Ilustração: Hibisco/ Fábio Giorgi
A JORNADA
Para Antônia Krapp Tavares
Enquanto vivemos à parte nas sombras
existe um moinho que gira constante.
Embora não o vejamos
ele reluz à clareira na praia
com suas pás girando no ar.
Há tantas coisas que existem sem nós
flores e rios
animais que nascem e morrem
sem que saibamos.
Não saber é uma bênção e um desdém.
Não somos necessários ali.
Para que servimos senão para nossa própria vida?
Enquanto o rio desce por suas margens
ele não vê quem o olha
e inconsciente de si e do outro
prossegue sua jornada
como se não existisse.
29/07/2011 – 8h30
A VIAGEM DE VOLTA
I
As penumbras exploram nossos medos. E porque somos frágeis e cheios de segredos, vagamos como sombras, meros arremedos.
II
Por que me visitas? É a casa, a casa que não habitas.
Por que me chamas? É a voz, a voz que não sacias.
Por que me esperas? É a luz, a luz que não trouxeste.
Por que me escutas? É a noite, a noite que não tiveste.
III
Fui tua casa e só. Fui teu relento e só. Fui abrigo e refúgio, láudano, cicuta e tédio. Fui a moeda de teu bolso, o fundo, a larga noite emprestada. O largo, a nódoa, a história. Tudo cabia em mim como um sussurro. Palavras novas, todo dia. Toda a vida.
IV
Cala-te, a hora crispada de dor. Cala-te, amigo, porque te trago folhas. O barro moldou o silêncio em que dormias. Afasta tua mão da noite. Ela não cabe em teus segredos. Nada foi feito de ti até agora. Revolta. Não seremos esparsos. Tudo cabe agora. Até o que não havia.
V
Vieste e foi a sombra. O ocre alaranjado de tuas mãos se via. Por sobre a capa, a vida desenhava um arco. Lavras. Esse o nome de toda aurora. Antes. Ser do mundo um ósculo. Abismo. Por onde não se vê o olho da tempestade.
VI
Amor era o que pensavas? Não, não te trouxe nada. Esperei as horas todas a trafegar sobre as ondas, parcas sendas de golfinhos mansos. Aprendi a caminhar na chuva. Eu que não conhecia a estrada, avancei na névoa, a pisar aonde não sabia.
20/11/2010 – 22h10
ALTURAS
Assim como nas alturas,
disseste o que as palavras são.
O caos irrompe as manhãs,
como um trem a avançar sobre os trilhos,
e a vida que deixas para trás
clama por outro perdão
sobre vales circundados de memória.
É o corpo e sua terra,
a água longínqua a guardar os ruídos
que retorna sobre o caos de agora,
este que nos atravessa os sentidos.
14/04/2010 – 11h44
MELHOR
Para Leila Oli
Descem os pés ao andar das horas
a bater silentes sob o vão das portas,
passagem, ermo, paisagem, outrora.
O passado fecha as janelas do ontem.
Toda a vida é um fio prestes a se partir,
e mesmo assim não se parte,
aguardando o momento.
Em nossa memória estão todas as coisas
presentes, passadas e futuras,
sem podermos vê-las.
Abrem-se as cortinas do quarto,
e o que vemos?
Cômoda, armário, cama, quadros,
livros e roupas largadas,
numa mistura impossível de rastros.
A luz contorna os objetos e todos estão lá,
à espera do toque,
observando o passar dos dias,
a sombra e a luz,
a noite e a lua
a se lançar sobre o rosto das pessoas.
Trabalhamos incessantemente
para urgência que criamos.
Amar passa a ser escolha,
e tudo se acomoda sob o céu
das circunstâncias.
Optamos por
não ser,
não fazer,
não dizer,
não pensar.
Melhor não.
Não no lugar do sim.
Melhor.
10/12/2007 – 21h12
A REPETIÇÃO DA AURORA
Para Eduardo Tornaghi
Aqui não há visões do paraíso.
As montanhas carregam suas névoas
como um manto pesado demais para erguê-lo.
Serão assim as manhãs futuras,
onde a terra desce aos juncos
para sorver o que restam de lágrimas.
Podem deixar as vestes dobradas,
o linho amarfanhado, a casa por limpar.
O tempo não me pede pressa, ao contrário,
pede que eu não diga nada aos que ficaram.
Serão manhãs longas como esta, em que pensar
sobre o dia não o faz passar.
Logo ele acaba como começa, sem aviso.
Pendemos para o que nos falta –
esta réstia de horas sobre o instante.
A perenidade é memória,
o presente vivido, sem repetir o gesto:
sem a repetição da aurora.
19/10/2007 – 12h40
Foto :Vitor Vogel
Thereza Christina Rocque da Motta nasceu em 10 de julho de 1957, é poeta, editora e tradutora. Publicou Relógio de sol (1980), Papel arroz (1981), Joio & trigo (1982, 1983, 2004), Areal (1995), Sabbath (1998), Alba (2001), Chiaroscuro (2002), Lilacs/Lilases (2003), Rios (2003), Marco Polo e a Princesa Azul (2008), O mais puro amor de Abelardo e Heloísa (2009), Futebol e mais nada: Um time de poemas (2010), A vida dos livros (2010), Odysseus & O livro de Pandora (2012), Breve anunciação (poema dramático, 2013), As liras de Marília (poema histórico, 2103), Capitu (2014) e o pôster-poema “Décima lua” (1983). Prepara dois novos livros Folias e Horizontes, reunindo 20 títulos inéditos dos últimos 15 anos (1999-2014) de onde escolheu estes poemas. Traduziu A dança dos sonhos, de Michael Jackson (2011), 44 Sonetos escolhidos (2006) e 154 Sonetos (2009), de William Shakespeare e O Unicórnio e outros poemas, de Anne Morrow Lindbergh (no prelo). É membro da Academia Brasileira de Poesia e do PEN Clube do Brasil. Coordena o evento Ponte de Versos há 15 anos. Fundou a Ibis Libris em 2000.