
FELICIDADE
Toma, homem,
este é meu corpo.
Barco a vela
como qualquer embarcação.
Nas marés da sorte,
a maturidade de ir dominando o fogo.
Os enganos não enganam mais.
Gosto deste ai não lírico,
do meu jeito cigano de nunca mais acreditar.
Toma, homem,
estas batidas mínimas.
O que chamo amor está em Bangcoc, Beirute.
E visto a roupa porque espero o galope lento, lento das palavras.
A poesia pode tudo.
OPOSTOS
A cada dia trabalho tua terra e não vês.
Ainda assim, meu corpo cristaliza o gesto de plantar
enquanto és visto correndo no pasto.
Nasci para ter alimento e ser apaziguada.
Sempre dizes que os ventos te guardam.
É entre paredes, lamentos,
que a água que resvala em mim não te toca.
Temos em comum mais naufrágios do que mar.
A SERPENTE
O previsível bote entre minhas coxas
não possui a centelha rara de antes.
O desejo passa sem aroma,
sem as antigas gotas de suor.
Onde está o soberbo rastejar
no menor espaço da cama?
Que fizemos com aquele recriar constante
de corpos colados, luzes acesas,
nossa santa insanidade?
O previsível bote entre minhas coxas
há muito deixou de ter o generoso veneno.
UM HOMEM
Porque me escolheste
soletro teu nome banhada de chuva.
Depois deito contigo querendo de volta
as minhas fontes primeiras.
Esse homem quando me toma e ordena
ressuscita vertigens e todos os verbos do sofrimento.
Porque me escolheste
tenho ao redor da casa um caudal de lírios e medo.

LILA MAIA é maranhense e vive no Rio de Janeiro. Poeta, pedagoga. Escreveu os livros de poemas: DE PORTA EM PORTA ABRO JANELAS (Patuá), UM RIO A CADA DIA (Academia Maranhense de Letras), AS MAÇÃS DE ANTES (vencedor do Prêmio Paraná de Literatura 2012 – Prêmio Helena Kolody de poesia. Com esse livro foi semifinalista do Prêmio Oceanos); CÉU DESPIDO (vencedor do II Prêmio Literário Livraria Scortecci-SP) e A IDADE DAS ÁGUAS.
Respostas de 4
Bela, humana, erótica, profunda poesia!
O feminino sem militância em Lila Maia torna a poesia imparcial e generosa quanto à alma humana livre de gêneros e outros “rótulos”. A poesia do humano que por acaso é a mulher ou o homem. Aqui o histórico, sem desconsiderá-lo, cede maior atenção para os contrastes do sujeito em sua idiossincrasia. O fenômeno político é preservado apenas para a autora não cair justamente em bandeiras levantadas. São nas situações liberadas que a poesia floresce, naquela possibilidade mínima a flagrar inclinações, pulsões de uma vida de que o humano se faz. Somos todos inocentes e todos culpados e lirismo,já que são comportamentos intrínsecos que evidenciam os personagens sem demarcações externas. Assim, o erótico, a temática amorosa estão em versos em Lila Maia que não se precipita quando conceitos sociais e suas fantasias desonestas, desmentidas no literal e no simbólico.
Jandira querida,
Obrigada pelos poemas publicados, pela força que essa revista dá aos poetas.
Geovane gostei muito do seu comentário. Obrigada.
Sebastião muito obrigada.
Um abraço carinhosos,
Lila
Lila querida, muita honra ter você aqui, sempre fui uma grande fã da tua poesia.