Em nome do Filho: Lewis Medeiros Custódio

Ilustração: Alexandra Petropoulou


Acorrentado a uma coluna numa velha cave de um mosteiro. Talvez se indaguem como fiquei eu nesta situação nada aprazível. Eu estaria curioso. Vou contar tudo do princípio.

Estava eu no meu escritório no Vaticano, rodeado de veludo e caviar, acompanhado por duas pecadoras que eu arduamente absolvia, quando recebi uma carta lacrada. Aparentemente, um mosteiro andava a ficar «rebelde». A princípio, não liguei muito. Tratei sempre de todos os casos com exímio profissionalismo. Não há queixa de crianças que eu não faça desaparecer, não há governo ou — pior — estação de televisão que eu não cale. E tudo desaparece sem que o mundo sequer saiba o meu nome. Ou melhor, quem realmente importa sabe-o bem e o peso que ele tem; mas apenas esses. Como poderia então eu estar preocupado com um mosteiro insignificante? Um desperdício dos meus vastos talentos que tanto ajudam a Santa Madre Igreja nas verdadeiras horas de provação. Mas a carta tinha o selo do meu superior — o «Papa Negro». Não há guerra, crise ou santo que ascenda aos céus sem a sua aprovação. Estava eu, portanto, obrigado a investigar. Ter a minha posição tem as suas vantagens. Não tenho de esperar nos aeroportos ao pé de pessoas imundas que comem com as mãos. E muito menos tenho de me sentar nos aviões ao lado de ressonadores obesos suados ou de bebés que em muito se assemelham às sirenes de ataque aéreo da II Guerra Mundial. Cumprindo a divina vontade do nosso Salvador, eu viajo em avião privado.

Chegado ao mosteiro, escolhi a identidade mais adequada ao caso: cardeal Ronaldo Jeremias. Uma das muitas identidades que guardo na carteira para me poder mover livremente sem que reparem em mim. Fui recebido à porta por um monge. Ao contrário do que eu esperava, não se importou minimamente com o porquê da minha visita. Convidou-me a esperar no jardim pelo prior. Assim fiz. Reparei que os monges andavam em cima das freiras e que as freiras andavam atrás dos monges, tudo com muito vinho e muita comida. Bom, não era o que esperava, mas o que me interessava era o livro das contas.

O prior não demorou muito. Veio com uma garrafa de vinho na mão.

— Boa tarde! Estava à sua espera.
— À minha espera? Tem a certeza?
— Claro. Há já algum tempo, aliás. Esteja à vontade. Aqui dentro estamos todos à vontade.
— Já reparei que tem uma abordagem… sui generis à vida clerical.
Inter arma silent leges.
— Perdão?
— Estamos em guerra, há que manter os soldados com a moral elevada, dar-lhes liberdade. É importante ser livre, especialmente durante a guerra.
— Qual guerra?
— Entre o Bem e o Mal, claro.

E pronto. Volta e meia aparecia um destes maluquinhos fanáticos. Fiz o que faço sempre: acenei com a cabeça e perguntei onde era a casa-de-banho. Queria deixar isto despachado o mais depressa possível.

— Vire ali à direita e vai encontrar o que procura — respondeu o prior. Começou a sorrir. E depois a rir sem tirar os olhos de mim. Que raio de vinho bebem aqui? Fugi daquele homem estranho.

Segui em frente e virei à direita como instruído, de modo a não levantar suspeitas. Surpreso fiquei eu ao não ver a casa-de-banho mas sim o escritório do abade onde estariam as contas. Era, de facto, o que procurava. Senti um calafrio na espinha e a sensação de que me observavam. Olhei para trás — nada. Entrei no escritório já preparado para uma longa busca pelo livro, mas ele já estava em cima da secretária, aberto na parte das contas. Estranho… mas menos trabalho. Tudo parecia em ordem. Demasiado em ordem. Aliás, este mosteiro só dava lucro ao Vaticano. Peguei no telefone e liguei ao meu superior.

— Santíssimo, estou no mosteiro que me mandaste investigar. 
— Mosteiro? Qual mosteiro? Não te enviei ordem nenhuma.

Engoli em seco. Dei-lhe a minha localização exacta e o protocolo «Sanctus» foi activado pelo próprio «Papa Negro». Os altos membros do santo clero nunca deixam pontas por atar, e por isso existe o protocolo. Dentro de poucos minutos, homens santos  que, como eu, preservam o bom-nome dos que rezam por nós viriam armados tratar de tudo. Os monges seriam recolocados, eu voltaria para casa… e quem preparou isto iria ver o que é o inferno.

Fotografei tudo e preparava-me para sair do escritório quando o prior abriu a porta.

— Encontrou o que procurava, Monsenhor Antonetti?
— Como… como sabes o meu nome?
— Estás entre amigos aqui. Relaxa.

Tentei sair do escritório, mas o prior estava em muito melhor forma do que aparentava. Empurrou-me com uma mão e eu fui parar ao outro lado da divisão. A pistola que sempre trago religiosamente dentro da Bíblia voou pelo ar.

— Parvo — disse eu a cuspir sangue — tu não fazes ideia de com quem te meteste!

Numa situação normal, o soco que dei no prior ter-lhe-ia partido os dentes e deixado no chão sem sentidos, mas parecia que eu tinha batido num muro de cimento. Ele riu-se e os seus olhos ficaram vermelhos. Deu-me outro empurrão e caí. Foi aí que vi o reflexo dele no espelho. Cornos saíam da sua fronte, asas demoníacas nas suas costas, a pele queimada e a fumegar, o rosto do Filho do Mal! Engasguei-me. Senti as calças humedecerem. Procurei por um crucifixo em todos os bolsos, mas há muito que deixara de usar o meu. Improvisei e fiz um com os dedos.

Vade retro, Satana! — gritei-lhe — Filius Dei indignus!

Ele beijou-me na boca. Senti a língua gelatinosa da Besta. Não era de todo a reacção que esperava. Por segundos o meu corpo ferveu. Depois senti-me a relaxar como nunca tinha feito. E tudo fez sentido.

Os outros monges e as freiras entraram e riram em festa.  Abraçaram-me todos um por um e, dançando, mostraram-me o caminho até à cave. Bebemos do vinho e comemos. Entre risos e festa, amarraram-me aqui — desconfortável, sim, mas estou exactamente onde devia estar. Em breve estará aqui toda a força do Vaticano para me levar de volta. Para nos levar. E assim o mundo todo ficará livre.
Ámen.



Lewis Medeiros Custódio nasceu na paradisíaca ilha de São Miguel, nos Açores, foi aluno do Conservatório de Ponta Delgada, onde aprendeu piano. É licenciado em Línguas Modernas e mestre em Ensino pela Faculdade de Letras daUniversidade de Coimbra, além de ser judoca e guitarrista. Desde cedo, desenvolveu uma paixão pelo terror e pelo macabro, mergulhando nas obras de Edgar Allan Poe, H. P. Lovecraft e Stephen King.

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