Coluna Luís Palma Gomes: O Andorinhão

Ilustração: Imagem criada por IA


Do cimo do ninho, o andorinhão espreita a colina que varre a cidade ao encontro do horizonte. A distância entre ele e o chão impressiona-o. Teme levantar voo, o primeiro voo. Cerra os olhos e o perigo desaparece logo. As pálpebras brancas corridas como persianas lembram o olhar de um cego.
 
O sol abre uma clareira entre as nuvens. O pássaro sente a nova intensidade da luz e  descerra as pálpebras. Tem uns olhos negros, enormes e globulares. São desproporcionais relativamente ao resto da cabeça. Em redor um bando da sua espécie cruza o ar, emitindo guinchos. Assim de repente, parece que o convidam para a vida. Ele não reage, porém. Há na sua perceção um abismo que ganha forma debaixo dele. O que para nós, humanos, pareceria uma visão aterrorizante, para uma ave que pode voar onze meses seguidos sem pousar, aquele buraco enorme é um convite para uma possibilidade fantástica.
 
As patas desta espécie são atrofiadas, devido a pouco serem usadas. Por isso, o juvenil arrasta-se como pode até à borda do ninho; deixa-se cair; abre as suas asas estreitas, mas longas e fortes como um caça de guerra construído em titânio. A vida dele é a partir de agora uma batalha  absolutamente aérea.
 
O abismo que parecia um lugar inóspito, ajuda-o a acelerar o voo. Parece que já voava antes de sair do ovo. Uns metros antes de embater no alcatrão da avenida, inverte o sentido voo em direção ao céu, aceitando a dádiva que lhe foi concedida. Agora sim, voa com uma competência impressionante para uma ave acabada de sair do berço. O céu ganhou mais um anjo de plumas cinzentas.


Lisboa, 23 de maio de 2026



Luís Palma Gomes nasceu em Lisboa, em 1967, e cresceu na periferia, em Queluz — entre linhas de comboio, pequenos quintais e o rumor longínquo da cidade. Engenheiro informático de formação, é hoje professor de Informática no ensino secundário. A escrita, porém, sempre lhe correu em paralelo, como um rio subterrâneo. Começou a publicar nos anos 90 no suplemento DN Jovem, onde os primeiros poemas encontraram lugar. Poeta do intervalo e da fricção, escreve a partir do quotidiano, da contemplação das pequenas coisas, dos gestos que passam despercebidos.  Publicou Fronteira em 2022, e O Cálculo das Improbabilidades em 2025, onde aprofunda uma linguagem feita de tensão entre o visível e o indizível, entre a matéria e o símbolo, entre a casa e o mundo. É também autor de peças de teatro, como A Moura e O Último Castro Antes de Roma, onde a memória histórica se cruza com as inquietações humanas. Escreve e ensina jovens, porque precisa de ver crescer alguma coisa — nem que seja uma imagem, uma ideia, uma manhã, uma vontade. Não tem medo da água fria do mar.

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