
Um livro para nossas vivências
A leitura deste Divagações e outras profundezas (Litteralux, 2026), de Tere Tavares, me veio, a princípio, na fisionomia do romance nada habitual. Os textos sem títulos ganham numerações que introduzem livres e inaugurais nexos da alma. As configurações de sentido se disseminam em incessantes cortes e recortes. Assim, as identidades narrativas se encandeiam e se expandem bruscas e fragmentárias. Controversa e ajustável, a protagonista vive mundos menos imediatos, desloca-se para a interioridade do cotidiano. Com efeito, não há distinção, no mesmo espaço-tempo, entre o mundo real e o alegórico — o mundo é de mistérios transitáveis, vividos. Esses dois pilares fundidos sustentam o romance, ou o ensaio, ou os contos, ou as séries, ou o longo poema. Enfim, a manifestação artística em que o movimento reside na inconclusão. A autora e seus eus não se prendem, não se completam, não se somam. E não se separam. Ela se esparge por entre a realidade e a metáfora, a narrativa inacabada e o livro pronto.
A obra constrói unidades em pedaços de tempo, em nervuras de faces recentes. As constantes interrogações surgem ora chocantes, ora satisfeitas e assim o desdobrar do ser por entre axiomas e indefinições. Estamos diante de estilhaços de um espelho. Ao longo do livro, Tere acompanha a transmissão dos próprios reflexos — as inconstantes aparências narrando no próximo estilhaço. Diante de si, é honesta à infinita expressão humana. Não lhe há saída às próprias especulações. Nessa aventura, o caminho é o das surpresas, das probabilidades, das divagações. Nesse ínterim, o eu não separa vida e literatura quando ele evoca, por exemplo: Sei desde a profunda escuridão, o trajeto para as réstias luminosas. Antes de ser uma imagem, sou uma experiência, uma espiã de mim. Ao longo das narrativas, o humano em ocultas oscilações se constata em complexas nuances. Na forma de fatos e de concepções, a narradora é uma interpretação; segue aproximada de si mesma em inéditas imagens da alma.
Por outro lado, há introdutórias e aparentes doutrinações. Aparentes, pois se esvaem em forças estranhas e infindáveis. O papel pedagógico é negado no terreno fugidio, escorregadio, cheio de experiências a partir das possibilidades de um tu: Pergunto-me se me terias amado, se haverias de amar-me, agora que aparento ser um sol mítico, tu, que temes o ardor de uma boca que nunca se calou, mesmo em fases de casulos emudecidos, a minha trança apalavrada docemente, como ferida reclusa. A narradora prossegue se acessando ao indagar o outro (num tu, num vós, num ele, num você). Ambosem plasticidade recíproca e cheios de estranhamentos (Deixei de existir dentro de ti porque me vês exteriormente.). Um tu em seu “silêncio” desperta etapas de um eu que atravessa as rupturas dos textos; rupturas que permitemaos leitores vivenciarem, ora alegres e ora sofridos, as próprias subjetividades. De instante a instante, somos articuladores textuais implícitos, somos capítulos que filosofam no tempo da escrita. Na paródia da vida, o interior humano antecede e sobrevive a qualquer didatismo lógico-semântico. Divagações e outras profundezas é uma pergunta cheia de aparições a se abrirem para nossa realidade alegórica. Não há separaçõesentre o real e o literário. A prosa poética descortina o cotidiano velado, medrosamente ininterrupto. Em verdade, pronomes e vocativos são personagens? Leio uma autora se construindo repentina: mais do que uma história no livro, há o belo da imaginação, do fluir da consciência. Por essa razão, os apelos, os julgamentos estão em querer classificá-la. Critérios avaliativos cedem à obra inacabada, contínua e arriscada.
Para este prefácio, leio: (…) uma mulher-nascente de um amor infossilizável. Nossos valores de verdade, enquanto leitores de nós mesmos, mostram que somos iniciados. Por isso, transcendentes em nossa profundidade ainda que apenas sentida na procura. Tavares imita a si mesma, quer parecer-se mais e mais consigo mesma. Para tanto, escreve deliberadamente hesitante, infossilizável na expressão do amor de uma iniciada. O amor revertido em linguagem literária, em estética e discurso não mais que a própria narradora-protagonista dentro de seus processos identitários. Portanto, insondável interior de uma autora real, fora de roteiros, de elaborações, de parâmetros ou o que for ensinamento, como defendeu Bandeira, o que quer que for fora de si mesmo. Longe de pedantismo ou exclusivismo, no entanto, Tere não se preocupa com crítica de especialistas e suas teorias fundamentadas, pois a presença na ausência é uma das formas mais elevadas de amor. Há tanto por não dizer. Nesta coletânea de textos, há muito por não dizer o suficiente às expectativas de leituras. A observação monologada na narrativa se dá no mesmo instante da leitura, o que transpõe o caráter de instantaneidade entre a introspecção do leitor e da escrita. Esse encontro de silêncios torna irrelevante o registro de fatos e discursos. Porquanto o “não dito” desafia investigações afeiçoadas a estruturas canonizadas de obras literárias. Como demarcar a introversão em estados de alma? Como capturar em critérios a espontaneidade da auto-observação? O tanto por não dizer é talento de iniciados.
Pergunta: Eu sou eu? Ninguém que imagine me alcançar o fará simplesmente por um motivo: tenho a alma perto da porta. Ao longo dos parágrafos, sinto a vida interior se movendo além de temáticas, cenários, tramas, graças ao místico na vida concreta, à sede instável de ser (Que vida? Que ser?). O livro fala por si; eu falo por mim e eis a resposta, o elo. E continuo abrindo aleatoriamente as páginas, ao que a escritora sai de cena. Ainda não me perfumei para o enredo (Que enredo?). Desconfio de relevos favoráveis e contrários a mim e à Divagações e outras profundezas. Para onde foi a leitora da própria obra? Já que desaparece dentro de seu estado de espírito, penso também numa narrativa de maior espiritualidade, pois somos iguais em procura. Paro em outra sequência que diz: O mar metafórico, o mar verdadeiro, o navegar incerto, o caminho sedutor e perigoso como a vida. Devo confiar? A poética me deixa interatuar sem o crivo da autora. Tere Tavares e sua rara desenvoltura literária em organismo de liberdade. Afinal, temos em mãos um livro para nossas vivências.
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Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, Brasil, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Litteralux 2015), A licitude dos olhos (Ed. Litteralux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed.Litteralux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed.Litteralux, 2021), Diário dos inícios (Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, RJ, 2021), Luz (Edição da autora, 2024), Divagações & outras profundezas (Ed. Litteralux, SP, 2026). Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra o FotoClube Cascavel e a Academia Cascavelense de Letras.
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G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021) e Gestos do nada (no prelo).
Respostas de 2
Um convite a impressões incorporadas e incorpóreas na leitura que se aproxima tão íntima quanto manifestações da arte que nos leem de dentro para fora.
Parabéns e obrigado pelo convite à leitura, Geovane, Tere.
O que segue, Nairton, é um modesto e sincero paratexto, pois o que importa na verdade é a obra em si. Como você bem imprimi, a arte de dentro para fora. Ou seja, o que contamina o homem, fazendo aqui uma paródia bíblica, é de dentro para fora – trajeto da literatura à alta espiritualidade em nossas vidas. Vamos agora divagar outras profundezas com Tere Tavares. Sigamos!