
Media as pessoas pela qualidade da imagem que conseguia enxergar em suas íris. Da própria imagem. Olhos grandes costumavam oferecer mais espaço, mas nem por isso melhor qualidade. Cansou-se de descobrir-se por inteiro dentro de oblíquos olhos orientais. Tampouco eram determinadas cores que facilitavam sua presença nas vizinhanças da pupila. Em olhos azuis ou escuros descobriu-se democraticamente presente ou ausente. Idade, beleza, riqueza ou mau cheiro também não eram fatores que contribuíssem para encontrar-se mergulhado em uma íris. Nem mesmo a condição humana assegurava isso, reconheceu-se em olhos caninos. Mas mesmo assim, só em alguns.
O fato era que para ele, todos que não fossem espelhos não existiam. O que fazia com que considerasse real apenas um entre dez pessoas ou animais com quem convivia. Os outros nove décimos eram anteparos, como muros, postes ou carros. Respeitava-os como objetos contra os quais não deveria se chocar.
Aos eleitos, devolvia olhares, conversava de lábios fechados, escrevia seus maiores segredos no branco dos olhos e os expremia até que a pupila com voz extridente gritasse suas mais nebulosas confissões.
A eles dedicava toda sua coleção de lágrimas. As pequenas veias vermelhas também serviam de idioma, e muitas perguntas encabuladas foram escritas nessa língua. Mas não eram só os olhos que falavam aos eleitos. Braços, tronco, mãos, o corpo inteiro transformava-se em palavras. Eles frequentavam seus sonhos, e mesmo neles, possuíam olhos espelhados com sua figura. Dentro e fora do sono escutava o que aquela gente tinha a dizer, mas daí não extraía nenhuma conclusão. As vozes tinham o ritmo do celofane que esconde o queijo quando é rasgado pela insistência dos ratos. Os timbres metálicos sussurravam palavras em uma língua parcialmente conhecida. Mesmo assim sabia que diante da incompreensão, o melhor remédio era um sorriso seguido de leves sinais afirmativos com a cabeça. Quanto aos apertos de mão e tapinhas nas costas, jamais os compreendeu. Pareciam a tentativa marota de violação de um tratado de paz. Tomava cuidados para nunca cometer as mesmas indelicadezas que sofria, por isso, por precaução, mantinha sempre asseadas o par de luvas brancas que vestia.
Em bailes a rigor contentava-se em assistir à orquestra, desossar codornas e captar nesgas de si mesmo dentro de olhos que revelavam o próprio tédio. Aos convites para dançar respondia com recusas quase desdenhosas. Em seguida abaixava a cabeça para que não enxergasse raspas de si mesmo que talvez não reconhecesse como suas. Quando voltava para casa costumava pendurar o traje de gala em um manequim que ficava em frente a sua cama. Com as luzes apagadas enxergava aquele homem sem rosto e pés flutuando dentro do escuro. A solidão picava-lhe pulsos e calcanhares. Ele suspeitava que talvez precisasse de algum remédio.
As manhãs alternavam-se sem deixar marcas. Caminhava por um mundo feito de anteparos, precisava eventualmente trocar algumas palavras com eles. Mesmo que fosse apenas para descobrir se dentro deles enxergava sua imagem. Quando fisgava um peixe açucarado sua alegria tinha o peso das luzes de ano novo. Em um desses dias sem horas encontrou-se sorridente dentro de um grande par de olhos azuis. Os belos espelhos eram também muito eficientes. Descobriu marcas do tempo que nunca havia percebido. Sobre seu próprio sorriso desenhava-se outro. Ao lado do nariz que guardava na memória, sobre a boca, na testa ou ao redor dos lábios, havia uma pessoa tentando se parecer com ele. Mas essa imitação era infinitamente mais feia do que o original. Aproveitou para desviar o pensamento e elogiar o par de olhos azuis. Que como agradecimento formou imagens ainda mais cristalinas. Ele não conseguiu desviar e foi abatido por retratos que lhe perturbaram. Descobriu caminhos, as rugas formavam estradas, qualquer inseto iria adorar passear por elas. Entrou em contato com a derradeira notícia: estava envelhecendo. A cada dia encontraria seus novos pares, sobrepondo máscaras e desenhando rostos estrangeiros.
Urgia mudar de vida. Afastar-se dos olhos espelhados. Afinal, os grandes homens são aqueles que aceitam as próprias contradições. Nove entre dez humanos, de agora em diante, seriam seus irmãos de alma. Seu coração estaria ao lado da maioria. Por isso se enchia de uma alegria que ele mesmo desconfiava ser feita de substância volátil.
Desistiu dos bailes de gala e passou a caminhar pelas ruas, a andar de ônibus, frequentar igrejas, enterros, qualquer lugar com grande aglomeração de público. Puxava conversa com frequência, apertava mãos recém-conhecidas e sempre repetia seu nome antes de dar tapinhas nas costas. Em troca recebia alguns sorrisos encabulados que aos poucos iam se afrouxando. Para os populares, sua figura apesar de estranha, possuía certa sofisticação de outra época. Tratavam-no com um respeito quase excessivo.
Ele refestelava-se naqueles milhares de olhos opacos. A humanidade parecia um poço dourado e ele o único habitante vivo capaz de transformar crenças em ouro.
Seu sucesso foi tão grande, que aqueles que não possuíam olhos brilhantes seguiam-no onde quer que fosse. Aquilo começou a incomodá-lo um pouco. Eram os ossos da codorna. Antes de sair de casa enchia-se com toda simpatia que aguentasse carregar. Depois era a vez deles: deviam abastecê-lo com seus olhos opacos para então afogá-lo em um lago de perguntas tediosas. Por que a mudança? Era definitiva? Eram muitos fazendo sempre as mesmas perguntas, mas exigindo respostas diferentes.
Os olhos opacos convidavam-no para muitas festas, danças populares, cerveja e mulheres embriagadas. Nas primeiras vezes ele foi e até conseguiu divertir-se, mas depois tudo lhe pareceu vulgar e repetitivo. A grande vantagem dessa convivência era que sempre foi muito bem tratado e nunca se reconheceu espelhado nos olhos de ninguém. Depois de algumas décadas agindo dessa maneira começou a esquecer nomes, sentir dor nos ossos de tantos apertos de mãos e tapinhas nas costas. Suas vistas fraquejaram e se alguma pessoa com olhos espelhados lhe cruzasse o caminho, passaria despercebida. Aliás, isso se tornara irrelevante. Agora tinha outras preocupações. Só não sabia exatamente quais eram.
Na saída de uma dessas festas populares, depois de passar quatro horas cumprimentando pessoas e bebendo caipirinhas, sentiu uma leve tontura que aos poucos foi ganhando corpo. Decidiu ir para casa. No caminho desmaiou e caiu com o rosto dentro de uma poça de lama. Passou várias horas desmaiado. Respirava o pouco ar que havia no alto do buraco e por vezes sorvia com o nariz um pouco de lama. Ninguém percebeu sua ausência (em qualquer lugar) ou sua presença (ali no buraco). Quando conseguiu levantar-se a noite começava a morrer. Mas o escuro pulsava vibrante ao redor do buraco. Sentia-se mal, a cabeça latejava, o peito doía, tinha várias escoriações pelo corpo, suas calças estavam rasgadas e o joelho mostrava o brilho esbranquiçado de um osso. Percebeu que não conseguiria permanecer de pé. Deixou-se cair dentro da poça. Lá dentro estava a imagem de uma lâmpada cansada. Em frente dela descobriu também um vulto enlameado. Suas dores físicas foram engolidas pelas morais. De seus cabelos ralos escorriam gotas escuras que desciam pelo rosto, desenhando-lhe um grande sorriso que não precisava de lábios. Sob o nariz havia um bigode ralo de um lado, farto do outro e que servia para destruir os ultimos resquícios de harmonia de um rosto.
Mas foram eles, os olhos, que o fizeram tomar a decisão. Pela primeira vez na vida contemplava os próprios olhos com atenção. Eram dois buracos escuros, nem opacos nem brilhantes. Duas sepulturas abertas à espera da morte. Sentiu fortes dores nas costas e dificuldades respiratórias. Quando o dia chegasse ele poderia gritar, pedir socorro. Não. Não faria isso. Ficaria na poça e esperaria a morte chegar. Sentia até certo alívio. Não era fácil passar quase um século vestindo uma máscara. Ninguém sabia quem ele era de verdade. Nem ele mesmo. Agora o ator precisava descansar. A velhice terminaria. Todos descansariam em paz. Ninguém mais precisaria de um nome.
Deitou-se na beira da estrada. As últimas estrelas ainda cintilavam. Tentou algum pensamento poético que rimasse com eternidade. Nada conseguiu. Experimentou lembrar-se dos grandes feitos de sua vida. Selecionou três ou quatro mas eles logo pareceram pequenos demais para serem mencionados. Ficaria ali. Sem pensar ou esperar nada. Sua tosse aumentou e as dores nas costas tornaram-se lancinantes. Segurou seu grito para não atrair ninguém. Do canto da sua boca o que escorria não era lama, mas um vermelho que perdera a virulência.
Aos poucos as luzes vão ferindo a escuridão e ocupando espaços. Quando o dia já afugentara a noite, mas ela ainda deixava para trás parte de seu enxoval, um homem que caminhava a pé para seu trabalho descobriu o senhor que adorava ver sua imagem nos olhos alheios, e depois, por circunstâncias, passou a fazer o exato contrário. Virou o corpo e assustou-se. A lama havia escorrido e os olhos do homem se pareciam com os dos peixes quando são capturados, jogados nos fossos de navios, e permanecem lá, olhando para lugar algum.
As cores douradas do novo dia faziam seus olhos ainda mais parecidos com os de um peixe. A polícia chegou e constatou a morte. O homem que gostava de frequentar festas sofisticadas e de enxergar-se nos olhos alheios acabou.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
