Coluna Eneas Barros: O marketing do flanelinha

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“Patrão, deixa eu olhar seu carro?”
 
Esta frase, dita por um flanelinha, tem um impacto que você está longe de imaginar. Ela provoca um efeito tão imediato que, após ser pronunciada, se transforma em uma relação trabalhista, não havendo mais dúvidas quanto às regras estabelecidas: ou você paga ou as consequências podem ser desagradáveis. Não existe um valor previamente estabelecido pelo serviço prestado, mas subentende-se um mínimo que deixa qualquer um pensando no quanto valem alguns trocados na carteira.
 
Quando somos chamados de “patrão”, percebe-se nas entrelinhas uma leitura das relações sociais influenciada pelo pensamento marxista, segundo a qual as relações de trabalho são interpretadas à luz de uma luta de classes, de um conflito entre quem detém o capital e quem vende sua força de trabalho. Se há um patrão, com certeza haverá de existir um empregado, descortinando-se assim a essência do capitalismo.
 
Se somos patrões, não temos como negar que a outra parte interessada se considera nosso empregado, portanto, merecedor de certas atenções e certos direitos. Como acontece nas relações trabalhistas, o final do serviço é a remuneração: ou pagamos ou estamos infringindo uma legislação própria das ruas, aquela que, ao invés de proteger os direitos, escancara o absurdo de retirar do cidadão a proteção esperada.
 
Seguindo esse raciocínio, a palavra “deixa” está na frase com o sentido de permissão, aliás uma permissão que em si já se subentende autorizada. Se concordamos, a relação está definitivamente firmada; se discordamos, podemos sofrer os riscos de uma reação inesperada, que pode desembocar em agressões oriundas de um comportamento que se rege pela lei das ruas, que se faz pela surpresa do momento, sem juízes para julgar, sem advogados para defender, sem promotores para acusar, mas apenas vítimas para sucumbir.

A outra palavra, “olhar”, significa vigiar, observar, proteger. Traduz a essência do serviço que será prestado. O flanelinha está afirmando, em um contrato simbólico e de confiança entre as partes, que estará protegendo seu patrimônio durante a sua ausência. Não se verifica uma contrapartida que proteja o ressarcimento por danos, a ser cumprida pela parte contratada, caso se verifiquem no retorno do contratante. Um exemplo é quando um pedaço de papelão, posto no vidro dianteiro para proteger do sol, é capaz de danificar um limpador de para-brisa. Um pedido de desculpas vem acompanhado da notícia e nada mais pode ser feito. Nesses casos, é possível nos escudarmos do pagamento do serviço, embora fique claro que essas coisas acontecem, não é mesmo?
 
O bem, motivo central da proteção, também está na frase: “seu carro”. O flanelinha reconhece o bem e pede para protegê-lo da bandidagem que reina nas ruas. Sabe que isso é comum e que pode acontecer a qualquer hora. Afinal de contas, se houvesse segurança nas ruas, para que serviriam os flanelinhas?
 
Ao estacionarmos, olhamos em volta e apelamos para a sorte que nos protegerá ou de uma relação de trabalho implícita, com suas regras próprias, ou da criminalidade que espreita os nossos valores morais, físicos e patrimoniais. Confiamos naquela relação. Tendo ou não uns trocados para garantir o contrato, a relação tem que ser firmada.
 
“Patrão, deixa eu olhar seu carro?”.
 
Responda “sim” ou “não” ao marketing instalado. Ou apenas não diga nada. Em qualquer situação, a única coisa que estará do seu lado é a sorte, a assinatura simbólica de um contrato prestes a ser rescindido.


 
    

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

Uma resposta

  1. Contratos simbólicos, abusos simbólicos, desigualdades simbólicas… pelo jeito o simbólico não é só a positividade que sustenta, por exemplo, a boa literatura. Vivemos tempos do simbólico perigoso, sonso, criminoso, explorador, capitalista ao extremo dos braços abertos do nosso Brasil.

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