
Eu. Dia.
O naufrágio não aconteceu de verdade. As ondas eram feitas de cobertores.
Preguiça. Esticar braços e pernas.
O gelado da lajota, chinelos.
Acender a luz, olhos incomodados.
Espelho? Não.
A manhã em sua infância.
Vapores sonoros do dia. O sapato abafado pelo tapete. O café molhando a xícara.
O verde da grama transformado em asfalto cinzento.
O ribeirão de carros desaguando em um mar de luzes vermelhas e fumaça.
O tempo remando contra a maré de vontades. As rádios vendendo alegrias.
Buzina. Panfleto. Motocicletas. Placas: Compre aqui. Seja prudente. Calor.
O tédio nos espelhos retrovisores.
O que separa os carros é a cidade. Mistura de concreto, memória e desejo.
Ela borrifa sobre cada habitante seu extrato de cotidiano.
O que faz com que adormeçam em momentos indevidos e alegrem-se no por do sol.
Também transforma o gosto da comida repetitiva em agradável.
Bocejo. O mar avança. Carros e motocicletas ansiosos por seus destinos individuais.
O outro é apenas um obstáculo que atrapalha a realização de seu desejo.
O nervosismo é conduzido pelo vento e inalado pelos motoristas.
Há mais uma substância flutuando pelos ares e invadindo janelas de motoristas.
É inodora, insípida, mas responsável pelas primeiras alegrias da manhã.
A inabalável certeza de que o novo dia trará consigo uma surpresa agradável.
O canino direito exposto.
Olhos atentos aos óculos escuros fêmea passando ao lado.
Acelera sua virilidade, desvia dois para-choques, a velocidade desenrola a cidade.
Compete com capacetes pela primazia da curva.
A buzina alheia informa-o que venceu.
Distorce um volante que demonstra seus limites. O grito azedo dos pneus.
Descobre o sol tentando refletir no capô marrom.
“Blue skies, nothing but blue skies…” aumenta o volume, baixa o vidro.
Uma mão no volante, a outra cofiando a barba por fazer.
Os olhos encontram-se no retrovisor. O açúcar da velocidade espalhado pelo sangue.
Grandes prédios espelhados espalhando reflexos. Tiros de imagens.
O horizonte pedindo para acontecer sob os pneus.
As vibrações da vida transformadas em carroceria agitada pelas imperfeições da pista.
Lábios e língua lutando por espaço. Indicador encostando na base do polegar.
Freada forte, deslizando nas marcas escuras de borracha. Ódio fraco, pressa.
Luz verde: liberdade, desvia dois carros, o início da grande estrada.
Acelera tudo que pode, braço esquerdo pendurado para fora.
O ponteiro renasce até a posição vertical, depois vai lentamente baixando.
A primeira curva inclina o carro até o limite do capotamento.
Na reta o ponteiro treme, indicando seu limite de forças.
O bem estar faz com que feche os olhos por dois segundos.
Ultrapassa todos, saltando da esquerda para a direita.
Uma grande descida aumenta a velocidade, o ponteiro encosta no pino limitador.
Ele sorri. Desliga o rádio para ouvir o barulho do motor.
A sinfonia é interrompida por uma redução de marcha. Freia.
Do acostamento vê passarem todos os carros que ultrapassou.
Desliga o motor. Mantém as mãos no volante. A testa pontilhada de suores.
O para-brisa de garoa. O silêncio é rasgado pelo som de asfalto molhado.
A respiração arfante acalma-se. Os vidros embaçados suavizam as formas.
Eu, assistindo-me como a um estranho. Reconhecendo-me em situação alheia a mim.
Não era ele quem acelerava. Era eu. Mas talvez ele achasse o mesmo.
Meus olhos tem o azul do céu, visto por alguém que está se afogando.
Os dentes são difíceis de serem reconhecidos. Sobras de uma máquina evolutiva.
A sombra negra espalha suas promessas de poços, que também são ameaças.
A cada passo o risco da queda. A imobilidade, certeza do abismo.
Rotina como tábua de salvação. Café da manhã, trabalho, sono.
Preciso limpar esses vidros. É perigoso parar no acostamento. Equilíbrio.
Ele liga o carro e entra pela contramão na mesma rodovia que o levou até ali.
Acelera sem considerar qualquer possibilidade de estar errado.
Luzes altas e buzinas fazem parte da paisagem.
O ruído opaco de um carro capotando. Prossegue. Cheio de si.
Acelerando rumo ao coração da cidade. Três luzes inúteis dos sinais de trânsito.
Por seu rosto escorre a aura refletida da máquina.
No branco leitoso dos olhos o mistério encravado.
Sobre a boca paira a certeza do beijo da amante.
No retrovisor as luzes do carro de polícia.
O caminhão fugitivo espalha a carga pela pista.
O motociclista derrama a vida no asfalto.
O helicóptero transmite a trama ao vivo.
Pela televisão, eles, os outros, assistem quando o carro invade a igreja barroca.
Em alta velocidade passou por cima dos bancos atingindo pessoas que rezavam.
Os gritos só foram se acalmando quando chegaram os bombeiros e a polícia.
Procuravam vítimas,encontraram duas velhas desacordadas.
O motorista do carro não parecia muito ferido, e de sua posição de motorista observa.
Repara na destruição das estátuas, das pinturas, do altar.
Ele não expressava sentimentos. Também não esperava que viessem retirá-lo do carro.
As equipes de televisão não demoraram a chegar.
Foi quando todos que estavam na igreja começaram a ouvir a palavra “mortos”.
Alguns gritos foram silenciados por mãos enluvadas conduzindo ombros para fora.
O acidente destruiu uma parede da igreja, a chuva entra em gotas respeitosas.
As câmeras multiplicam imagens encobrindo dores com tarjas vermelhas.
A cabeça de um santo jaz esquecida sob escombros.
A mil quilômetros de distância, eu, assisto a cena narrada por um repórter.
As luzes artificiais confundem restos de arte com blocos mortos de tijolos.
Percebo quando os bombeiros arrancam a porta do carro acidentado.
De dentro, cambaleante, sai, ele, um homem alheio a todo o resto.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
