
Imagem gerada por IA
A lua se insinuava na noite como profetiza do inexplicável, nela comportam todos os delírios e dela parecem surgir todos os arrepios que percorrem o pobre desavisado que ousou se lançar àquelas veredas, àquele horário quando o disco de prata pendido no céu estimula os assustadores e enlouquece os que mal sabem no que se envolveram.
Os passos aceleram, os batimentos galopam, os dentes tentam se travar, contudo se rendem à tremedeira. Os sentidos se potencializam e misturam impressões reais e instintivas. Na cabeça vozes e premonições se confundem – a razão ficou para trás, lá atrás onde nem se suspeitava do que havia guardado em cada sombra, em cada som de que a penumbra se assenhorara.
O coração pulsa à boca tomada pelo gosto de sangue. A respiração aquecida e ofegante carrega cheiro de pólvora e secura. As pernas insistem passadas longas e rápidas, rápidas e trêmulas – entregar-se-iam à fraqueza não atendem à necessidade de lutar contra o próprio fim.
Uma luz, uma clareira, um espaço aberto. Um breve alívio tenta se erguer. Ainda há desespero no corpo. Cada parte quer permanecer, cada parte necessita permanecer.
Na tentativa de se recompor, os olhos tentam entender o que há e ver a segurança. É uma área limpa, um descampado. Parece sóbrio, sereno. No céu a senhora prateada apenas deslizou mais para um lado na sua caminhada, inabalável, desinteressada por qualquer situação. A névoa do medo que cobria os olhos se esvai aos poucos. Percebem-se pontos ao centro. Ora ordenados, ora aleatórios. São pedaços de madeira e vestígios de algo construído, pequenos amontoados.
Seguem-se mais calmas as pernas. O suor desce pelo rosto, cai nos olhos, arde. Esfrega-se as vistas. A ensopada camisa tenta aliviar a queimação. Segue-se. Um frio súbito estaciona o corpo. Estático compreende a cena. Um grito vindo de trás, da vereda, rasga-lhe a alma. Adiante o olhar é petrificado, esquecidos do ardor dos sais. Um cemitério, que sempre esteve ali, ou cá, dentro em cada um, escondido, escolhido.

P3N4 – Nairton Pessoa do Nascimento; Formado em Letras/Português – UESPI; Especialista em Estudos Literários – UESPI; Professor de Linguagens – SEDUC-PI. Em processo de organização do livro de contos “Trechos de livros que não escrevi”. Alma inquieta e intuitiva, levado pela prosa e pela poesia, por vezes no espaço em que ambas se juntam.
Respostas de 13
Amei! Profundo, poético e sensível. Um sentimento marcante em ler poesias que são escritas através da alma e do coração.
Que texto incrível! As palavras são cativantes .
A impressão intensa e envolvente, causada pelo texto, me marcou, sobretudo pela atmosfera. A linguagem é densa, imagética e sensorial, que me fez experimentar a experiência física e psicológica do personagem. O medo não é apenas narrado: ele é sentido nos batimentos, na respiração, no suor, no gosto metálico na boca. Isso demonstra um texto maduro, atmosférico e literariamente consistente, com forte vocação para o terror psicológico e simbólico.
Texto maravilhoso!
Com conexão às características sensíveis resultantes a reações emocionais que nos prende em meios desafios.
Gostei muito da simplicidade e clareza poética, abordou também uma grande realidade vivida por muitos. Top, parabéns parabéns
Eu amei 🥰
Muito bom! Parabéns! Tenho orgulho de ser seu amigo!
Gostei muito da forma como o texto foi escrito, a linguagem densa e sensorial cria uma atmosfera que envolve o leitor e faz o medo surgir mais da dúvida do que de algo explícito. Na minha leitura, o texto dialoga profundamente com a raiz nordestina, esse imaginário que nasce das noites, dos caminhos e das conversas em roda, onde quem já sentou para ouvir histórias sabe que sempre existe ao menos uma dessas, em que realidade e medo se confundem. Acho especialmente interessante como o texto permite múltiplas interpretações, sem se fechar em uma única visão interpretativa.
Parabéns, me senti preso na ambientação e mistério.
O texto causa uma impressão forte e envolvente, marcada por uma atmosfera densa, quase sufocante, que prende o leitor desde as primeiras linhas. A linguagem é rica em imagens e sensações, fazendo com que o medo seja sentido mais do que simplesmente descrito. A lua, apresentada como figura profética e indiferente, reforça a ideia de um universo que observa, mas não interfere, ampliando o sentimento de abandono e vulnerabilidade do personagem.
A narrativa se destaca pelo mergulho no psicológico: o ritmo acelerado, as repetições e as frases longas reproduzem a ansiedade, o desespero e a perda gradual da razão. O corpo e a mente se confundem, e o leitor é levado a experimentar a fuga, a taquicardia, o cansaço e o terror junto com o personagem. Quando surge o descampado, há uma falsa sensação de alívio, que torna ainda mais impactante a revelação final.
O desfecho é especialmente expressivo ao transformar o cemitério em símbolo interior, sugerindo que o verdadeiro horror não está no espaço físico, mas na consciência humana, nos medos ocultos e na percepção da própria finitude. O texto impressiona pela força poética, pela coesão entre forma e conteúdo e pela capacidade de provocar reflexão além do susto, deixando uma sensação inquietante que permanece após a leitura.
Muito orgulho de você, meu amigo.
Parabéns pelo TEXTO
Gostei muito,bem interessante
A introspecção é profunda. O tom de mistério domina o texto. O leitor não perde o interesse pela leitura. O escritor domina o ambiente e conduz o texto com maestria. As palavras preenchem o ambiente com a leveza da alma de quem escreve. Há fluidez de pensamentos e organização profunda do teor textual.
Um texto muito intenso… assim é a escrita do Nayrton…esse tom de mistério, é característica marcante dele, … e essa simbologia , é que nos convida a fazer uma reflexão sobre nossos pensamentos… e a forma como nos expressamos….