
Um soco no rosto e alguns chutes. Poderia ter sido pior se não fosse o coordenador e alguns alunos separando. Saiu correndo ofegante, descendo as escadas com as pernas trêmulas, segurando choro para ninguém perceber. O banheiro estava vazio, ainda bem, mas a notícia já havia se espalhado por toda a escola. Naquele instante era apenas a professora que havia apanhado de aluno.
Maria Luísa teve uma infância simples e feliz no interior de Minas. Não podia reclamar que nunca brincou. Tinha muitos irmãos, primos e vizinhos para brincar. De todas as brincadeiras a preferida era de escolinha, fingia tão bem ser professora que todos diziam que ela levava jeito, que havia nascido para aquilo.
Quando adolescente, ela e a família se mudaram para Belo Horizonte. Em uma região periférica próxima de alguns parentes. Rapidamente, o estranhamento inicial se dissipou. BH não era tão grande nem tão diferente assim do que estava acostumada. Fez novas amizades com certa facilidade e teve um pouco de dificuldade na escola, lá precisava estudar mais do que estava acostumada.
A mãe era diarista, alguns dias trabalhava no Sion, outros no Belvedere. Então, Maria ajudava nos deveres de casa, era extremamente organizada. Aos finais de semana, ia ajudar nas faxinas. Dentro do ônibus observava as diferenças da cidade, fachadas bonitas, edifícios estonteantes e mansões. Nunca reclamou de ajudar, não se importava de trabalhar.
Quando jovem, após formar no ensino médio, não seguiu a mesma profissão da mãe. Surgiu a oportunidade de trabalhar como balconista em uma padaria na Savassi. Aproveitou a oportunidade, ter o próprio salário, carteira assinada, precisava de dois ônibus para ir e dois ônibus para voltar para casa.
Determinada, queria alcançar o seu sonho. Começou a estudar para tentar passar em uma universidade. Não conseguiria estudar em uma que fosse particular. A família não incentivava nem criticava, apenas enxergava como uma realidade muito distante. Ninguém ali havia estudado, só de Maria Luísa ter formado no Ensino Médio já era uma grande conquista para todos.
Após três anos, Maria Luísa conseguiu passar em uma universidade pública, na federal, no curso de Letras – licenciatura. Sentiu que a vida ia mudar, se transformar. Há tempos não sentia tanta alegria, o céu foi tingido por tanta euforia. Havia se tornado o maior orgulho da família. A primeira a entrar em uma universidade. A mãe não conseguia se conter e repetia inúmeras vezes para todos ao redor que tinha uma filha universitária, uma filha que futuramente seria professora.
Assídua e comprometida, trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Vendia trufas de chocolate para ajudar nas despesas, somente o salário na padaria não dava para se manter e ajudar em casa.
O dia da formatura foi o dia mais feliz de sua vida, as lágrimas escorriam enquanto não conseguia conter o sorriso. O sonho estava em suas mãos, havia conseguido, havia vencido.
Frames em plano sequência de um filme passava agora em sua mente, memórias sendo revividas e ela ali trancada no banheiro. Olhou-se no espelho, o rosto com hematomas. Sentia vergonha, medo, frustração, impotência. Batiam na porta, ela só conseguia dizer que estava bem. A boca amarga, garganta entalada, estômago revirando, coração disparando, ouvia gritos, xingamentos, comentários, tudo disperso, fragmentado, escutava a si mesma e era ensurdecedor, sonhos e expectativas brigando entre si, esperança se esvaindo em seus poros, a face azeda, os olhos mortos, os lábios pálidos e cerrados. Não sabia o que fazer. O que haveria de fazer? Rasgar o que foi tão difícil conseguir ou prosseguir no que já estava rasgado? Andar sobre os escombros do que um dia foi sua alegria? Olhava os degraus daquela escada em que havia chegado, já havia subido tanto com tamanha dificuldade, era o momento de se jogar dali? Ou de qualquer forma cairia daquela escada ou se jogando ou sendo empurrada por outros? Sentia-se perdida, desamparada.
Lavou o rosto, a água gelada na face queimando. Ergueu a cabeça, abriu a porta. Respondeu a todos que estava bem. Alguns preocupados, outros curiosos. Olhares de dó, olhares de maldade, olhares de deboche, olhares de dor. Desviou de todos os olhares e vozes, subiu cada degrau daquela escada novamente respirando fundo e com a cabeça erguida. Voltou a sala de aula, pediu desculpas pelo atraso, silêncio absoluto daqueles 34 adolescentes. Ligou o ventilador, a pele ainda ardia. Pediu a todos que abrissem o livro na página 55 e realizassem a atividade. Paralisada enquanto as páginas se mexiam, o ventilador se movia, olhou para o abismo. Decidiu dançar sobre os cacos de vidro.
Iris Pongeluppi (27/10/1994) é mineira de Belo Horizonte, fascinada pela arte, escreve prosa e poesia desde a infância. Autora do livro de contos Intangíveis (2018) e do livro de poesia Veemente como o Sol (2025) pela editora Minimalismos, já realizou uma exposição de poesia e participou de algumas antologias literárias. Ademais, já publicou textos (poemas e/ou contos) na Revista Barbante, Revista Lira, Beco dos Poetas, Ruído Manifesto, O Odisseu, Variações, Oásis Cultural, Mirada Janela Cultural, dentre outros.
