Coluna Lila Maia: As maçãs de antes + 4 poemas

Ilustração: Freepik

 
AS MAÇÃS DE ANTES
 
Onde estão a catedral que me vigiava atenta
a vontade de lamber sinos para que minha língua
pudesse falar de glórias?
Vagueia pelo quarto uma véspera,
uma demora sobre o corpo
sem o sol, a varanda, as maçãs de antes.
 
Quero a mesma brancura das areias do menino,
o castigo leve quando insistia em ser Pinóquio,
o medo das histórias de assombração
contadas por Maria Adélia.
 
Há um touro tombando só para o lado esquerdo,
uma arena de memórias.
Pudesse eu trazer de volta para a gaiola
o canário do meu irmão Olímpio
e algumas cenas da infância
que tinham o dom de me perpetuar.


DIFÍCIL AMANHECER
  
Depois de tudo
ainda gravitam cheiros,
teu sorriso, um fogo lento nos dedos.
 
E pensar que terei de calar num dia claro
onde minha voz e os olhos me traem.
 
Falo de amor.
Como se pudesse misturar
carinho, poesia em toda parte.
É que meu peito antes músculo,
agora é flor batendo.
Se insisto, é pelas açucenas,
por tua boca,
nesse poema escolhido.


PARECE UM ANJO, MAS NÃO É
  
Demora-se no escuro aquela calça aberta.
Era só um homem. Porque sabia me amar
ignorei os gestos mais bruscos no poço desta sede.
Tantas águas… mas era um homem,
forte,
 
me afoguei.


O AMANTE
(Com o pensamento em Murilo Mendes)
 
O mundo começa nos pés de Ezequiel.
Depois vêm as mãos espalhando desejos
sobre aquele mar branco
ora é um navio atracado sobre as areias,
ora este menino chutando vento.
E me comovem o ar puro de seus braços agitados
que não pedem socorro, só liberdade
suas costas com poemas de bichos desconhecidos
seu intocável abismo de pássaros ou fantasmas
aquela anarquia eterna de línguas,
o mistério de cada audácia.

Ele é sempre uma visitação.

Com Ezequiel não retorno ao lar
acendo sozinha as luzes da casa.


FAMÍLIA
 
Mesmo gesto repetido,
milenar.
Das coisas intactas, mexidas.
Insetos mal resolvidos.
 
Ser agora a borboleta
é rever a casa.



LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS  MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.  

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *