Há quem diga, não sem razão, que muito do que se faz e publica hoje como poesia mais parece prosa, talvez pela percepção de prevalecer, nesses textos (algumas vezes compostos em linha corrente, em vez dos habituais versos livres), a enunciação do pensamento e, não, a musicalidade ou a qualidade imagética. É verdade que se prevê, em poética, a modalidade da “logopeia” (caracterizada pela “dança do intelecto entre as palavras”), uma das três identificadas por Ezra Pound em sua tipologia de poemas, sendo as demais a “melopeia” (em que predomina a musicalidade) e a “fanopeia” (em que predominam as imagens); contudo, mesmo os poemas que contam histórias podem não prescindir de aspectos associados à música, como o ritmo e a melodia – a épica de Homero que o diga. Se, por um lado, o que se propõe como poesia pode se afastar de aspectos perceptíveis pelos sentidos e se restringir ao relato de “conteúdos”, por vezes de modo “fácil” visando à apreensão imediata de significados, a prosa pode aproximar-se de qualidades reconhecíveis do poético, como o ritmo e a sonoridade, podendo até insinuar a entoação melódica.
Em princípio, o ritmo – identificado por muitos como o fundamento de toda poesia – existe, sim, na prosa (que lemos, como observa Pound, “pelo interesse do assunto”), mas de modo diverso dos versos, sendo próprio dela o ritmo do pensamento, ligado ao engendramento de significados e à sintaxe das frases. Na poesia o ritmo se daria pela sucessão de sons e intensidades que apela aos ouvidos, sem falar na atuação rítmica de aspectos visuais, no caso de obras que os exploram.
Mas tratando-se de poesia emergente da prosa, creio ser interessante relembrar que, em 2010, um dos livros que publicamos pelo museu Casa Guilherme de Almeida foi Poética de “Os Sertões”, contendo dois estudos críticos que buscaram desvelar a poética da prosa de Euclydes da Cunha: “Transertões” (1996), de Augusto de Campos, e “A poesia d’Os sertões”, de Guilherme de Almeida (1946), resultantes, como está dito na quarta-capa do volume, de “leituras capazes de revelar, de modo preciso e acurado, a poesia presente numa prosa que notoriamente transcende os limites da mera narrativa”.
Assim se iniciava a Apresentação que escrevi, então, para o livro: “Certa vez, durante uma palestra, o letrista e tradutor Carlos Rennó afirmou que, após ler o estudo ‘Transertões’, de Augusto de Campos – em que muitos ‘versos’ decassílabos e dodecassílabos são identificados na prosa de Euclydes da Cunha –, passou a buscar e a encontrar, um tanto compulsivamente, ‘versos’ com tais medidas em todo e qualquer texto, mesmo em artigos de jornal.” E, mais adiante, pode-se ler o seguinte: “A leitura sempre irá ao encontro do que pode ser revelado; o desvelamento de uma organização estética do discurso é um caminho de duas mãos: para que sobreviva a uma leitura, mesmo que esta busque ver e criar o que não há, é preciso que se encontre sustentação objetiva à procura. Mas pouca importância terá, creio, o fato de determinados achados serem ou não frutos da intencionalidade do autor do texto investigado: o processo de revelação será sempre coautoria, e o que se encontra não valerá menos se não decorrer da plena consciência de quem o produziu”.
Nesse processo de busca do poético na prosa euclidiana, Augusto registra, por exemplo, o “dístico dodecassilábico que desponta já no primeiro capítulo, ‘A Terra’, prestigiado em parágrafo autônomo”:
Sobre o solo, que os amarílis atapetam,
ressurge triunfalmente a flora tropical.
E, também, o decassílabo a fealdade típica dos fracos, além do alexandrino estrídulo tropel de cascos sobre pedras, entre tantos outros em que se pode perceber flagrantemente o metro e o ritmo, bem como a tessitura sonora e, não raramente, a nítida associação entre som e sentido, como no caso do último verso citado.
Guilherme de Almeida, por sua vez, identificara, por exemplo, o decassílabo num ondear longínquo de chapadas, que qualificou como “de mestre”, bem como – em meio a muitos outros – “um decassílabo e um alexandrino seguidos, imediatamente”, que descrevem a “Terra Ignota”:
o rabisco de um rio problemático
ou idealização de uma corda de serras…
No volume em questão incluíram-se, ainda, treze “poemas” obtidos por Augusto de Campos “a partir do texto de Euclides”; vejamos um deles:
OS CRENTES
Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta…
O “poema” termina, como se pode ver, com um cadenciado decassílabo heroico, em ritmo binário ascendente. Também figura entre os “poemas” o incluído na capa do livro, concebida pelo poeta:

Em iniciativa análoga, porém com objeto de teor bastante distinto, ocorreu-me fazer um exercício poético a partir de breves excertos traduzidos, com liberdade de escolha vocabular e de ajustes nas frases, da prosa de Miguel de Cervantes (1547-1616) em Dom Quixote. Parti da percepção do ritmo e dos efeitos sonoros – notadamente pela repetição de palavras – que surgem no original cervantino, para colher trechos, entre tantos outros possíveis, cujos temas me pareceram sugestivos e capazes (juntamente com a possível leitura métrico-rítmica) de motivar uma aventura de reescrita como essa, modestamente empreendida.
Resultaram estes quatro “poemas” (experiências iniciais de um conjunto que pretendo desenvolver): o primeiro, na voz de Sancho Pança, alterna versos heptassílabos e eneassílabos; o segundo, que inicia a série de três na voz de Dom Quixote, é feito em decassílabos com tônicas em posições variadas, mas em sua maioria heroicos; o terceiro combina versos de quatro, seis, oito e dez sílabas; o quarto é composto de dodecassílabos.
O terceiro, por sinal, integra uma composição por mim vocalizada no álbum Entoações do Aedo, recém-lançado nas plataformas digitais: trata-se da faixa 11, “Instabilidade – montagem”, que reúne trechos de fontes diversas. O álbum, diga-se, pode ser acessado por meio dos links:
https://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_keoBCm_qCxtsao5W6CCkT_FTn3MVSBbRk https://open.spotify.com/search/entoa%C3%A7%C3%B5es%20do%20aedo
https://tidal.com/album/524548638

EXERCÍCIOS CERVANTINOS
Sancho Pança
Para dizer a verdade,
muito melhor saboreio
o que sozinho como num canto,
sem melindres, cerimônias,
mesmo que seja pão e cebola,
do que os perus de outras mesas
onde me seja forçoso
mastigar devagar, beber pouco
e limpar-me com frequência,
não espirrar nem tossir
se tiver vontade, nem fazer
mais coisas que a solidão
e a liberdade me trazem.
Dom Quixote (1)
Feliz época e séculos felizes
aqueles aos quais os antigos deram
o nome de dourados: não é que
o ouro fosse alcançado neles sem
cansaço, mas porque aqueles que então
viviam não sabiam destas duas
palavras, teu e meu. Naquela época
santa tudo o que havia era comum:
a ninguém era necessário, para
seu sustento diário, fazer outra
coisa além de erguer a mão e alcançar
as fortes árvores com doces frutos.
As claras fontes e os rios correntes,
em magnífica abundância, lhes davam
águas saborosas e transparentes.
Em meio às rochas e no oco das árvores,
as abelhas formavam sua república,
ofertando a qualquer mão a colheita
de seu doce trabalho, e os bons sobreiros
desprendiam de si suas largas cascas,
com que se podiam cobrir as casas,
sustentadas em rústicas estacas,
só para a defesa das inclemências
do céu: tudo era paz, amor, concórdia.

Dom Quixote (2)
É certo que
quando o curso dos astros traz desgraças,
que vêm do alto ao baixo,
caindo com violência e fúria,
não há força na terra que as detenha,
nem há engenho humano que as refreie.
Dom Quixote (3)
Não há provérbio que não seja verdadeiro,
pois todos são sentenças tiradas da própria
experiência, mãe de todas as ciências;
e especialmente o é aquele que nos diz:
“Se uma porta se fecha, há outra que se abre”.

Marcelo Tápia é poeta, ensaísta, tradutor e professor. Graduou-se em Letras (Português e Grego) pela FFLCH-USP, onde se doutorou em Teoria Literária e Literatura Comparada e realizou pós-doutorado em Letras Clássicas, além de atuar como professor do Programa de Pós-Graduação em Letras Estrangeiras e Tradução (LETRA). Dirigiu a Rede de Museus-Casas Literários do Governo do Estado de São Paulo. É autor dos livros Refusões – poesia 2017-1982 (Perspectiva, 2017), Nékuia – um diálogo com os mortos (Perspectiva, 2021) e Ascensões e descensos — poesia 2021-2024 (Madamu), entre outros.