“O que pensou primeiro foi a mão”: A arte de Pascal Ruesch – Marcelo Tápia


Conheci o artista plástico suíço-francês Pascal Ruesch – estabelecido no Brasil desde 1993 – na ocasião em que realizamos uma exposição de seu trabalho no Anexo da Casa Guilherme de Almeida, em São Paulo, em 2016. Pouco antes havia visto obras suas, por fotos, e o conjunto me parecera muito pertinente para iniciarmos as atividades expositivas naquele espaço (que não mais existe).
 
Acompanho, desde aquele tempo, sua rica produção, que renovadamente me seduz por sua força e sua peculiaridade, marcada pelo aproveitamento dos mais diversos materiais; a última vez em que vi suas criações, algumas em execução, foi em seu ateliê, instalado num amplo galpão que antes servia para abrigar o estoque de livros de uma editora e se transformou num ambiente que parece projetado e feito para o que ali se desenvolve.
 
A visita foi uma experiência agradável pelo convívio e pelo ambiente, e intensa em vivência pela impressionante presença das obras que integrarão a nova exposição de Ruesch, com curadoria de Paulo Gallina, denominada “O que pensou primeiro foi a mão” – a mostra acontecerá de 5 de março a 13 de abril na Galeria Lica Pedrosa Arteformatto (localizada na Rua Padre Manuel Chaves, no Jardim Europa, em São Paulo).


O diálogo com o artista em seu ateliê foi estimulante: pude ouvir, por exemplo, uma história que diz muito sobre sua atenção para com tudo aquilo que, mesmo aparentemente desprezível, ou efetivamente desprezado, possa servir para sua “alquimia”, que transfunde as coisas para fazê-las renascer. Contou-me que, tendo o hábito de ir a uma “loja amiga” da paulistana rua Paes Leme, em busca de “ferramentas e quinquilharias”, certa manhã encontrou, no lugar da loja, “um buraco negro ainda fumegante, com bombeiros em torno e uma pequena multidão”; o imóvel e o que havia nele foram destruídos por um incêndio – “tudo fundiu em massas carbonizadas”. Ele, então, não resistiu a pedir ao dono, seu conhecido, que o deixasse “recuperar o máximo das relíquias do desastre: maçanetas, dobradiças, parafusos, ferramentas, fechaduras, gavetas, coisas amalgamadas e retorcidas… Uma verdadeira felicidade!” Todo esse material, que considera precioso, continua à espera de que ele descubra o modo de usá-los…
 
Numa busca rápida pelo nome Pascal Ruesch no Google, pode-se ler que “sua obra, que transita entre pintura e escultura, é marcada pela abstração, pelo uso de materiais inusitados (azulejos, arames, espelhos) e por influências arquitetônicas, focada na fisicalidade e na memória”. De fato. Mas é difícil restringir esse trabalho à sua descrição, pois sua força se concentra – penso – nas relações criadas entre os elementos que o constituem, algo que só se pode perceber diante dele mesmo.
 
É possível, contudo, tentar refletir e dizer algo sobre a arte de Ruesch. Para a referida exposição de 2016, escrevi um texto de apresentação, do qual cito alguns trechos:

“As recolhas, provindas do mundo utilitário, geralmente de objetos produzidos em série, elevam as coisas comuns à condição da singularidade, ao status da citação, que se constrói por sua participação num novo contexto de relações. Uma arte de referências, que desloca o pequeno do mundo para um horizonte abrangente da significação, incluindo-se a da reconhecível beleza […].
 
O raciocínio que fundamenta o conjunto exposto por Pascal Ruesch é eminentemente poético, na conotação semiótica do termo: as relações se armam com base na associação analógica, que se serve dos princípios de similaridade e dessemelhança de formas a fim de arquitetar sintagmas abertos para visões de mundo.  Um mundo construtivista feito de reaproveitamentos, reciclagens, recriações, trazidas a um meio marcado pela síntese, do qual fazem parte a clareza e a limpidez formal. […]
 
Formado com base em citações e referências, o trabalho exposto insere-se no contexto da produção poética vista como eterna reescritura, palimpsesto sempre renovado de escrita do mundo (no caso, com palavras ausentes) e de recriação da história: múltiplas evocações se tecem nas obras, cada uma constituindo uma espécie de tradução do preexistente, visto e vivido nos espaços diários ao longo do tempo.”

Pascal também dialoga, em seu trabalho, diretamente com a poesia. Tive o privilégio de sua dedicação para criar obras a partir de poemas meus, que resultou num conjunto exibido na ocasião de lançamento do livro Refusões (coletânea de minha poesia até 2017); poemas meus também fizeram parte de uma exposição dele em Lisboa (da qual participou a artista portuguesa Sara Maia), denominada “Linha Recta Linha Curva”, realizada na Casa da América Latina em 2019.
 
A nova exposição motivou-me a escrever mais este breve texto sobre essa arte laboriosa, feita – de modo muito pessoal e ao mesmo tempo universalizante – com as mãos, os olhos, a intuição e a inteligência:

POÉTICA EPIFÂNICA
 
Uma poética visual cujos elementos podem fazer parte da utilidade corriqueira e ascender ao insólito como se nascidas para o que lhes dá nova identidade: assim é, para mim, a arte de Pascal Ruesch. Nela, a presença desgastada pela invisibilidade das repetições em série ressurge como algo inédito, imprevisto, improvável, que faz todo o sentido depois de criado.
 
Vejo esse trabalho como revelação do potencial infinito de encontro do que se perde, não como foi perdido, mas como pode vir a ser num novo mundo à sua espera. Azulejos, pedras, parafusos, penas, selos, fios, todas as coisas que estejam anonimamente nos contextos que as consomem, podem ganhar sua existência de fato no meio que as integra por sua natureza, suas qualidades, despojadas de sua finalidade prévia: uma (in)existência passada que se esquece diante da conquista de uma vida nova – algo que (re)aparece para ser visto pela primeira vez, transmutado pela composição de formas e cores que o acolhe.


Como ato análogo ao de dar nome ao que se descobre, é uma arte fundada na descoberta e fundadora de revelação. Vejo-a como vejo a poesia, em sua busca por fazer soar a palavra como se nunca antes dita, destoando da correnteza amorfa das falas cotidianas, que só a usam pelo que pode representar, despercebida em seu próprio ser. Um poema busca propiciar surpresa, que pode ser pequena ou grande, conforme o que se alcança.
 
Como poemas plenos, as criações de Pascal Ruesch costumam exibir surpresas que nos tocam em vários níveis e intensidades, valendo-se da intuição e da exatidão, do imaginado e do medido, da ideia e do artefato, do potencial e do conseguido. Os resultados são nítidos, perceptíveis e compreensíveis, como frutos do já sabido, embora inusitado. E atendem a uma máxima que já representou uma poesia tida como aprisionada pelas fôrmas, mas que a transcende: no que nos é dado ver nas obras de Ruesch, não se evidencia o emprego do esforço – certamente grande –, como se elas simplesmente brotassem pelo próprio impulso de existir.

Incluo, nesta coluna, algumas fotos ligeiras, feitas com celular, de obras do artista (e de detalhe de uma delas) em seu ambiente de trabalho: uma instigação para que você, caro/a leitor/a, vá vê-las em sua plenitude, de perto.

Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.

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