Uma questão para todo o sempre, um conto de Perce Polegatto

Imagem: Piet Mondrian. Fazenda perto de Duivendrecht. 1916.



Um grande ponto de interrogação montado com pedras, cortadas geometricamente, como pequenos tijolos. Logo abaixo da lápide. Era a parte superior, exposta, de uma sepultura que ele lembrava ter visto em algum cemitério da região, alguma cidade menor, onde ainda tinham parentes. Era menino. Nunca mais voltara àquele lugar. Ou ninguém mais fora sepultado por lá. Ou os parentes se afastaram. Ou as duas coisas. Não tinha certeza sobre a cidade, mas isso não importava, não era o caso. Aquela interrogação valia para todas as cidades do mundo. Na vertical: nome, datas. No chão, na pedra tumular, aquele sinal sólido e conciso, aquela grande interrogação eloquente, provocante, dramática.

… por todo o sempre. Amém.”

Os adultos persignaram-se, murmurando os últimos versos de alguma prece.

“Vem, dá a mão. Vamos voltar.”

Por si só, aquela singularidade tornava o morto em questão interessante para esse menino. Quem teria tido coragem de assumir e expressar assim, de maneira tão criativa e intensa, sua dúvida? Queria voltar àquele cemitério, rever a interrogação de pedra. Mas não encontrava um pretexto para falar nisso. Só desejava, depois esquecia. Era um menino. Anos mais tarde, lembrou-se novamente daquele túmulo e perguntou à mãe onde ficava o tal cemitério, palavra que ela às vezes substituía por campo santo. “Lembra, mãe, uma vez que…?” Mas ela não se lembrava. Para ajudá-lo, a mãe passou a enumerar três ou quatro cidades onde morriam parentes, mesmo assim ela não sabia com certeza. É que, provavelmente, nenhum desses adultos que o cercavam dava atenção a coisas assim: tantos túmulos e ornatos e arquiteturas e alvenarias e estilos que…

“Não lembra mesmo?”
“Não. Um dia morre alguém, a gente vai e encontra.”

Correu à avó, como pedindo socorro, a um passo de irromper em prantos e em pânico, a garganta afogada, porque vira na televisão alguma coisa sobre esqueletos, ossadas humanas, nem se lembrava ao certo do que se tratava. (Isso tinha sido antes daquela interrogação no túmulo, ele era menor ainda, um menino pequeno.) Horrorizou-se muito mais quando a irmã, perseguindo-o pela casa até a cozinha, disse-lhe, rindo e animada pelo sarcasmo, como rogando uma praga: “Você também vai virar esqueleto! Ahahah!”, apontando-lhe o dedo, divertida, agora cantarolando: “Vai vi-rar es-que-le-to!

“Vó, fala pra ela! Fala, fala! Fala pra ela!”
“Larga seu irmão, menina! Ora!”, colher de pau remexendo algo em uma panela escura. “Não vai virar esqueleto nada não! Ora! Vem cá, olha: acabei de fazer essas bolachinhas de chocolate.”

Isso o tranquilizava. Por enquanto. Mas como ter certeza da imunidade, se era naquilo que se transformavam os outros? E o que acontecia a todos nós, depois de virarmos esqueletos? Da última vez que a irmã lhe pregara uma peça, trocando os pés dos sapatos sob a cama, para que ele os calçasse errado e, portanto, se transformasse em um sapo, correra à avó como fazia agora. (A avó costumava resolver questões dessas facilmente: “Não vai virar sapo nada não! Ora!”.) Seria horrível tornar-se um sapo. Imagine só. Mas parecia ser muito pior acabar como um esqueleto. Isso tinha o poder de preocupá-lo de verdade, perturbando-lhe incisivamente o sono. Aliás, já havia esquecido quase completamente aquilo de virar sapo.



Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (“Os últimos dias de agosto”, “A seta de Verena”, “Marcas de gentis predadores”,“Projeto esvanecendo-se” e “Teus olhos na escuridão”), 4 volumes de contos (“A canção de pedra”, “A conspiração dos felizes”, “Lisette Maris em seu endereço de inverno” e “Inconsistência dos retratos”) e um de poesia (“Diário contra o destino”).  A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” ( www.percepolegatto.com.br ) .

Uma resposta

  1. Um misticismo corrente, mas melhor investigado, percorrido, debulhado, às vezes desmistificando, problematizado sem a “essência de nossos dias”. Esta prosa de ficção veterana, vai andar no tempo, como a tantos autores que não precisam necessariamente de crivos canônicos. Porque a perenidade da escrita literária está em si mesma legitimada. Do quase anônimo ao midiático, o espírito literário independe de tudo que for estruturalmente externo.

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