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Se o Modernismo brasileiro pretendia aproximar a realidade da literatura, não se compreende como, na primeira fase, a iconoclasta, ele tenha se constituído do ponto de vista de recepção do leitor, em movimento visceralmente elitista, principalmente no tratamento da linguagem poética ou ficcional. Neste sentido, o Modernismo deu as costas para o povo, que não leu e ainda não lê a sua produção. Estamos pensando em obras seminais à compreensão desse movimento, como Pauliceia desvairada (1922), Macunaíma (1928), Pau-Brasil (1929), Memórias sentimentais de Joao Miramar (1924).
É bem provável que essas obras como outras apenas tenham despertado certa curiosidade no povo, porém não a iniciativa de efetivamente realizarem suas leituras, com exceção, nos parece, dos autores da ficção de 30, donos de uma literatura em geral sem hermetismos formais e, por isso, mais acessíveis à média da população. Haja vista a obra de Jorge Amado (1912-2001).
Se o movimento procurou a todo custo fazer um balanço das potencialidades do homem brasileiro, no sentido até documental, nada indica que ele tenha se afastado de suas vinculações com a burguesia de então, pelo menos nos seus primeiros momentos. Quem iria dar efetiva contribuição, pelo menos como propósito de transformar o povo em matéria ficcional e, além do mais, como voz narrativa seria um contista, surgido na década de 1960 – João Antônio (1937-1996).
Na sua ficção deu ele voz a seus personagens, a maioria do submundo do eixo Rio-São Paulo. Porém, tanto os modernistas quanto João Antônio, e bem assim os ficcionistas da geração de 30, que inauguram o ciclo do de romances do Nordeste, iriam se defrontar com um impasse inescapável à condição do intelectual que se vê enredado no dilema de difícil superação: como lidar com uma literatura que fixa e movimenta uma galeria de despossuídos que jamais lerão seus livros e não têm o nível suficiente de escolaridade e de leitura para se verem retratados nessa ficção marginal?
Na época do surgimento do romance brasileiro, a partir do Romantismo, o público leitor pertencia em geral à classe burguesa. Por outro lado, não se poderia também recriminar um ficcionista à altura dos anos 1960, 1970 e 1980 – caso de João Antônio e de outros autores da sua época – por fazer uma literatura centrada primordialmente nas camadas desfavorecidas da população brasileira, assim como nos temas em torno da vida de malandros (figuras que fizeram do contista um dos seus mais hábeis intérpretes na literatura brasileira moderna), marginais, prostitutas, traficantes, não obstante ser a ficção joãontoniana de alta qualidade literária.
Assim como não poderíamos reprovar o fato de que ele se beneficiaria comercialmente dessa temática populista, uma vez que a obra ficcional produzida pelo mercado transforma-se em produto de consumo e, por vezes, faz de seu criador, se este provém de classe menos favorecida (exemplo também de João Antônio) um instrumento do jogo capitalista, gerador de lucro. Da parte da função de escritor, a meu juízo, não houve apelação ou expediente espúrio de explorar temas que lhe granjeassem ascensão social ou sucesso econômico. O escritor como intelectual é caudatário do sistema que ele próprio repudia.
Jorge Amado, por exemplo, foi um escritor que, em determinada fase de sua produção literária, foi duramente criticado por alguns críticos por fazer algumas obras para deleite do turismo e não por sua qualidade literária. Contudo, essa crítica, sob pena de se tornar injusta, não poderia estender seu julgamento à obra geral dele. No exemplo de João Antônio, guardadas as diferenças com Jorge Amado, o nível estético de sua ficção não sofreu nenhuma queda.
O contista não se sustentou tão-somente com a temática dos despossuídos, já que ainda com boa qualidade literária passou a explorar temas da classe média, da qual era um crítico feroz e demolidor, ainda que, aparentemente uma contradição, a sua nova condição social o colocasse na classe média. Esse, na verdade, é o dilema de qualquer escritor que tenha vindo dos estratos mais modestos da pirâmide social. Não importa, burguês ou não burguês, o escritor se[i]rá um porta-voz, seja das classes mais altas, seja das médias e das humildes. Algo em comum têm os escritores no seu ofício: sua arma é a linguagem, não a baioneta.

Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu:: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade(Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996; Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124; Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação. Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009; As ideias no tempo. Teresina: APL/Senado Federal, 2010; Apenas memórias. Rio de Janeiro: Quártica; Contos selecionados de José Ribamar Garcia ( Org.). Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2017. Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site Entretextos. Assina o Blog As ideias no tempo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União Brasileira de Escritores ( UBE, seção Piauí).