VÉRTEBRA DO VERBO COM IRIS PONGELUPPI: REINAUDO PZERRE



A literatura brasileira contemporânea pulula uma riqueza cultural inestimável. Todavia, nem sempre há oportunidades para escritoras e escritores independentes divulgarem seus trabalhos literários. Desta forma, esta coluna surge com o intuito dos autores e autoras mostrarem um recorte dos seus universos particulares, os bastidores da criação, a vértebra do verbo em suas vivências literárias. Para os amantes da poesia, da literatura, fica o convite.
 
E é com imensa alegria que o primeiro entrevistado na Vértebra do Verbo é o escritor carioca Reinaudo Pzerre, autor do livro de contos Como Jóqueis para Tartarugas publicado pela Patuá. Este escritor tão interessante, criativo e autêntico. Leia a seguir o nosso bate-papo literário:


1 – Escrever te energiza ou te esgota?
 
As duas coisas. Mas não escrever me esgota mais.  Eu gosto da ilusão de estar existindo que a escrita me dá.
 
2 – Se não houvessem leitores, ainda assim você escreveria? Por quê?
 
Quem disse que eu tenho leitores?
 
3 – O que há de diferente no livro Como Jóqueis para Tartarugas?

Eu acho que a originalidade em literatura é impossível. Mas alguma diferença deve haver.  Eu vim de um bairro chamado Piedade e achava que eu devia ser o único escritor de lá. Já fiz amizade com três do ano passado pra cá: eu, Marcos Aquino, Flávio Braga e Fernando Molica. Estamos pensando até em fundar uma associação (risos). Mas assim, a diferença deve ser uma coisa que tá no estilo, mas eu olho ele de dentro, então enxergo mais o volante que a estrada.


4 – Por que escolheu esse título?
 
Um dia eu conversava com uma amiga psicanalista e me veio essa imagem dos processos de mudanças mais profundos serem muito lentos, eventualmente imperceptíveis. Virou um texto curto que acabou se transformando tempos depois no meu prefácio. 
 
5 – Você prefere escrever prosa ou poesia?

Eu não consigo ver bem a diferença. Acho que tudo é poesia no fim. Toda arte no fim é um tipo de poesia.
 
6 – Como o seu eu do passado reagiria ao ver o seu eu do presente? Explique.
 
O eu do passado não existe… Sempre era o do presente. “O passado não passa e nem mesmo é passado”. Acho que foi algo assim que o Faulkner disse. Mas é isso, basicamente me esforço aos trancos e barrancos pra atualizar, tornar em ato, o que mora em mim como potência. Eu sou o que sempre fui. Quero só ser capaz de fazer mais. E fazer não é fácil. Pra mim pelo menos segue sendo difícil. Talvez menos que antes, mais difícil que amanhã, mas não acho que tem como se tornar fácil. Fácil é fugir da verdade.
 
7 – Se você pudesse por um dia se transformar em um (a) outro (a) escritor (a) (de qualquer época, vivo ou que já se foi), qual seria?
 
Henry Miller, na noite de núpcias com a Marilyn Monroe.
 
8 – O que o leitor encontrará nos personagens dos seus contos?
 
Com sorte um espelho e aquilo que não estão procurando.
 
9 – Cite uma característica que seus personagens têm que você também tenha.
 
Eu sou um morador de rua, basicamente. Um Diógenes de Piedade. Sempre vai ser isso, uma mistura de mendigo com filósofo.
 
10 – Qual o sentido de escrever?
 
Nenhum. Sentido é a desgraça de qualquer coisa que se faça na vida. Quanto menos sentido, mais espaço pra beleza.




Reinaudo Ramos-Pzerre nasceu no Rio, mais exatamente no bairro de Piedade, aquele onde também nasceu Pixinguinha e Euclides da Cunha foi morto. É formado em Filosofia e fez mestrado e doutorado em Educação. Estudou em escola do governo e passou seis meses na Sorbonne (teoricamente realizando estudos e pesquisa). Mora no subúrbio do Rio e trabalha no quadro técnico de uma repartição federal. Escreve prosa e poesia, pesquisa o tema das masculinidades contemporâneas. Tem um projeto sociocultural intitulado “Circuito Caramelo” e é distímico desde que se entende por gente. Ganhou prêmio da Academia Brasileira de Letras pelas coisas que escreveu – e pelas quais tem elevado apreço porque lhe parecem feitas por outra pessoa. É pai do Benoá, que torce pro Vasco e pro Flamengo ao mesmo tempo – enquanto o pai, infelizmente, só soube ser Vasco até hoje.



Iris Pongeluppi (27/10/1994) é mineira de Belo Horizonte, fascinada pela arte, escreve prosa e poesia desde a infância. Autora do livro de contos Intangíveis (2018) e do livro de poesia Veemente como o Sol (2025) pela editora Minimalismos, já realizou uma exposição de poesia e participou de algumas antologias literárias. Ademais, já publicou textos (poemas e/ou contos) na Revista Barbante, Revista Lira, Beco dos Poetas, Ruído Manifesto, O Odisseu, Variações, Oásis Cultural, Mirada Janela Cultural, dentre outros.

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