Pizza: patrimônio da humanidade, artigo de Eneas Barros

A pizza não é mais uma exclusividade italiana.
Imagem feita por IA.


Depois de pesquisar sobre a origem da pizza, não me arrisco a afirmar que exista um local e um momento certo em que ela surgiu. Misturar trigo à água e assar a massa é muito mais antigo do que podemos imaginar. Chineses, egípcios, italianos, fenícios, hebreus, babilônicos… Todos esses povos assaram suas massas em tijolos, pedras ou mesmo em fornos rústicos, numa constante evolução que culminou em um dos pratos mais solicitados no mundo inteiro.

Na Itália, a pizza entrou pelo porto de Nápoles e se estabeleceu para matar a fome dos mais humildes, coberta por ingredientes baratos. Em 1738, a cidade instalou a primeira pizzaria de que se tem notícia, a Port’Alba, que era apenas uma tenda para viajantes. Foi em 1830, no entanto, que o local se firmou como um restaurante, a ponto de atrair a atenção de Alexandre Dumas, um de seus grandes frequentadores, que chegou a repassar a pizza para os seus romances:

“Acredita-se que o lazzarone vive de macarrão: isso é um grande erro que convém corrigir; o macarrão nasceu em Nápoles, é verdade, mas hoje o macarrão é uma iguaria europeia que viajou com a civilização, e que, como a civilização, está bastante distante de seu berço. Além disso, o macarrão custa dois sous a libra, o que o torna acessível aos bolsos dos lazzaroni apenas aos domingos e nos dias de festa.
 
“Todo o resto do tempo o lazzarone come — como já dissemos — pizzas e melancia; melancia no verão, pizzas no inverno.
 
“A pizza é uma espécie de talmouse como as que se fazem em Saint-Denis; tem forma redonda e é sovada com a mesma massa do pão. Vem em diferentes tamanhos, conforme o preço. Uma pizza de dois liards basta para um homem; uma pizza de dois sous deve saciar uma família inteira.
 
“À primeira vista, a pizza parece um prato simples; após exame, é um prato composto. A pizza pode ser ao óleo, a pizza pode ser com toucinho, com sebo, com queijo, com tomates, com peixinhos miúdos; é o termômetro gastronômico do mercado: seu preço sobe ou desce conforme o valor dos ingredientes acima mencionados, conforme a abundância ou a escassez do ano.
 
“Quando a pizza com peixe custa meio grano, isso significa que a pesca foi boa; quando a pizza ao óleo custa um grano, significa que a colheita de azeitonas foi má.
 
“Outro fator que também influencia o preço da pizza é sua maior ou menor frescura; compreende-se que não se pode vender uma pizza de ontem pelo mesmo preço de uma de hoje; há, para as pequenas bolsas, pizzas de uma semana; essas podem, se não agradavelmente, ao menos vantajosamente, substituir o biscoito de mar.
 
“Como dissemos, a pizza é o alimento do inverno. No 1º de maio, a pizza dá lugar à melancia; mas a mercadoria desaparece sozinha — o vendedor permanece o mesmo”
.
 
Tradução da edição original: “Le Corricolo”, de Alexandre Dumas, 1843.
 
A receita napolitana correu o mundo. Consistia em preparar a pizza em quatro fases. A primeira, moldar a bola de massa; a segunda, formar o disco dando tapas na massa, para em seguida estendê-la girando-a no ar – um verdadeiro malabarismo; terceira, espalhar o molho de tomate em espiral, do centro para a borda, no sentido anti-horário, e acrescentar o recheio; e quarta fase, assá-la no forno a lenha, mantendo movimentos rotatórios com a pá.

É difícil imaginar, mas em Nápoles existem 3 mil pizzaiolos, que seguem rigorosamente a tradição que os elevou ao grande patamar da originalidade em produzir pizza de qualidade. Um desses pizzaiolos foi Raffaelle Sposito, que surpreendeu o mundo com uma criação inusitada. Em 1889, o Rei da Itália Humberto I e a Rainha Consorte Margherita di Savoia resolveram fazer uma visita a Nápoles, provavelmente movidos pela fama que a pizza napolitana havia conquistado. Para homenagear a rainha, Sposito criou uma pizza, a Pizza Margherita, que incluía as cores da bandeira italiana: o vermelho dos tomates, o branco do queijo muçarela e o verde do manjericão. Essa visita dos monarcas foi feita no dia 10 de julho de 1889, e a partir de então é comemorado como o Dia Mundial da Pizza. No dia 7 de dezembro de 2017, a Pizza Napolitana entrou para a lista da UNESCO (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) como Patrimônio Imaterial da Humanidade.

A pizza entrou no Brasil através dos imigrantes italianos, no século XIX, e chegou ao Piauí pelo forno a gás do empresário Dilson Trindade, proprietário do restaurante Beliscão, no início da década de 70 do século 20. Dilson lembra que um cliente, ao ver a pizza chegar à mesa, perguntou curioso: “Não acompanha arroz e feijão?”. Para garantir que o teresinense se habituasse ao novo sabor que chegava à capital, o empresário fez uma promoção inusitada. Disse ele: “Fui a São Paulo, na época, e comprei um patinete para fazer um sorteio e, com isso, atrair a atenção da criançada; cada pizza comprada valia um número”, relembra.

O empresário Paulo Tajra, em busca de manter a originalidade no serviço de pizzas, levou ao Favorito Forneria o primeiro forno a lenha para a produção de pizzas, seguindo criteriosamente as dicas das receitas italianas: “O Favorito foi o primeiro restaurante a usar o forno a lenha para produzir pizzas, no início dos anos 2000; nossos pratos italianos obedecem rigorosamente ao modelo dos grandes pizzaiolos napolitanos”, disse o empresário.

Hoje, pode-se afirmar que a pizza é um dos pratos mais solicitados pelo concorrido mercado gastronômico internacional, deixando de ser exclusividade italiana. Sem sombra de dúvida, a pizza perdeu sua identidade geográfica e se tornou uma preferência comum a muitos países, sendo bastante disputadas aos domingos.


Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

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