
Ao abrir os olhos Ezequias encontrou o pavor. Os dois homens vestiam ternos escuros e tinham em cada uma das mãos um cravo branco e um alicate de corte. Ambos estavam pálidos e levaram dois segundos até conseguirem gritar. Depois disso correram, deixando Ezequias sozinho na sala. Foi quando ele percebeu que os mesmos cravos que os homens tinham nas mãos estavam espalhados ao redor de seu tronco. Ergueu o corpo e desceu de onde estava. Só então percebeu que acabara de sair de um caixão, talvez o seu. As flores brancas ficaram espalhadas pelo chão, algumas foram esmagadas por seus sapatos lustrosos.
Ezequias não tinha ideia de como havia parado ali. Sua última recordação era a de um colega do escritório de contabilidade abanando-o com formulários. Caminhou pelo salão, descobriu bancos de igreja alinhados em frente a seu caixão. Uma passarela vermelha dividia o ambiente em dois. Na parede, além de um crucifixo sem Cristo, havia frases ecumênicas falando de paz, paraíso e eternidade. Sem saber o que fazer sentou-se em um banco. Percebeu que a roupa que vestia não era a mesma com a qual havia saído de casa. As calças pareciam dois números maiores. Mas esse talvez fosse o menor dos problemas.
Precisava decifrar seu próprio enigma, buscar explicações, descobrir culpados, exigir indenizações, mas talvez o mais urgente mesmo fosse alertar a todos sobre sua vida, que ela não havia sido extinta e para a alegria de todos, prosseguiria. Imaginou como a notícia havia chegado a cada um de seus próximos, sua mulher, sua mãe, seus melhores amigos. Chorou pelas dores alheias. Com as lágrimas secas percebeu que se não quisesse aumentar ainda mais as consequências desse terrível engano, precisaria ser muito cuidadoso. Não poderia simplesmente esperar pelos convidados do velório informando-lhes que tudo não passara de um erro causado por maus profissionais.
Em sua vida Ezequias sempre havia sido alguém que procurara desviar-se do foco de atenção, discreto, cumpridor de horários e trabalhador. Sabia que essas eram suas armas contra a timidez excessiva e uma inteligência ligeiramente menor que a média. Mas na situação em que se encontrava todas as luzes seriam apontadas para ele. Além de se tornar o centro das atenções poderia ser acusado de causador deliberado, senão de toda, pelo menos de parte da situação. Experimentou o vazio de uma manhã chuvosa de domingo descer por seu estômago e amortecer suas pernas. Enquanto isso o coração trovejava, acumulando-lhe chuva dentro do crânio.
Passos cautelosos vieram encerrar a tempestade. Reconheceu um dos dois homens a quem assustara. Parecia ainda mais amedrontado do que quando o assistira renascer. Para Ezequias aquele homem era o navio aproximando-se de seu bote salva-vidas. Antes das respostas precisava assegurar-se de que ele o havia visto e que não iria desaparecer novamente. O homem pareceu compreender a extensão do naufrágio.
“O senhor está bem?”
Ezequias encheu os pulmões de uma alegria rara. Não sabia por onde começar sua resposta, mesmo porque as perguntas esperavam em fila indiana. Mas não podia perder tempo, precisava pronunciar alguma palavra.
“Parece que estou vivo.”
Arrependeu-se imediatamente. Aquele não era o momento para ironias, sarcasmos ou seus assemelhados. Precisava oferecer algo sólido.
“Quase me enterram…”
“O senhor iria ser cremado.”
As imagens mentais que fez da cena bloquearam sua voz. O agente funerário, liberto do temor, colocou a mão no ombro de Ezequias e o convidou a participar do mundo dos vivos. Percebeu que o segundo agente funerário espiava pela janela.
“Preciso avisar minha família… tudo não passou de um grande erro…”
“O velório começa em meia hora.”
A conversa foi interrompida pela entrada do segundo agente funerário, um homem que parecia especialmente desenhado para a função. A magreza desvendava contornos cadavéricos nas maçãs do rosto. A pele morena parecia desbotada e ganhava uma palidez amarelada. Os olhos moles estavam prontos para lágrimas falsas. As grandes mãos cheias de calos haviam conhecido milhares de alças de caixões. Os braços longos cansados de tanto peso morto terminavam em uma corcunda que as largas ombreiras do terno não conseguiam esconder. Além do susto, Ezequias conseguiu ler em sua expressão algo que demorou a definir, mas que na falta de um termo melhor, classificou como decepção. A sobrevivência de alguém parecia estar destruindo sua zona de conforto. Os mortos são seres altamente previsíveis. Assim que os profissionais se livram de um, já há outro pronto para assumir seu lugar. Todos absolutamente submissos. Antes de apertar a mão gelada do homem, Ezequias julgou encontrar uma ponta de raiva encravada nas veias vermelhas de seus olhos baços. Ele permaneceu silencioso, foi o primeiro quem voltou a falar.
“Catalepsia, o corpo não tem nenhum sinal vital, de vez em quando acontece. Eu já abri um túmulo velho e achei um esqueleto tentando erguer a tampa do caixão.”
O primeiro agente começou a juntar as flores que Ezequias havia espalhado pelo chão.
“Será que vocês conseguiriam me arrumar umas roupas, essas calças são muito grandes para mim.”
“O senhor me desculpe, mas quem fornece a roupa do finado é a família.”
Ezequias não se lembrava de possuir o terno que vestia, talvez sua mulher o tivesse comprado depois que soube da notícia.
“Preciso de uma corda, um barbante, qualquer coisa para amarrar minhas calças, e deixe-me ver, mortos não são enterrados com dinheiro no bolso, vocês poderiam me emprestar alguma coisa para o táxi?”
Foi quando o mais soturno dos agentes funerários interviu, mostrando que sua voz cavernosa combinava com o resto do corpo.
“Acho melhor o senhor ficar por aqui mesmo e explicar aos parentes e amigos a sua situação.”
Seu companheiro de profissão discordou, primeiro com um olhar contrariado, depois com palavras que preferia haver dito sem testemunhas:
“Quer que ele mate todos do coração?”
Ezequias concordou que aquela não seria a melhor solução. Lembrou aos dois homens que faltavam pouco mais de quinze minutos para o início do velório. O agente funerário que acabara de falar fechou a porta do salão. Dois carros acabavam de estacionar.
“É o seu pessoal chegando. Mas não se preocupe, eles esperam o quanto for necessário, ninguém gosta de ver os corpos sendo preparados.“
O nervosismo, que até então havia deixado Ezequias relativamente em paz, decidiu espetar-lhe o pescoço com um forcado que depois de rasgar-lhe a pele, raspava-lhe as jugulares. Seu rosto avermelhou-se e ele caminhou afoito até perceber que suas calças estavam abaixo dos joelhos. Não aceitava fazer mal a inocentes. Se até ali não tinha qualquer culpa pela situação, se causasse um mal súbito a alguém, se transformaria imediatamente em assassino. Culposo era bem verdade, mas assassino.
“Preciso sair imediatamente daqui.”
“Agora é tarde, já tem uma meia dúzia de pessoas esperando ao lado da porta. Não há outra saída.”
Ezequias pareceu acusar o golpe. Baixou a cabeça e quando a levantou os dois agentes funerários repararam nas lágrimas que escorriam em quantidade.
O primeiro agente, que parecia estar um degrau hierárquico acima do segundo, tentou acalmá-lo:
“Calma, para tudo na vida há uma solução.”
Ezequias explodiu:
“Vocês dois vão ser responsabilizados criminalmente por qualquer coisa que aconteça aqui. Querem ir para a cadeia?”
As primeiras batidas leves na porta de madeira foram ouvidas e o superior mandou o inferior avisar ao pessoal para esperarem mais cinco minutos.
“Escute Ezequias, disse o agente funerário superior, só há uma saída. Você volta para o caixão, nós terminamos de arrumar as flores. O velório acontece. No final da cerimônia, depois das despedidas, o caixão baixa automaticamente. A maioria das pessoas acha que vai diretamente para o forno crematório. Na verdade, depois que aciono o mecanismo, ele desce até uma salinha onde eu e meu assitente desparafuzamos as alças de bronze e extraímos marcapassos e outros adereços metálicos do falecido. Você pode se esconder ali por algum tempo, eu te aviso quando todos tiverem ido embora. O resto é com você.”
Sem encontrar argumentos mais fortes do que o do chefe dos agentes funerários, Ezequias deitou-se no caixão enquanto os dois homens recolocavam as flores e limpavam o chão.
“Respiração, esse será o segredo do teu sucesso. Colocamos uma camada extra de flores que vai amortecer os movimentos de tua barriga, mas terá de respirar o mínimo possível.”
Antes que conseguisse responder ainda ouviu a voz do assistente:
“Vou abrir a porta.”
Ezequias fechou os olhos e escutou os primeiros passos circunspectos vindo em sua direção. O chão de madeira permitia que identificasse os tipos de calçados: sapatos masculinos e um par de saltos altos. Um leve suspiro de mulher e mais nenhuma palavra. Em poucos minutos várias pessoas chegaram, quase todas ao mesmo tempo. Lembrou-se de seu método para velórios: chegar o mais cedo possível, quando sua presença certamente seria notada pelos familiares. No instante em que mais três ou quatro pessoas chegassem, partia sem se despedir. O gasto total de tempo variava entre dez e quinze minutos.
Já havia na sala gente suficiente para produzirem zumbidos, que com a cabeça escondida dentro do caixão, não conseguia entender. Quando alguém se aproximava um pouco pescava algumas palavras: “jovem”, “Deus”, “sofreu”, “coração”, “viúva”. Talvez sua mãe estivesse sentada a três metros dele, provavelmente chorando em silêncio enquanto era consolada por alguém. E sua mulher? Até aquele instante não ouvira sua voz. Seria ela a dona dos saltos altos acompanhados por sapatos masculinos?
Aos poucos percebeu que o tom comportado das conversas foi perdendo a rigidez. Mesmo sem conseguir compreender direito as palavras, descobriu uma atmosfera cada vez mais leve. Nenhum grito de desespero ou choro doído. Apenas uma reunião de despedida de um amigo que vai passar alguns meses fora. Teve a impressão de ouvir no fundo do salão um começo de risada.
Percebia algumas sombras silenciosas que se aproximavam do caixão sem dizer nada. Talvez fosse ali que morasse a dor. Essas seriam as únicas pessoas que se importavam verdadeiramente com ele. A vontade de abrir ligeiramente uma das pálpebras foi controlada. Talvez esse mistério devesse ser preservado.
De onde estava ficava difícil saber quanto tempo havia passado. Parece que o tempo morre junto com o homem. Mesmo que a morte seja falsa. Um padre aproximou-se e proferiu as primeiras palavras que conseguiu entender durante todo o velório. Os mesmos lugares comuns, glória, lugar melhor, companhia dos antepassados. Quando citou seu nome, Ezequias teve a impressão ligeira de escutar um soluço masculino. Quem seria? Nenhuma mulher choraria por ele?
As gotas de água benta aspergidas pelo padre trouxeram-lhe uma coceira quase insuportável. Lembrou-se dos melhores momentos de sua vida, depois dos piores, qualquer coisa que conseguisse distrai-lo da obsessão pela coceira. Conseguiu, mas o esforço custou-lhe gotas de suor escorrendo pela testa. Não sabia se mortos suavam, de qualquer forma apenas aquelas gotas não seriam suficientes para denunciá-lo.
Ouviu as palavras pelas quais mais ansiava e temia: “É chegada a hora de nos despedirmos de nosso amigo Ezequias”. Algumas pessoas se aproximaram do esquife. Sentiu uma mão gelada sobre a testa. O calor de seu corpo acabaria com a farsa. Esperou pelo grito, alguma voz desesperada alertando a todos que aquele homem estava prestes a ser cremado vivo. Só o que escutou foi o barulho do mecanismo encarregado de baixar o caixão.
O pequeno elevador fez qualquer luz desaparecer. Abriu os olhos aliviado para se descobrir mergulhado em nada. Ouvia o mecanismo funcionar, sabia que sua viagem não duraria mais do que quatro ou cinco segundos. O ruído das engrenagens era a única garantia de que a escuridão não seria eterna. Mesmo assim soava como um canto de sereia encorajando esperanças sem chão.
Ezequias não tinha escolhas. Precisava aceitar aquele curto caminho entre duas luzes. Estava condenado ao trajeto de todos os homens. Teria como trilha sonora os sons escuros que o mundo grita.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
