
I
Piotr tinha nascido no seio de uma grande família de São Petersburgo e dele esperavam-se grandes coisas. A mãe dizia que ele havia de ser um grande diplomata ou juiz. Iria, seguramente, aconselhar o Czar em todas as matérias de verdadeira importância. O pai anuía abanando a cabeça.
Aos doze anos, Piotr tinha aulas de violino, cálculo e literatura, embora para nenhuma das áreas mostrasse apetência alguma. «O tempo mostrará a sua vocação», dizia a mãe. O pai anuía silenciosamente. Na verdade, o pai de Piotr acenava positivamente a tudo o que Irina, sua estimada e locuciosa esposa, dizia.
Vestido com as melhores roupas, Piotr acompanhava os pais a todos os grandes e ilustres jantares. Não raras vezes, o jovem enganava-se nos talheres, ao que Irina comentava «o génio deste rapaz é tanto que é natural que se esqueça de coisas tão triviais». O pai acenava afirmativamente, como sempre – e, como sempre, todos os presentes sorriam positivamente; muitos eram os projectos em São Petersburgo patrocinados pelos bolsos de Irina.
Numa certa tarde, estava Piotr a estudar História com o seu tutor. O tutor, talvez por doença ou talvez pela idade, amiúde tapava os olhos com as mãos ou inspirava como se tivesse apneia. Às vezes levantava-se da cadeira após certas respostas do pequeno prodígio. Numa dessas vezes, Piotr viu pela ornamentada janela que o seu pai, Dimitri, estava mais uma vez a brincar com o jovem Aleksei, o filho da criada. Piotr não gostou. Aliás, Piotr detestava aquela criança claramente inferior em estatuto. Dimitri levava o pequeno Aleksei a caçar, tinha-o ensinado a cavalgar e deixava-o correr pela casa da família — sim, um bastardo a correr pela sua linda e histórica casa. Naquele dia, o seu próprio pai estava a ensinar aquela criança insuportável a manejar a espada. Não era uma espada qualquer, era a espada da família. Piotr nunca tinha aprendido a manejá-la por respeito ao seu pai. E porque ela cortava, claro.
Depois da aula, Piotr encheu o peito e foi ter com Aleksei. Apesar de ser dois anos mais novo, Aleksei já era mais alto do que Piotr. Piotr percebeu que, tacticamente, talvez não fosse boa ideia confrontar Aleksei directamente. Assim, cheio de coragem, pagou a três outros rapazes, matulões como o próprio Aleksei, para o porem no sítio e lhe dizerem que não deveria aproximar-se do pai de Piotr.
Os três jovens encurralaram Aleksei enquanto Piotr, genialmente, espreitava por detrás de uma árvore. Infelizmente, o sol batia-lhe na cara e Piotr teve de se expor mais do que queria. Ao contrário do que pensara, Aleksei não se ajoelhou a pedir por misericórdia. Estranhamente, a irritante criatura lutou contra os três matulões como um urso irado. Claramente, aquele rapaz não sabia o seu lugar. Apesar de Piotr não ter visto Aleksei prostrado, viu-o bastante ferido. Até sangue saía. Piotr desviou o olhar.
À noite, durante o jantar, Piotr sorria. O pai chegou mais tarde. Piotr ia contar-lhe a sua grande façanha quando o pai o esbofeteou com tanta força que Piotr caiu da cadeira. Irina levantou-se imediatamente e pôs-se à frente de Piotr. Por algum motivo que o nosso herói nunca chegou a compreender, Dimitri abandonou a sala e foi para o quarto da criada confortar o irritante Aleksei. Piotr chorava com a dor da bofetada. Se ao menos Aleksei chorasse, Piotr sentir-se-ia melhor.
Piotr cresceu e também Aleksei. Dimitri era um homem alto, mas Piotr cresceu apenas para os lados. Aleksei, porém, veio a tornar-se da altura de Dimitri.
Passados alguns anos, Dimitri morreu. O seu último e estranho pedido foi abraçar Aleksei, a quem deu a sua espada. E assim, com o corpo de Dimitri ainda quente, Aleksei finalmente saiu da casa e com ele a serviçal, sua mãe. Irina e Piotr exibiram o mesmo sorriso à saída dos dois.
II
O tempo voou e, sem que Irina desse por isso — ou que Piotr encontrasse a sua vocação para coisa alguma — chegou a idade socialmente entendida como «de casar». Num grande baile dado pela viúva Irina, Piotr conheceu a jovem Katya. Katya era a mais deslumbrante de todas as deslumbrantes jovens presentes no grande baile. Os olhos dela eram uma mistura de cores que acabava num azul invulgar, raiado de preto e verde. O cabelo era loiro, mas mais escuro que o normal em São Petersburgo. O vestido era branco e fazia-a destacar-se das demais; era um vestido branco simples, sem ornamentos ou jóias excessivas. Ela caminhava com uma confiança que inspirava o nosso herói. Katya, porém, não era tão abastada como as outras jovens presentes. O seu pai era banqueiro e isso fazia da família dela parte da burguesia urbana. As outras raparigas presentes eram, como Piotr, parte do Dvoryanstvo — a aristocracia de São Petersburgo.
Piotr queria convidar Katya para ir com ele até à grande varanda, mas decidiu esperar pelo momento certo. O momento certo seria, obviamente, quando Katya tomasse a iniciativa. Irina, por outro lado, foi apresentando várias jovens ao seu filho durante o baile, todas elas do Dvoryanstvo. Piotr, porém, só queria falar com Katya. Desejou que a sua mãe conseguisse ler os seus pensamentos e ordenasse a Katya que viesse falar com ele. Tal não aconteceu e Piotr teve de falar com jovens desinteressantes durante o resto da noite.
Piotr tinha já perdido toda a esperança quando, enquanto bebia mais um copo de vodka com água num canto do salão, Katya veio falar com ele. Piotr tremeu perante Katya, mas fez o possível por endireitar as costas e descrever-se como interessante. Foram para a varanda ver o céu estrelado da capital e o reflexo das estrelas no rio Neva.
Por fim, a mãe de Katya foi chamá-la. Tinham de ir. A senhora não parecia contente por ver Katya com Piotr. Que melhor partido poderia ela querer para Katya? Piotr foi para o seu quarto a assobiar com um sorriso de orelha a orelha. Pelo caminho, até disse boa noite aos criados. Dormiu feliz naquela noite.
No dia seguinte, Irina chamou-o ao salão logo de manhã. Com a matriarca estava uma jovem muito bem vestida. A jovem chamava-se Sasha e, devido a um problema com a carruagem, não tinha podido estar no baile. Irina anunciou que esta seria a esposa de Piotr. A família dela era do Dvoryanstvo e tinha tanta influência como a própria Irina. A jovem Sasha não riu nem sorriu. As suas costas e expressão eram tão firmes como um guarda do Czar.
Por dentro, Piotr fumegava. Pediu à mãe que falassem em privado.
— Mamã, já encontrei uma rapariga de quem gosto. Não quero a Sasha! — disse de punhos cerrados e batendo com o pé direito no chão.
— Mas não disseste nada ontem! Quem é? A Galina? A família dela tem o favor do Czar. Ou a Daria? O pai de Daria tem dois castelos e conhecimentos no estrangeiro!
— Não, mamã. Katya!
— Katya? Quem é essa Katya?
— O pai dela é médico, a mãe dela é Sofia Ivanova.
— Os burgueses.
Irina cruzou os braços por momentos com um ar sério. Depois de pensar, sorriu.
— Podes apresentar-ma hoje?
— Hoje, mamã? — perguntou Piotr com os olhos a brilhar.
— Sim, quanto mais depressa resolvermos isto, melhor — respondeu Irina com um leve sorriso.
— Claro, mamã! Vou enviar recado pela criada!
De tarde, Irina e Piotr foram a casa de Katya. Com eles foram dois fortes criados. Irina explicou a Piotr que nunca deve uma sogra visitar a futura nora sem levar presentes. Katya esperava-os à porta com um enorme sorriso que não conseguia conter. A mãe dela estava ao seu lado. Depois das formalidades da chegada, Piotr, Irina e os criados foram levados à sala de Katya.
— É uma honra para nós que o menino Piotr e a nossa filha estejam tão apaixonados — disse submissamente a mãe de Katya.
— Pois, quanto a isso… — respondeu Irina com o seu ar austero enquanto fazia um sinal aos criados.
Os enormes servos pegaram em Katya e começaram a espancá-la, focando-se especialmente no rosto. Piotr levantou-se de imediato, olhando incrédulo. Por dentro queria atirar-se a eles ou pelo menos gritar que parassem, mas eles eram grandes. Por fim, Irina dirigiu-se à lareira e pegou no ferro em brasa. Aproximou-se de Katya que chorava de dor e apontou-lhe o ferro em brasa à cara.
— Se o meu Piotr gosta de ti por seres bonita, fica assim o assunto tratado.
— Piotr, por favor — implorou Katya em pranto.
Piotr queria intervir, mas não ousou contrariar sua mãe. Virou a cara quando o ferro desfigurou Katya, mas não conseguiu impedir o odor a carne queimada de o fazer estremecer.
No dia seguinte, o noivado de Piotr com Sasha foi anunciado. Dois meses depois, estavam casados.
III
Através da influência conjunta de Irina e da Sasha, Piotr conseguiu o cobiçado cargo de conselheiro do Czar. Sempre que Nicolau II, Czar de toda a Rússia, entrava na sala, Piotr levantava-se, curvando-se. Passaram-se vários meses. O Czar ouvia todos, mas saltava sempre Piotr. De facto, nunca tinha Piotr dirigido a palavra ao Czar, especialmente por não saber o que dizer.
Não se pode dizer, porém, que não tivesse uma vida atarefada. Muitos eram os papéis que tinha de assinar, ainda que não os lesse. Chegava a casa exausto. Beijava a mão da sua mãe e depois cumprimentava a esposa. Irina, porém, começou a adoecer lentamente.
— Mamã, quer que fique em casa? — perguntou, visivelmente preocupado, Piotr.
— Não, filho. A Sasha toma conta de mim; não é verdade, Sasha?
— Claro, não te preocupes, Piotr — respondeu Sasha — Tenho um chá de família que vai fazer a minha estimada sogra melhorar num instante.
Piotr sorriu confortado. Todos os dias, Irina bebia o chá de duas em duas horas. A saúde, porém, não melhorou. A cada chávena de chá parecia que Irina definhava mais. E por fim, como todos os que já viveram, Irina simplesmente morreu.
Sasha mandou fazer um grande funeral e mandou que estivessem presentes todas as famílias importantes de São Petersburgo. Todos os nomes importantes despediram-se de Irina e todos eles souberam que Sasha era agora a matriarca; o bolso que fazia São Petersburgo girar. Deram os pêsames ao inconsolável Piotr e fizeram uma enorme vénia perante Sasha.
Na semana seguinte, a enorme casa de família de Piotr já tinha sido completamente redecorada ao gosto de Sasha.
IV
Passaram-se anos e Piotr manteve a sua posição. Os seus colegas perguntavam entre si por que Piotr ainda não tinha filhos. Piotr não lhes respondia. Sabia que o Czar dava valor à opinião deles, por isso fingia que não ouvia e ficava estrategicamente escondido no seu canto — canto esse que era cada vez mais pequeno, apesar de Piotr ter ainda oficialmente o mesmo cargo.
Tudo parecia estar imutável na vida de Piotr. Ia a jantares e bailes com Sasha. Anuía ao que ela dizia. Certificava-se do pagamento dos seus criados. Assinava papéis. Ouvia os colegas aconselharem o Czar.
Certo dia, porém, o próprio Czar anunciou que o grande Palácio de Inverno devia preparar-se como nunca até então. Queria o maior baile e todas as honras. Nada poderia faltar. Aconselhou-se com os colegas de Piotr. Piotr tentou meter-se por entre os colegas para saber o que se passava, mas não conseguiu ouvir bem.
Em casa, contou o que sabia a Sasha. Sasha ficou desagradada por não ter toda a informação, mas já tinha a suficiente para saber que tanto ela como o ilustríssimo marido tinham de estar com as suas melhores roupas no Palácio de Inverno dali a dois dias.
Dois dias passaram. A guerra que iria pôr fim a todas as guerras estava nas bocas de todos. Na margem do Neva, o Palácio de Inverno parecia luzir. As pessoas entoavam cânticos e o próprio Czar esperava na grande escadaria o herói da batalha de Gumbinnen. Diziam as bocas que ele quase sozinho tinha feito o exército russo resistir ao que parecia perdido, enfrentando heroicamente todo e cada inimigo. Tinha começado a batalha como mero tenente, mas a sua bravura deu-lhe o posto de comandante.
Piotr não se importava com a guerra. Apenas queria que ela se mantivesse longe de São Petersburgo; o resto não era com ele. Mas estava curioso sobre este suposto herói. Seria, seguramente, descendente de alguma família nobre sua conhecida. Por outro lado, como podia um nobre estar no meio de tanta terra, pó e — que horror— sangue? Piotr detestava sangue e sujidade em geral.
Finalmente, com a pompa prometida, uma grande carruagem dourada parou em frente ao palácio. Os nobres aglomeraram-se para ver o herói de Gumbinnen. Piotr tentava passar à frente para ver melhor, mas não conseguia. Sasha pegou-lhe pela mão e arrastou-o até quase ao pé do Czar.
Lentamente, a porta da carruagem abriu-se. Lenta mas seguramente saiu um homem vestido com o uniforme russo — botas de couro, casaco azul e espada à cintura. Piotr quase perdeu o ar. Aquela espada. Olhou bem para o rosto do tal herói. Era o irritante Aleksei. E com a espada do pai de Piotr. Que desaforo! Aleksei estendeu a mão para que a sua esposa descesse da carruagem. Todo o palácio ficou boquiaberto. A mulher tinha a cara queimada do lado direito como se ela própria tivesse participado na batalha. Piotr deixou cair a sua bengala no chão e lágrimas vieram-lhe aos olhos. Katya.
V
Piotr conseguiu sair de perto do Czar e de Sasha sem que ninguém desse por isso. Foi caminhando pé ante pé, tentando passar despercebido. O seu esforço foi desnecessário pois todos olhavam para o casal recém-chegado. Mesmo que Aleksei não estivesse ali com Katya, poucos notariam a ausência de Piotr.
Piotr entrou num dos muitos quartos do grande palácio. Apetecia-lhe gritar, mas alguém podia ouvi-lo. Apetecia-lhe dar socos nas paredes, mas elas eram rijas. Como podia um simples bastardo ter tanta sorte? Ter o favor do Czar, conseguir a espada de seu pai e ficar com Katya. Se ao menos Piotr pudesse ter Katya… Livrou-se imediatamente de tal pensamento, não fosse Sasha sequer imaginar no que ele estava a pensar. Andou às voltas no quarto, quase gastando a carpete e batendo com o pé no chão.
Com os punhos cerrados, pôs-se em frente ao espelho. Tal como sua mãe, Piotr iria livrar-se daquele bastardo. Sim, o bastardo tinha agora o favor do Czar, mas não passava de um militar. Piotr era do Dvoryanstvo e conselheiro do Czar. «Eu conheço-te bem! Não passas de um bastardo cobarde que usurpou a espada que é minha por direito» — encenou Piotr ao espelho com fúria. Fê-lo umas quatro ou cinco vezes para acertar todos as gesticulações e pormenores.
Voltou para o salão principal. Todos estavam a apaparicar Aleksei. Piotr começou a caminhar em direcção ao filho da sua antiga criada, mas o instinto de sobrevivência fê-lo parar. Sasha, que o tinha visto regressar, pegou-lhe de novo pela mão e pô-lo frente a frente com o casal do momento. Piotr cerrou os punhos, mas estes começaram a deslizar para dentro dos bolsos enquanto o pescoço se inclinava e a cara olhava para o chão.
— Aleksei e Katya — começou o Czar — esta é Sasha e…
— Piotr, filho de Irina — concluiu com voz firme Aleksei, cuja mão esquerda repousava sobre o pomo da espada. Com uma destreza e suavidade que deixaram quase todos sem perceber o gesto, Aleksei passou a mão esquerda do topo do pomo para dentro da guarda do próprio punho, um velho truque que Dimitri lhe tinha ensinado. Katya, conhecendo bem o seu marido, segurou-lhe a mão direita com ternura. Aleksei tirou a mão esquerda da espada e deu o braço à esposa.
VI
Mais tarde, deu-se o grande jantar. Enquanto Sasha indicava a Piotr qual o talher correcto para cada prato, o nosso herói observava o ignóbil Aleksei a sorrir com Katya enquanto falava com os grandes nomes da elite russa.
A fortuna, porém, iria revelar a sua mão. Ao lado esquerdo de Piotr estava um homem imenso, com longos cabelos e olhos profundos — Grigori Rasputin. Toda a Rússia sabia da sua influência e dos seus poderes místicos. Muitas vezes tinha Piotr pensado em encetar conversa com alguém tão formidável, um enviado dos céus abençoado pela Virgem Maria. Naquela noite foi o próprio Rasputin a iniciar conversa.
— Diga-me, Piotr, poderia apresentar-me esta linda senhora?
— Estimado e digníssimo Grigori Rasputin, é uma honra apresentar-lhe a minha esposa Sasha.
— Encantado, cara senhora. Verdadeiramente encantado.
Sasha e Rasputin trocaram conversa durante o resto da noite. Entre os dois, Piotr via a possibilidade da sua importância no império crescer. Era, todavia, um momento agridoce, pois tinha de contemplar Aleksei com as manápulas à volta da Katya e a ser bajulado pelo próprio Czar. Bastardo horrível!
Rasputin, homem sagaz que estava focado em Sasha e no generoso decote dela, não deixou escapar como Piotr olhava para Aleksei e Katya.
— Piotr, queres ver o que é uma verdadeira festa?
— Uma das suas festas? — deixou escapar, entusiasmado, Piotr.
— Sim. Desde que a linda Sasha venha.
Sasha aceitou de imediato. Das festas de Rasputin sabiam-se apenas rumores, mas todos queriam ser convidados. Piotr olhou de lado para Aleksei e Katya — finalmente iria ser tão poderoso que aquele bastardo teria de curvar-se perante ele.
VII
Já em casa, Sasha disse a Piotr que tinham de fazer o que fosse preciso para entrar definitivamente no círculo de Rasputin. O que quer que Grigori Rasputin dissesse, Piotr teria de fazer. Nenhum sacrifício seria demasiado para cair nas graças de quem realmente controlava o Czar.
A grande festa de Rasputin deu-se logo na noite seguinte. Sasha e Piotr compareceram pontualmente no local marcado. Era uma casa grande, porém escura por fora e sem ornamentos. O luar revelava a plenitude da fachada. Um criado abriu a enorme porta de ferro.
— Não há anjos… — começou o criado.
— Sem demónios — respondeu Sasha com a contra-senha que Rasputin lhe tinha dito no dia anterior.
O casal entrou e ficou pasmado. O interior era o oposto do exterior. O luxo expandia-se por toda a sala. Mulheres dançavam e homens bebiam até que o vinho saltasse dos enormes copos de ouro.
— Bem-vinda, minha linda Sasha.
— Obrigada, Grigori Rasputin — respondeu Sasha com um sorriso.
Piotr queria dizer algo, mas Sasha já o tinha feito. Rasputin pôs o braço por cima de Sasha e conduziu o casal à enorme e luxuosa mesa.
— Permitam-me que vos apresente a verdadeira aristocracia russa. Sentem-se e comam.
— É o quê? — perguntou Piotr enquanto olhava para os talheres.
— O primeiro prato é miolos. Cérebro faz bem. Aumenta a aura mística.
— De porco?
— Não, de porca — respondeu Rasputin entre risos.
Sasha hesitou e segurou a respiração. Quase que vomitou, mas o olhar de Rasputin fê-la engolir a primeira garfada. As outras seguiram-se naturalmente. Piotr, por seu lado, continuou à procura do talher para porco.
À volta da mesa estavam sentados juízes, homens do alto clero e até outros altos funcionários do Czar. Mas ali não interessava o título. Eram todos iguais. Naquela noite, todos se divertiram perversamente e tudo foi feito com a aprovação de Rasputin.
A noite estava a chegar ao fim e Rasputin mostrou-se muito agradado com a presença de Sasha.
— Todas as minhas festas terminam com um brinde de sangue fresco — explicou o anfitrião ao casal.
— Saúde a Grigori Rasputin! — gritaram os outros convidados em uníssono.
Naquele momento, Piotr sentiu-se, finalmente, integrado. Não lhe agradava, porém, a parte do sangue.
Rasputin sorriu e fez um gesto com a mão. Dois servos quase tão grandes como o próprio Rasputin agarraram Sasha e levaram-na para a cozinha enquanto ela gritava por socorro.
— Amanhã vamos ter miolos de porca outra vez — disse Rasputin com uma gargalhada.
Todos riram enquanto a música tocava. Piotr tentou fugir, mas as suas pernas atraiçoaram-no e não saíram do sítio. Tal como Sasha, Piotr começou a gritar por socorro e a invocar a nobreza da sua família. Farto dos gritos, Rasputin mandou coser os lábios de Piotr. Dois empregados enfiaram-no dentro de um barril. O barril foi levado ao pontapé por Rasputin para a rua e posto em cima de uma carroça.
Enquanto Rasputin olhava para a sua faca sacrificial, Piotr encontrou um pequeno orifício. Através dele viu duas sombras ao longe. Passeavam alegremente pelas ruas de São Petersburgo dois enamorados. Eram Aleksei e Katya. Piotr reconheceria aquela espada onde quer que fosse. E reconheceria sempre Katya. Pensou em forçar os pontos que cosiam os seus lábios e gritar por ajuda ao forte Aleksei. Sim! Seguramente que Aleksei conseguiria enfrentar e bater Rasputin. Mas Piotr receou que o seu anfitrião ficasse ainda mais irado. Piotr não queria piorar a sua situação ainda mais.
Rasputin fez uso da faca, furando o barril e sangrando Piotr. O sangue foi lentamente drenado para um garrafão. Piotr teve muito tempo para pensar na sua vida e em como todos tinham falhado para com ele. Como a sociedade nunca lhe tinha dado o devido valor. Como Aleksei era um sortudo. Como ele não pôde ter Katya. Como nunca ninguém o tinha ajudado em toda a sua vida.
E assim morreu alguém que, na verdade, nunca viveu.

Lewis Medeiros Custódio nasceu na paradisíaca ilha de São Miguel, nos Açores, foi aluno do Conservatório de Ponta Delgada, onde aprendeu piano. É licenciado em Línguas Modernas e mestre em Ensino pela Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra, além de ser judoca e guitarrista. Desde cedo, desenvolveu uma paixão pelo terror e pelo macabro, mergulhando nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King.