A obra-prima de Anfrísio Neto, uma resenha de Eneas Barros

Mandu, Eneas e Anfrísio Neto, ilustração criada por IA.

Eu gostaria de render uma homenagem especial ao doutor Anfrísio Neto Lobão Castelo Branco, que escreveu uma obra-prima chamada “Mandu Ladino” (à venda nas livrarias Nova Aliança e Entrelivros). Outro dia, cruzei com ele em um desses supermercados da vida e resolvi tietá-lo, fazendo a selfie que ilustra esse texto. Como pesquiso muito para escrever meus romances, percebi na leitura de “Mandu Ladino” que doutor Anfrísio alcançou uma espécie de Nirvana literário, ao mergulhar profundamente em um passado de costumes e cenários piauienses que poucos livros de história conseguem retratar.

O livro conta a saga do índio Mandu, da tribo dos Alongares, que lutou até o fim da vida pela liberdade indígena, pelo direito à terra e pelo fim da submissão aos brancos conquistadores. Foi uma das mais fascinantes histórias que já li, não apenas pelo seu enredo, que é palpitante, mas pelo vasto conhecimento que o autor demonstra sobre o sertão piauiense, os costumes antigos, a linguagem indígena, a descrição da fauna e da flora e a narrativa de batalhas épicas. O vocabulário é invejável e percorre com maestria as dificuldades de comunicação entre índios e brancos (dificílimo de reproduzir em uma narrativa). Expõe a brutalidade das relações entre o conquistador e suas vítimas, deixando transparecer a alma indígena, os seus medos, suas crenças e, sobretudo, sua forma carinhosa e protetora de cuidar de suas mulheres, crianças e idosos. Anfrísio nos pega pela mão e nos conduz pelos vastos campos piauienses, mata fechada, grotões, planícies, riachos e rios, desbravando cada palmo de chão e antevendo o futuro surgimento de cidades como Campo Maior, Piracuruca, Batalha, Teresina, São Miguel do Tapuio, São Bernardo do Maranhão, Barras e Oeiras.

Os conquistadores não conseguiam entender a alma indígena, e a religião ajudou muito a incutir a ideia de que índio não tinha alma. Para os brancos, eles eram facínoras, ladrões de gado e assassinos, que nem da conversão precisavam para se salvarem. Os jesuítas contribuíram muito para eliminar a cultura indígena, suas crenças e seus hábitos. Como fazendeiros, ou dirigindo aldeamentos, aproveitaram-se da escravidão para subjugar e implantar um deus muito distante daquele cultuado pelos silvícolas.

Por tudo isso, rendo minhas homenagens a Anfrísio Neto, proprietário da fazenda Abelheiras, outrora uma aldeia dos índios Abelhas, por uma história impecável, recheada de vasto conhecimento sobre o Piauí dos séculos XVII e XVIII, que, com seu romance, nos ajuda a entender melhor a história de nossos antepassados, dos conquistadores e dos povos que ao longo dos séculos foram sendo massacrados até a extinção.



Eneas do Rêgo Barros nasceu em Teresina, Piauí. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal do Piauí. É especialista em Planejamento Turístico pela Faculdade de Ensino Superior de Pernambuco e em Jornalismo e Marketing pela University of Nebraska (EUA). É escritor, romancista e biógrafo, com 30 livros publicados, e membro da Sociedade Literária de Teresina (SOL).

Respostas de 2

  1. Seu texto nos instiga a adquirir esta obra ‘Mandu Ladino’. Pelo jeito é um livro que resgata bem uma memória rica que se quer, porém , esquecida. Obras como essa, nos educa, nos informa, nos disciplina, nos proporciona a consciência tão decisiva para não errarmos por ignorância. Irei adquirir o ‘Mandu Ladino ‘, de . Afrisio Neto Lobão Castelo Branco. Este autor deve ser como você, Eneas, um excelente pesquisador da memória coletiva arquivada.

  2. Excelente! Como sempre, Enéas Barros contribui, com suas obras, suas resenhas e seus comentários, para divulgar a literatura piauiense. 👏👏👏👏

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