Coluna Luís Palma Gomes: Do Amor

Ilustração: George Frederic Watts


Escolhi sempre amar com o platonismo dos românticos, para que ninguém soubesse sequer da ânsia que grassava no meu peito. Escolhi essa forma narcísica e reflexiva apenas para conter os efeitos colaterais desse sentimento que levantou à volta de Tróia um cerco de dez anos e matou Pátroclo e Heitor também.
 
Escrevi então poemas exagerados, quebrando todas as regras do bom gosto. Esses versos pareciam-me, porém, a quintessência da literatura, fragmentos de Safo esquecidos nas tralhas que deixamos para trás quando mudamos de casa.
 
É natural que, ao recordar esses tempos de dormência e hipnose, regresse aos lugares-comuns de outrora. O amor é sempre igual, repetitivo, e assim tem sido desde sempre, desde que, em vez de um anel de diamantes, o amante oferecia à sua rapariga uma orelha seca de mamute.

 
Lisboa, 28 de março de 2026



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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