As pessoas com quem cruzo não são distrações, são os símbolos cifrados pedindo leitura. O anão, a bela moça, o velho zelador, não há respostas neles, mas nenhuma delas deixa de roçar-lhes as nucas, nem de espalhar-se pelos espaços vazios, recordações instantâneas que o cérebro cria para nos proteger de buracos sem fundo.
Eu também, sou todos eles, e é em mim, que tentarão encontrar as respostas que buscam. A chuva parou e o sol do final da galeria arrasta-se pelo chão, parecendo sugerir, venham para o meu calor e esqueçam as bobagens que procuram, um prêmio de consolação para os humanos. Mas ainda faltam alguns metros, vou andar bem devagar, parece que outras pessoas decidiram acompanhar a minha velocidade. Um exército, eu os contaminei, sem querer, mas agora todos andam devagar porque antes do final da galeria querem descobrir o significado primeiro da existência. E se não houver nada? Se os intervalos forem espaço cheio de nada, e as pessoas, animais que falam, sonham, mas que acabam sempre como animais, enterrados. Já estou sob o sol do final da galeria, as outras pessoas perambulam confusas e aos poucos vão se dispersando. E agora? O que sobrou? Sou fraco, não percebi como as coisas mais importantes aconteceram, eram detalhes, sutilezas. Se houver uma próxima vez, ela será sempre pior.
Sento-me para tomar um café na última loja da galeria, encontro alguns conhecidos, sugerem cerveja, enchemos os copos, os assuntos não conseguem sair de dentro de um campo de futebol, esqueço as preocupações que me conduziram até aqui. Permito que a cerveja alivie meus nervos e aumente a importância do que se discute à mesa. O sol poente contorna cabeças, transformando aquele conjunto de homens em uma bola dourada que começa no alto da janela e termina nos restos de cerveja. Por um minuto sinto uma solidariedade imensa por aquelas figuras sem importância que mal conheço. Durante um instante ela se transforma em amor. Depois em sombras. Dentro dos copos sobrou espuma. Na parede espelhada descubro meu reflexo e nada mais. Encontro retratos de minhas fraquezas espalhados pelo bar. Desvio olhares, até só conseguir encarar minhas pernas, e para minha surpresa descubro-as sólidas, bem postadas no chão, como as raízes seculares de um grande carvalho.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
