
Imagem: detalhe de Hommage à Charles Baudelaire, de Barbara Monacelli.
Tão tranquilos. Mas fico procurando, tentando achar, como se erros de digitação formassem sentidos maiores. Nenhum mistério. A linguagem mais sofisticada é sem cuidados dolorosos. Basta o abraço do casal, seus gestos distraídos, quase primitivos, tranquilos.
Eles não reescrevem sua união, pois não chega pronta de tanto existir. Dois rostos decididos sem o acerto de viver. Respiram. Quem no mundo espera se vem ou não o próximo respirar? O casal se olha sem o silêncio de quem sente que não respirará mais. Os dois se tocam sem que eu precise dizer isso. O casal não depende senão de enquanto são casais. Não conhecem da vida diária a inconsciência ociosa. Namoram se desejando exatos. Ninguém se importa: estão ocupados de viver vivendo ou não. Viver sem viver está dentro da moral das delícias. E é vivendo que não se vive: fazem amor, se redescobrem em rupturas – este modo de não estarem sozinhos.
Tranquilamente tecem a finitude da matéria comunicada. Os namorados nos telefonemas assumem a mesma voz da meninice com sua escolha e chegada do novo brinquedo.
– Vamos passear!
De repente noivam e se casam. Os filhos são tão inexplicáveis quanto a resposta então final que os trouxera ao mundo sem injustiças – O mundo igualmente nascido na mesma plasticidade (pais e filhos). Um vida passa a ser construída à revelia quando um “sim” de aparências definitivas. Duas almas e o sentido de viver na família crescendo, no lar, reduto do tempo que agora assassina sem fazer doer, sem matar. A inovada surpresa de o espelho não refletir a velhice chegando, sequer o amor empreendido. O tempo se torna um corpo de casal ocasionando, fazendo existir. O amor está agora nas coisas da vida a dois, na pequenina cifra dos que não se casam, no anéis trocados e cartório.
Sem que eu acerte ou me aproxime, escrevo qual mensagens apagadas por ladrões de celulares. O novo telefone é indiferente a qualquer literatura a não ser suas novas funções no sorriso dos pais protegendo os filhos. Ao que uma nova mensagem se dissemina, estão adiante os próximos jovens tranquilos de não precisarem estar tranquilos – não há sentença. Pais e filhos empobrecem meu texto, porque não têm nada a me ditar, senão perderiam a hora, as infindas fugacidades. Já não posso empoderar ou matar meus personagens; o heroísmos dessa gente me é a serena união de corpos. Isso lhes é tão fácil que não há pesquisa, nem imaginação suficientes, capazes dos endereços certos. O ser humano não é um luxo diante de literaturas além, futuras de presentes.
Eles, os casais, sem nenhuma mensagem ou culpa, desprezam qualquer demora verbal. Minha sintaxe já não sabe mais fazer amor.

G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021) e Gestos do nada (no prelo).
Uma resposta
A densidade envolve a candura na descrição de uma situação recorrente abraçada a traços de lirismo que enlaça a prosa a uma poética singular com a força de quem sabe onde está em sua sintaxe – própria e eficiente – na construção de um texto identidade do cotidiano comum com força e profundezas.