Pedro Xisto e o haicai – Marcelo Tápia

Um dos poetas brasileiros que mais admiro é Pedro Xisto (Limoeiro, PE, 1901 – São Paulo, SP, 1987). Se você não o conhece, leitor/a, tenha certeza de que valerá a pena pesquisar um pouco e descobrir a força de sua obra, que inclui poemas visuais e haicais. Entre os primeiros estão alguns dos melhores criados em nosso país e no mundo, como o famoso “Zen” (1966):


Escrevi alguns artigos sobre sua obra, notadamente sobre seus haicais; é essa parte de sua produção que vou abordar neste breve texto. Tive oportunidade de editar seu último livro, Partículas, publicado em 1984: trata-se de um volume com cerca de 600 haicais (ou haikus, como preferia), contendo toda a sua produção desde a coletânea Caminho, de 1979, que abarcava sua obra desenvolvida após o inaugural Haikais e concretos, de 1960 (surgido, portanto, na fase inicial do movimento brasileiro da Poesia Concreta, ao qual aderiu).

Capa do livro de haicais “Partículas” (Massao Ohno / Ismael Guarnelli editores, 1984)

Componho esta coluna de modo a relembrar Pedro Xisto por meio de trechos dos mencionados artigos que dediquei a sua poesia; assim, incluo ao final dos excertos a referência à publicação original desses textos. Começo com o fragmento inicial de um deles, publicado no ano 2000, no qual aludo aos originais do livro Partículas:
 
“— Ora viva! Assim o poeta Pedro Xisto, então com 83 anos, costumava receber-me, sempre com alegria, em seu apartamento da Rua Bela Cintra, em São Paulo. Procurei-o, já desempenhando a profissão de editor, por ter sabido, por intermédio de Massao Ohno, na ocasião parceiro-mestre em projetos editoriais, que o poeta mantinha, na gaveta, originais de um livro que pretendia publicar havia tempo.
 
Tomei contato com tais originais já no primeiro encontro, após algum tempo de conversa e preparação para vê-los. Pedro Xisto pediu-me que o acompanhasse até seu quarto e, então, retirou de um móvel um maço de folhas amarradas em barbante, como algo finalizado e resguardado de adulterações, à espera da ocasião de se reabrir.” (Medusa – Revista de poesia e arte, número 9. Curitiba: fevereiro-março de 2000, p. 6-16.)
 
E prossigo com trechos do posfácio que escrevi para o livro Lumes, uma antologia de seus haicais:
 
“Pedro Xisto compunha, até meados da década de 1950, apenas poemas em versos, usando diferentes formatos, como o soneto; entre estes já se incluíam haicais, publicados pela primeira vez em um jornal paulistano dirigido à comunidade japonesa, o Diário Nippak, em 1949. Mas foi ao tomar contato com o movimento da poesia concreta, conduzido no Brasil pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e por Décio Pignatari no final da década de 1950, que se definiu a trajetória pela qual Xisto se distinguiria como uma das referências centrais da invenção poética no país. Seu livro Haikais & concretos, publicado em 1960, apontava o caminho que o autor percorreria com constância e dedicação, feito de poemas concretos e de haikais. Xisto partia da forma tradicional japonesa para criar poemas que traziam como tema, muitas vezes – de acordo com os preceitos originais – a natureza, as estações do ano e suas transformações. Mas seus haikais não se restringiam a esse âmbito, cabendo neles tudo aquilo que o poeta quisesse focalizar: o terceto japonês e seu esquema métrico passam a ser um modelo de temática irrestrita para uma poesia que, afinada também com os propósitos concretistas, se dedica ao mesmo tempo à síntese, à precisão e à abrangência.

Capa da antologia de haicais “Lumes” (Berlendis & Vertecchia Editores, 2008)

[…] A poética de Pedro Xisto também cria seus próprios princípios e regras, e ganha autonomia em relação ao modelo do qual parte. Sua maneira de compor realiza uma fusão peculiar entre a “naturalidade” (proveniente da familiarização com a “forma” original) e a engenhosidade que caracteriza sua visão acerca da poesia, voltada às relações entre os elementos constituintes do texto.
 
Por sua própria brevidade, o terceto sugere a concisão, o que claramente se adequaria aos propósitos de Xisto para com suas criações; acontecerá, então, um processo ininterrupto de composição que gerará o seu próprio aprimoramento. […]
 
O autor mantém sempre, em seus poemas, o metro 5-7-5 [sílabas], introduzindo neles, frequentemente, rimas entre o primeiro e o terceiro versos, e uma rima interna no segundo, à semelhança do esquema adaptativo que praticara Guilherme de Almeida (1890-1969), cultivador, a partir da década de 1930, do haikai entre nós. Xisto distingue-se nitidamente, porém, em relação a seu antecessor, pelo teor mais objetivo e não sentimental de sua poesia, que se caracteriza pela construção concisa, envolvendo um uso acurado de recursos sonoros como a aliteração e a assonância. Em seus textos, a visualidade é, também, geradora de significação.
 
[Para tomar como exemplo apenas um de seus haicais para uma breve análise,] escolho aquele que considero um forte candidato ao título de melhor que o autor produziu, incluído em seu último livro, Partículas (1984):

pó repouse em pó
ou venham ventos que elevem
sobre a sorte o só

Repare-se na sucessão dos fonemas pó – pô – pó, no primeiro verso: é possível, de imediato, ouvir, ou ver (“ouver”) na passagem do “o” aberto (de “pó”) para o fechado (de “repouse”), o pó se assentando, ou seja, repousando; no retorno ao aberto, o pó volta a estar disponível para outro destino, outra sorte (embora no verso prevaleça o repouso, o jazer do pó, inserido em seu exato centro)… Esta outra sorte é anunciada no segundo verso, a possibilidade de ventos que o elevem; e esses ventos passam pelo verso por meio da sequência ven – ven – vem, pois essa sílaba inicial da palavra “vento” já está antes, em “venham”, e está depois, em “elevem”. Pode-se perceber que a aliteração, nesse caso, sugere o som do vento, uma representação onomatopaica de seu ruído; e também se pode enxergar (e ouvir) que a última sílaba “vem” encontra-se além da última tônica do poema (“le”), parecendo algo que se desgarra, soprado pelo vento. No último verso, o movimento de ascensão é reafirmado pela sequência aliterante so – só – só, que começa com o “o” fechado e prossegue com outros dois abertos, sugerindo que o pó poderá elevar-se, diante da ação de um vento que surge, a um destino acima de sua condição de repouso. Esse destino poderia ser, também, o do poema feito e entregue ao acaso…” (Em “Posfácio: Súbitos de luz”, no livro Lumes: uma antologia de haikais de Pedro Xisto. Seleção, textos e notas de Marcelo Tápia. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2008, p. 109-125.)
 
Mais recentemente, elaborei uma composição visual – com a qual termino este artigo – a partir desse haicai de Xisto, reproduzida a seguir. A composição se chama “O só”, e foi publicada em meu livreto Desviações (São Paulo: Olavobrás, 2021). Note-se, nela, que os “ós” contidos nos versos do haicai são representados por círculos que, ao alto da imagem, como num céu acima do que se pode imaginar como linha do horizonte numa sugerida paisagem, surgem em alturas diversas (sendo a mais baixa a do “o” fechado de “repouse”) alusivas a um caminho entoativo de leitura que ascende até o último “o” aberto, o “só” final isolado pela diferenciação do círculo, único cujo interior é preenchido…

Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.

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