
Eu estudava no Ginásio Leão XIII quando conheci Juçara. Tinha a pele muito branca e os cabelos negros caídos aos ombros, brilhosos, sempre bem penteados. Nossos olhares se cruzavam todos os dias, especialmente nos intervalos de aula. Os homens tinham os intervalos do recreio diferente do horário das mulheres – um capricho do diretor do Ginásio, professor Moacir Madeira Campos, que não admitia homens e mulheres juntos.
Meus amigos perceberam que eu estava gostando de apreciar Juçara. Mesmo esforçando-me para esconder meus sentimentos, fui flagrado com facilidade diante daquela situação, que para mim era um tormento e uma ousadia.
Eu deveria ter 13 anos de idade, quando Juçara passou a dominar meus pensamentos, provocando em mim um desesperado pavor somente por imaginar o que eu poderia dizer a ela, pois tudo para mim ainda era desconhecido. Meus amigos me estimulavam a procurá-la para conversar, mas só em pensar que isso pudesse acontecer eu me desesperava.
Sempre fui tímido, durante o período de minha adolescência. Lembro que, nas festas do Clube dos Diários, eu raramente dançava com alguém, por receios de levar um fora. Em algumas situações, eu esperava que a garota dançasse primeiro com outra pessoa, para que eu criasse coragem. Nunca controlei isso, pelo menos naquela época.
Um dia, cruzei com Juçara antes do início das aulas. Coincidentemente, chegamos ao colégio no mesmo momento e entramos juntos. Não tive alternativa, a não ser dizer a ela que eu gostaria de conversar logo após as aulas. É fácil imaginar como foi o restante daquela manhã, com minha grave falta de atenção a tudo. O nervosismo tomou conta, a adrenalina me dava descargas que me faziam suar, as mãos geladas e as pernas trêmulas. Por que fiz aquela proposta? O que eu diria a ela depois da aula? O que poderia acontecer? Acredite: foi um tormento aquela manhã.
Juçara me esperava do lado de fora do colégio. Todos os dias eu voltava para casa a pé, já que morava perto da Praça do Liceu. Por coincidência, ela também podia seguir a pé até a praça, e assim compartilharíamos parte do trajeto. Começamos a caminhada silenciosos, um ao lado do outro. Ela segurava os cadernos de encontro ao peito. Tinha a pele branca, como eu disse, que contrastava com os cabelos negros. Seu rosto começou a ficar rosado, por conta do calor e do sol inclemente, o que, de certa forma, lhe emprestava um ar gracioso. Mesmo sem dizer uma palavra, eu a achei mais bonita.
Quando alcançamos a Praça do Liceu, depois de uma caminhada silenciosa, ela parou, eu parei e nós dois nos olhamos. Meus olhos tremiam tanto que eu mal conseguia mantê-los abertos. Minhas pernas tremulavam. O suor escorria pela minha testa e molhava meu rosto. Eu estava desesperado, sem saber o que fazer ou qual atitude tomar. Naquele momento, percebi que eu precisava dizer alguma coisa. Segurei suas mãos, tão geladas quanto as minhas, e perguntei com tremenda dificuldade: “Você gostaria de namorar comigo?”. Ela consentiu, e cada um tomou seu rumo.
Daquele momento em diante, nunca mais trocamos olhares, nem nos intervalos das aulas nem na chegada ou saída do colégio. Parece que havíamos feito um pacto de amor, mas nos determinados a uma sentença estranha. Hoje, fico me perguntando o que pode ter acontecido. Eu e ela, na esquina da praça, aceitamos um namoro que sequer começou.

Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).