O que é reto, perfeito, posto em ordem, conforme a ordem consagrada, feito com estabilidade da harmonia conhecida e prevista, pode suscitar a inquietação do gesto criador humano: primeiro para subverter o equilíbrio instalado, contrariar a expectativa, desarmonizar o consolidado, como uma resposta orgânica, instintiva, da continuidade da vida pela desestabilização do que se fixa, da evolução por meio da revolução dos padrões, da mutação que transcende o sempre repetido, da transmutação que impulsiona a renovação dos ciclos; segundo, para reconhecer que tudo o que há é, enfim, a instabilidade, o transitório, mesmo que tal condição venha a ser fixada num dado momento com poder de evidenciá-la e representá-la artisticamente.
Um momento desses é vivamente realizado na escultura “Tau”, fruto de parceria dos artistas Pascal Ruesch e Renato Brunello – obra integrante da atual exposição do primeiro, recém-aberta em São Paulo –, que, embora sólida, firme, resistente, consagra a impermanência a ponto de provocar em nós o reflexo da passagem, do movimento – sempre temporário – que nos traz inquietação, tirando-nos do confortável apoio do estabilizado e ilusoriamente definitivo.

De cara, a esperada disposição dos materiais é subvertida: a pedra, o granito semibruto, que pode representar qualquer fundação sólida, usual base de uma construção ou de uma escultura, está posta pesadamente ao alto, enquanto a madeira, com sua maior leveza e perecibilidade, previsível cobertura, sustém desde o chão o denso conjunto, cujo intermédio é o mármore que, apesar de também ser pedra, é aqui polido, incorporando-se o delicado à sua original dureza e rudeza, de modo a “elevá-lo” esteticamente sem que perca o peso de sua presença. Tal inversão se acopla à instabilidade sugerida pela ameaça da inclinação colossal da pedra superior, que se mostra implacavelmente presente, embora o corpo tripartite se sustente com integridade.
O corpo intermediário, que pode aludir a tradições arquitetônicas e artísticas desde a antiguidade – também o nome “Tau”, da letra grega, é sugestivo não só da forma adquirida pela obra (um grande “T”), mas também da tradição escultórica ocidental –, apresenta dois aspectos fundamentais: primeiramente, a sua condição de não acabado, que evoca a ideia do non finito em arte – lembre-se, entre outras referências, de Michelangelo –, representativo da ênfase no ato, no processo, em vez da fixação do resultado; depois, a fisionomia que adquire o inacabado: a coluna marmórea parece ceder ao peso, entortar-se e enrugar-se como o faria um material flexível, de modo a interagir com a condição imprevista do peso em desequilíbrio. Os binômios finito / non finito, estável / instável perpetuam os gestos que dialeticamente põem em ação um conjunto fundado na própria mudança.
Ruesch me falou sobre o processo de composição da obra, nascida de uma visita sua ao ateliê do escultor que seria seu parceiro nessa empreitada: lá viu a coluna sendo esculpida, e ocorreu-lhe propor a Brunello que realizassem, em coautoria, um trabalho a partir daquela peça tal como se encontrava então, inconclusa. Assim surgiu o projeto da escultura “Tau”, que também incorporou outro material presente naquele ateliê, o granito, além da madeira buscada num produtor de móveis confeccionados com troncos de árvores.

O reaproveitamento inusual é marca de todo o trabalho de Pascal Ruesch (como pode ser conferido na referida mostra, em cartaz na Galeria Lica Pedrosa – Arteformatto), que contrapõe ao esperado uma visão particular capaz de ganhar universalidade pelo processo infindável de questionamento e reatribuição de potencialidades, papéis e funções na criação de imprevistos que, mesmo perenizados, jamais se acomodam na mesmidade.


Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.