Pesquisa inócua: Machado de Assis e Guimarães Rosa, de Cunha e Silva Filho

  Imagem: Titanomaquia, batalha ente Titãs e Deuses do Olimpo

   

Folha de São Paulo, através do seu apreciado Caderno MAIS (domingo, 22/06/2008) realizou naquela época uma pesquisa de opinião entre intelectuais de projeção, acompanhada de uma enquete para saber pela Internet qual dos dois escritores é o maior ou o melhor naquele ano em que se comemorava o centenário da morte de Machado de Assis ((1839-1908) e o centenário de nascimento de Guimarães Rosa (1908-1967). Tal tipo de pesquisa não deixa de evidenciar imitações corriqueiras buscadas na terra do tio Sam. A “poll “  reuniu opiniões críticas de 30 dos principais críticos e escritores brasileiros. Até aqui, tudo bem. Mas, pergunto: a que vale tal polarização quando sabemos que grandes escritores brasileiros, muitos deles praticamente esquecidos, não são resgatados e muito menos divulgados e estudados pelas novas gerações? Será que a pesquisa se fez só pelo fato de que um se comemora a morte e de outro, o nascimento, ou será porque os dois sejam considerados pelos organizadores da competição os maiores dentre grandes escritores brasileiros de que nossa literatura dispõe para regozijo de nós leitores?
 
                   Por que não realizar antes um pesquisa entre um grupo considerável de grandes escritores brasileiros e procurar sondar, junto a críticos e a leitores, quem deles seria o maior dos nossos maiores? Não há como polarizar entre um romancista já consagrado pela crítica até fora das nossas fronteiras e escritor do século 19 e um outro romancista do período pós-modernista, com uma bibliografia passiva menor e que, ademais, tem uma obra reconhecidamente complexa em termos de estrutura narrativa e de linguagem literária. São duas individualidades literárias que, pelas suas virtualidades estéticas, levam facilmente seus leitores a se inclinar pelo mais velho, principalmente porque Guimarães Rosa ainda não encontrou o reconhecimento do leitor em geral, mesmo se levarmos em conta o leitor culto e leitor assíduo da leitura brasileira. Há mesmo muita gente do meio acadêmico que ainda não se rendeu ao culto da ficção rosiana.
 
               Um ilustre filólogo brasileiro, Evanildo Bechara, chegou a afirmar em entrevista ao Caderno Ideias do Jornal do Brasil, que Rosa não tem futuro como escritor, porque escreveu num estilo artificial, como se desejasse criar uma linguagem própria, difícil de cair no gosto do público leitor, mesmo do leitor letrado, da mesma sorte que, segundo o citado filólogo, se deu com o Ulisses, de James Joyce (1882-1941). Há muitos intelectuais do meu conhecimento que não finalizaram a leitura de Grande sertão: veredas (1956).

             Por outro lado, um homem do interior, pai de um poeta que fez parte da poesia práxis, quando leu Grande sertão: veredas, comentou para o filho que havia entendido a narrativa de Rosa, acrescentando que o escritor serviu-se de uma linguagem que exprimia com veracidade o falar do interior do sertão, o que derruba a tese segundo a qual Rosa somente seria acessível ao leitor instruído. Este fato cria, assim, um impasse a ser resolvido pela crítica especializada 

            Entretanto, do lado da obra de Machado de Assis, há também restrições a levar-se me conta. A distância do seu estilo literário, período realista, já constitui uma desvantagem para o leitor atual no que tange ao vocabulário, à riqueza de alusões provenientes de outras áreas culturais, como a filosofia, a história, tanto brasileira quanto universal, a literatura universal, sobretudo de extração europeia, a mitologia, o velho e o novo Testamento, além da instigante dose de humor e de narradores por vezes complexos nas suas sutilezas, os quais espicaçam a argúcia do leitor contemporâneo.

           Eu mesmo fui, de certa forma, orientado por José Cretella Júnior, o qual, num dos seus livros didáticos, que eu li na juventude, aconselhava os jovens a não lerem obras de Machado de Assis, argumentado que o criador de Bentinho e Capitu não seria, por causa do seu pessimismo, um autor adequado à juventude, a qual poderia lê-lo mais tarde, quando fosse mais amadurecida. Pois não é que segui o conselho dele: só fui ler seus romances mais importantes mais tarde, quando já estava na universidade. 

          Já, a meu ver, Rosa inegavelmente seria um autor para adultos ou adolescentes precocemente amadurecidos, uma vez que a estrutura do seu texto propõe desafios de natureza sobretudo linguística possivelmente insuperáveis para a maioria dos leitores jovens. O aspecto da propalada oralidade de seu texto não faz dele um autor fácil. Ao contrário, seu texto, em alguns contos, e principalmente em Grande sertão: veredas, particulariza-se por uma elevada carga de opacidade na comunicação, dado que se articula em cima do largo recurso de poetização da narrativa, o que nos dá uma impressão de que, em certas passagens, diria na maioria dela, estamos lidando com poesia pura, i.e., não estaríamos diante meramente da prosa, mas da construção imagética, naquele grau de leitura situada agora no domínio da conotação, da imprevisibilidade como queria José Maria de Sousa Dantas, ou do chamado estranhamento de construção – traço da modernidade da linguagem, sobretudo poética.

         O estilo literário de Rosa nos faz pensar na leitura de uma língua estrangeira que dominamos, mas que, em certas passagens, nos deparamos com algumas construções ou giros sintáticos – uma espécie de camada idiomática apreensível apenas aos nativos de uma língua – que nos escapam ao entendimento imediato, o que nos força a interromper o fluxo da leitura e tentar decifrar o inusitado que se insinua no texto e se constitui em verdadeiros enigmas para nossa compreensão de leitores. Indiscutivelmente, o texto rosiano propõe ao leitor um grande personagem e dele se alimenta a sua obra de ficção: a linguagem. 

        Ao contrário do que preconiza Evanildo Bechara, penso que Guimarães Rosa, assim como se deu a Machado de Assis, vai perenizar, não apenas pelas situações temáticas levantadas pela sua narrativa, mas pelo vigor da sua linguagem e, dessa forma, é que este grande escritor crescerá em importância com o passar do tempo.




Francisco da Cunha e Silva Filho é Pós-Doutor em Literatura Comparada (UFRJ). Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira, UFRJ). Mestre em Literatura Brasileira (UFRJ). Bacharel e Licenciado em Português-Inglês (UFRJ). Titular de língua inglesa aposentado do Colégio Militar. Lecionou Literatura Brasileira, Língua Inglesa, Inglês Instrumental, cursos de Letras e Comunicação Social (Universidade Castelo Branco,Rio de Janeiro). Ensaísta, crítico literário, cronista, tradutor. Colaborador de jornais e revistas, sobretudo do Estado do Piauí. Entre outras, escreveu:: Da Costa e Silva: uma leitura da saudade(Editora da UFPI/Academia Piauiense de Letras, 1996; Da Costa e Silva: do cânone ao Modernismo. In: SANTOS, Francisco Venceslau dos. Geografias literárias – Confrontos: o local e o nacional. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 2003, p. 113-124; Breve introdução ao curso de Letras: uma orientação. Rio de Janeiro: Editora Quártica, 2009; As ideias no tempo. Teresina: APL/Senado Federal, 2010;  Apenas memórias. Rio de Janeiro: Quártica; Contos selecionados de José Ribamar Garcia ( Org.). Rio de Janeiro: Litteris Editora,  2017. Cunha e Silva Filho é do Conselho Editorial e colunista (Letra Viva) do site  Entretextos. Assina o Blog  As ideias no tempo. Membro  efetivo da Academia Brasileira de Filologia, da União  Brasileira de  Escritores  (  UBE,  seção Piauí).

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