Solidões: a IA e eu – Marcelo Tápia

No meu percurso de vida, no que ele pôde e pode ser criativo na área da linguagem, há muito tenho buscado relações entre o verbo, a visualidade e a musicalidade. Em tempos recentes, minha procura tem passado pela pretensão de registrar momentos de imagem que se ofereçam a meu olhar como cenas plásticas de diversos modos de solidão: uma série em progresso, que denominei “Solidões flagrantes”. A ideia surgiu a partir de uma visão que motivou a realização da sequência; o tema poderia ser outro, pois o que me orienta, no caso das imagens, é seu diálogo com o que considero ser o “raciocínio poético” (pretendo, em outra oportunidade, dizer algo sobre o assunto).  

Mas, voltando à série, para sua realização tem se mostrado eficiente o celular, sempre à mão, com as aceitáveis fotos que se podem obter com suas lentes; depois, com auxílio de um software de tratamento de imagens, posso aperfeiçoar um tanto o resultado, que não pretende ser nada além do que permite a sua natureza de registro. Apresentarei aqui apenas três “flagrantes” (já são seis ao todo, número que pretendo dobrar mediante ocorrências que me permitam incorporá-los ao conjunto). Um deles é este:


O que me anima nessa imagem é o diálogo, estabelecido pela semelhança, sob os aspectos da forma, da cor e de certo movimento circular (estrutural de um lado e fortuito de outro) entre a pinha e o contexto que a acolhe em sua queda do alto. Isso faz sentido a você, leitor/a? De minha parte, para ter acesso a alguma opinião em meu exercício solitário sem incomodar ninguém, recorri ao ChatGPT 5, ao qual tenho dedicado algum tempo de pesquisa a fim de depreender suas qualidades como crítico de linguagens artísticas.

Na atividade (que começou a ser sistemática) em busca de esboçar um perfil do comportamento crítico dessa IA, tenho obtido, diga-se, resultados às vezes surpreendentes por sua pertinência, úteis para minha reflexão, entre outros que parecem vagos e feitos de clichês; no geral, são comentários favoráveis, que ressaltam qualidades (tenho testado, também, o que se pode obter de observações “negativas”; mas ainda é cedo para dizer algo a respeito). No caso dessa imagem, os comentários pareceram-me cabíveis, e, para você que me lê poder conferi-los, incluo aqui alguns trechos do que recebi:

A imagem propõe uma cena de extrema economia: um único objeto orgânico — a pinha — repousa no centro de um campo árido de terra e pedras. […] Visualmente, a pinha funciona como um núcleo de sentido. Sua estrutura helicoidal, ritmada, contrasta com o caos granular do chão. Há aí uma tensão entre o orgânico organizado e o inorgânico disperso, como se a imagem colocasse em diálogo dois regimes do mundo: o da forma que cresce segundo uma lógica interna e o da matéria abandonada à entropia.
O enquadramento reforça a solidão do objeto. Não há horizonte, nem contexto que o explique. A pinha parece caída fora de seu tempo e de seu lugar — já não está na árvore, mas também não foi ainda absorvida pela terra. Esse estado intermediário sugere suspensão, uma espécie de exílio natural. Ao mesmo tempo, a pinha carrega em si a promessa de retorno: é semente potencial, arquivo de futuros possíveis. […]
Por fim, há um efeito quase poético de escala: algo pequeno sustenta o centro da imagem e organiza o olhar. Como num poema breve, o sentido não está na abundância, mas na justa colocação de um único elemento, capaz de irradiar significados em silêncio.

Ao informar o Chat de que a imagem faz parte de uma série chamada “Solidões flagrantes”, obtive esta resposta:

O título “Solidões flagrantes” é muito feliz — e, mais do que isso, preciso em relação ao que a imagem já sugere.
“Solidões” no plural é decisivo: não se trata de um estado psicológico único, mas de configurações da solidão, modos distintos de estar separado, destacado, deslocado. Já “flagrantes” introduz uma ambiguidade fértil:
– o flagrante como instante capturado, súbito, não encenado;
– e o flagrante como aquilo que é evidente, quase incontornável ao olhar.
A imagem da pinha dialoga perfeitamente com esse duplo sentido. Ela não parece “posta” ali para significar; foi encontrada. A solidão não é dramatizada — é constatada. O objeto está só porque está, e o fotógrafo apenas reconhece essa condição.
Há também uma tensão interessante entre o flagrante fotográfico (associado à rapidez, ao acaso) e a natureza do objeto fotografado, que é lenta, acumulativa, fruto de um tempo orgânico. Esse contraste reforça a sensação de solidão como algo que não nasce do instante, mas se revela nele. […]
Em termos estéticos e conceituais, “Solidões flagrantes” sugere uma poética do mínimo encontrado: objetos ou formas que, ao serem isolados pelo enquadramento, revelam uma espécie de dignidade silenciosa. Há nisso um parentesco com certa tradição da poesia de depuração — onde o mundo não é explicado, apenas colocado em foco —, algo que dialoga, aliás, com seu próprio interesse por formas concentradas e autônomas de expressão.

Pois bem: diante do material recebido, quis perguntar ao GPT o que ele teria a dizer sobre as demais imagens da série. Obtive comentários e sugestões de títulos para cada uma delas, além de proposta de ordem expositiva (para o caso de eu pretender organizá-las numa exposição física), de características gráficas das peças a serem exibidas e, até, de um texto de apresentação curatorial: esquema completo… Mas vejamos a seguir, apenas, para não alongar demais este texto, duas outras imagens e parte do que foi dito sobre elas.
 


Sobre essa, disse o Chat:

Aqui a solidão é humana por ausência. Os sapatos — gastos, escuros, encostados à borda — funcionam como metonímia do corpo que não está.
O meio-fio é decisivo: linha de separação, limite, quase fronteira simbólica. Os sapatos não estão “na calçada” nem “na rua”, mas no entre, o que reforça uma sensação de desamparo suspenso.
O “flagrante” é forte porque o objeto parece encontrado, não arranjado. Há algo de abandono, mas também de pausa — como se o corpo tivesse sido retirado do mundo por um instante maior do que o permitido.

Para tal imagem foi sugerido o nome “Ausência”; para a da pinha, “Forma fechada” (que não me pareceu muito feliz); para esta que incluo a seguir, “À espera”:


A respeito dela, foram-me oferecidas estas observações:

Talvez a imagem mais “conceitual” da série — e uma das mais felizes.
Um único pregador, sem roupa, preso a uma linha que atravessa o quadro: é a solidão do instrumento sem função, do objeto à espera.
O fundo neutro intensifica a sensação de suspensão. O pregador está ali para segurar algo que não vem. O flagrante é quase irônico, mas não cômico: há uma melancolia seca, contida, coerente com o conjunto.

Ao propor uma sequência expositiva das imagens, o GPT justifica suas escolhas. A primeira seria a da pinha: “Forma fechada, autossuficiente, quase perfeita. Um objeto natural completo, mas isolado. Introduz a solidão como condição estrutural, não ainda como abandono. Ela funciona como símbolo inaugural […]”. A dos calçados estaria na quarta posição, após outras que não mostro aqui: “Entrada decisiva do humano — pela ausência. A solidão torna-se social, urbana, histórica. O meio-fio funciona como metáfora do limite. Aqui a série atinge seu ponto de maior densidade narrativa, sem perder o silêncio”. A do varal viria em seguida: “Redução máxima da ação: o objeto existe para algo que não acontece. A solidão vira suspensão do sentido. A linha atravessa, mas não conecta. Essa imagem age como esvaziamento, preparando o desfecho”…

Para completar sua abordagem da série, entre muitos outros apontamentos, o Chat — que, ainda em sua versão 4, também conhecera e comentara o meu livro de poemas Ascensões e descensos (Ed. Madamu, 2025) — arrisca mais uma avaliação gratificante: “A série está madura — e, sobretudo, muito coerente com o rigor poético que atravessa também a sua escrita”.

Ainda não sei bem quão úteis serão para meu trabalho, à medida que eu as possa ver com mais distanciamento temporal e reflexivo, as opiniões de IA que tenho colhido; mas, de imediato, elas têm me estimulado a refletir, incitado a fazer e, de quebra, dado algum conforto, embora provisório, à inquietude gerada pela eterna incerteza que, para mim, ronda qualquer ação criativa.




Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.

Uma resposta

  1. Um tema crucial: a IA e a Arte. Gostei muito da forma como abordou a questão: frontal, narrativa, colocando as premissas antes das impressões/conclusões.

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