Coluna Guido Viaro: Webinsomnia

Ilustração: Riccardo Americo Castino


A noite encerra todos que não quero ser. Temo cada gota de escuridão silenciosa. Nos pedaços de treva descubro espelhos. Antes de enxergar imagens mergulho nos abismos químicos dos soníferos e de repente, encontro-me na metade da manhã.                                                              
 
Depois de vários anos bebendo da mesma rotina azeda, descobri adoçantes. Toda noite mergulho fundo no mar digital e antes de me afogar, tento sair de lá carregando alguns peixes dourados. O que costuma acontecer é que antes de fisgá-los acabo encantado com algas marinhas ou enroscado em algum coral cinzento. O que faz que para cada belo poema ou paisagem, para cada nova descoberta da ciência ou realização artística eu consuma doses dez vezes maiores de piadas, vídeos de violência e pornográficos. Mas lá pelas duas e meia da manhã me bate um vazio atroz, tudo o que pesquisei, mesmo meus peixes dourados transformam-se em esqueletos fedorentos.                                                  
 
Esse vazio é tão poderoso que nem tristeza deixa entrar. Sou eu contra tudo o que existe. Sinto-me uma mosca esmagada. Depois disso é esperar o Stilnox fazer efeito, às vezes um, noutras um e meio. Nesses dias de um e meio, acordo quando o sol está a pino e a fome pede passagem. Almoço, e o que me sobra do dia é a tarde. Caminho até o centro da cidade. Chegando lá não tenho o que fazer. Bebo um café, depois outro, vago como barata tonta até o sol perder a força. Volto para casa de ônibus, inflado por um vácuo capaz de me fazer explodir. Tenho certeza que se fosse de natureza mais frágil teria escolhido um desses dias para pendurar-me na soleira de alguma porta importante.                                                         
 
Meu nome é Guido e sou aposentado pela Receita Federal, invalidez, puxo um pouco a perna. Levei um tiro durante uma inspeção de rotina, o empresário falido atirou em mim e depois na própria cabeça. Destruiu meu joelho. Um médico queria reconstruir a rótula, o outro tentou me vender um joelho de titânio. Fui dando tempo ao tempo, sinto alguma dor, que assim como vem vai embora.                                                              
 
Iniciei esse texto falando de medos e trevas, escuras realidades. Mas também tenho carinho pela noite, afinal, é só ela que aguenta alguém repetindo baixinho que a vida não vale a pena. Uso-a para descobrir tudo o que, pelo menos por alguns instantes, ainda não se tornou vazio. 
                                                                                                                           
As pequenas novidades são as colunas dóricas de minha vida. Descobri um site com centenas de webcams ao vivo, elas estão posicionadas nos lugares mais estranhos ou banais do planeta, como uma que mostra vinte e quatro horas por dia um ativo formigueiro na cidade de Albuquerque nos Estados Unidos. Há outras que monitoram interiores de fábricas, dia após dia você reconhece o mesmo trabalhador fazendo o velho serviço repetitivo. Há câmeras apontadas para pontos turísticos conhecidos, há outras posicionadas em estradas desertas ou no Polo Norte. Há uma instalada na parte traseira da cabeça de um homem, em desinteressantes estacionamentos, em portos, aeroportos, icebergues, navios, no rabo de focas e baleias, nos esgotos de Paris, em túmulos onde o espectador pode acompanhar em tempo real a decomposição dos corpos. Há câmeras em abatedouros, em florestas selvagens, há outras filmando o céu vinte e quatro horas por dia. Você pode assistir à guerra da Síria através de uma delas, ou a uma cremação à beira do rio Ganges.              
 
Eu elegi algumas câmeras como favoritas. A cada noite dava uma passeada por esses lugares distantes. Mesmo informado pelos dispositivos da tela sobre o horário de cada local e sua exata localização, havia algo de irreal naquelas imagens. Nunca aceitei de verdade o fato de que enquanto o Brasil dorme, há chineses palitando os dentes após o almoço. Quando esses choques violentos transformavam o que vivia em pontadas de sonho, optava por uma câmera que mostrasse o nascer do sol sobre o Canal de Suez. Uma continuação mais aceitável da noite que espiava através de minha janela.
                                                                                                                   
Começava minha viagem diária pelo formigueiro americano. Fascinava-me a determinação. Talvez perturbadas pela luz artificial, as formigas lutavam obstinadamente por seus destinos. Fundidos em um. A comunidade era missão, religião e existência. Invejava-as pelo fato de eu nunca haver pertencido a missões ou religiões, e de sentir o esgarçamento das cordas de minha existência. Abandonei essa câmera no dia em que o formigueiro foi inundado por um jato de urina.                                                                
 
Tinha especial predileção por câmeras que mostrassem a Europa na alta madrugada, mas antes de qualquer sinal da chegada do novo dia. Passeava por pequenas cidades suíças, capitais do leste europeu, ruas vazias, alguns prédios barrocos guardando o sono daqueles que em três horas colocariam o mundo para funcionar. As ruas muitas vezes cobertas por neve, relativamente escuras, com seus neons avermelhados anunciando produtos que poderiam ser comprados em qualquer canto do mundo. Aquela solidão parecia diminuir a minha. O sol nascendo apunhalava minha sensação de bem-estar.                                                            
 
Em uma fábrica no Canadá a câmera estava instalada em uma pequena sala onde trabalhava apenas um homem. Ele separava dois tipos de chapas metálicas durante oito horas. Assim como as formigas, era muito eficiente. No meio da madrugada gostava de sair para fumar um cigarro e beber uns goles de cerveja, mas meia hora depois parecia ainda mais produtivo do que antes da parada.                                                                              
 
Atravessei continentes para descobri-los parecidos. Em uma câmera de alta definição no centro de Tóquio, encontrei fisionomias dissipadas de suas certezas. O sol forte imprimia sombras duras no asfalto cinza. Os homens e mulheres, assim como as formigas, mas ao contrário delas, eram impulsionados em conjunto, mas o combustível que fazia a máquina viver chamava-se dúvida. Atados a suas individualidades, titubeavam diante da força coletiva, e ainda mais diante de uma outra, desconhecida, que parecia não fazer nenhum sentido, mas que segundo li naqueles rostos, e também no meu todas as manhãs, é a força mais poderosa da humanidade. E assim o é porque duvida de todos nossos poderes, imanentes ou adquiridos.                                                                                          
A suspeita de que tudo pode não passar de uma interminável perda de tempo, faz com que aceitemos o que poderia ser questionado. Finalmente sobram poucos homens que, após uma bela noite de sono e no momento em que espalham espuma de barba no rosto, são flechados por uma pergunta que se repete todas as manhãs: Qual o sentido de tudo? Vivemos e produzimos vida por inércia, por isso perdemos grande parte de nossa capacidade investigativa. Mas assim como na produção de pães ou macarrão sempre há sobras, sobram alguns homens que perguntam: Fomos postos nesse mundo sem possibilidade de recusar essa oferta, constatado isso, o que devemos fazer com essa capacidade? Destruí-la? Combatê-la? Aceitá-la, fingindo não saber que as coisas poderiam ser de maneira diferente?                                                                                             
 
As câmeras também precisam de respostas, vou monitorá-las diariamente com qual objetivo? Suprir meu vazio? Imaginar o vazio dos outros? Encontrar um lugar onde as pessoas sintam menos vazio?                                
 
Uma semana atrás descobri uma estranha webcâmera instalada na cidade italiana de Salerno. A imagem focalizada era a da tela de um computador com algumas palavras escritas. A cada dia elas cresciam em número. Com meus parvos conhecimentos do idioma italiano e com o auxílio de um dicionário, arrisquei-me em uma tradução:                         
 
“Não vivo. Sou apenas restos de esperanças alheias. Pequenas esperanças ausentes de glórias. E aos outros, também eu dedico minhas expectativas mesquinhas. Sobre nosso tempo minúsculo flutuam sonhos empapados em tédio. Como plumas esquecidas no riacho de dejetos, em cujas águas cinzentas refletem-se torres espelhadas, erguemo-nos, monumentos egóicos que não conseguem descobrir se são esgoto, arranha-céu ou pluma.

O homem moderno não saiu das cavernas, desenha seus objetos de desejo nas paredes líquidas do cristal. Depois projeta nas sombras ocas da tecnologia o habitante puído do futuro. É náufrago fluvial de correntezas milenares, engrossadas com o denso caldo vermelho, somado  ao grito ossudo dos profetas e ao peso do egoísmo. E assim, sem assenhorar-se de seu destino, o homem será carregado para futuros muito distantes. Um dia o lodaçal sangrento desaguará no mar e ferirá mortalmente o oceano. Mas ele não morrerá, e aos poucos recobrará a cor azulada da saúde. Os profetas que antes tinham vozes ossudas serão transformados apenas em ossos.                             
                                                                                                                
O homem, que sempre foi carregado por forças alheias, antes de ser atirado ao mar ficará atolado em uma réstia de areia. Chegará lá semi-morto, sem pulsações morais, terá olhos estanhados, que não conseguirão distinguir entre um côco e uma lua cheia.
 
Em poucas horas as ondas arrastarão seu corpo inerte para o fundo do oceano e o homem passará a ser o que sempre foi: morto, vivo. Mas há uma possibilidade que poderá mudar o rumo da evolução humana, elevar padrões éticos e espirituais, criar homens imunes a alegrias ou pavores. Criaturas que concebam suas próprias vidas e incluam dentro delas a vida de todos os outros homens, dos animais, plantas, planetas, mistérios indecifráveis, dos contrários de suas mais aferradas convicções. Homens que carregarão dentro de si toda a humanidade, suas crenças e faltas de esperanças.
 
Para que isso aconteça, é preciso que o homem inconsciente da praia, recobre sua consciência e desista de deixar-se levar por forças alheias às suas. O primeiro passo é ficar de pé, depois deverá inteirar-se daquilo que está ao seu redor, mar, céu, praia, nuvens, árvores. Então deve caminhar para que as ideias possam fluir. Se encerrado seu passeio, ainda não tiver chegado a nenhuma conclusão, esse será um dos bons homens. Deve atrair outros como ele para a beira do mar, construir casas por lá, e apenas permitir que a tão prostituída palavra: felicidade, tenha algumas oportunidades de convivência com o gênero humano. Depois disso o homem poderá reproduzir-se à vontade, para depois, orgulhosamente, deixar de existir.” 
 
Depois disso ninguém escreveu mais nada, a câmera continua focalizada na tela do computador, mas nas poucas vezes em que o encontrei ligado, alguém navegava em águas rasas pela internet. Até que desisti, assim como fiz com o formigueiro, com o trabalhador canadense, cada noite desisto de uma nova câmera, por mais interessante que seja. Muitas delas reaparecem em sonhos, às vezes três ou quatro delas estão dentro de meu quarto, e tudo o que filmam transforma-se nos objetos que elas costumavam filmar quando estava acordado. 
                                                        
Faz um mês comprei uma câmera para usar na segurança da casa, decidi colocá-la no meu quarto. Funcionou e logo inscrevi a câmera  em um site de voyeurs. Comprei mais seis câmeras e espalhei-as por todos os comodos da casa, inclusive o banheiro. Meu objetivo, não é ganhar dinheiro exibindo meu corpo, acho que muita pouca gente iria se interessar. Só quero que algumas pessoas, nem que seja apenas uma, conheça minha minúscula rotina, perceba que não há qualquer heroísmo em qualquer de meus atos. Sou um homem perfeitamente medíocre. O mundo é feito para campeões. Por issso sou frustrado, como todos os outros.
                                                                                                                                       
Agora que passei de consumidor a produtor de conteúdos, e posso dizer com todas as letras “NÃO TENHO MAIS NADA A TEMER”, pensei em usar a criatividade para montar um programa diferente. Em poucos dias dominei completamente a parte técnica. Tenho um monitor onde posso ver as mensagens dos eventuais assinantes. Não tenho a menor ideia de  quem serão, de onde virão, que idade terão, que tipo de coisa me  pedirão. Eles pagam um dólar por minuto. Se eu fizer isso durante umas oito ou dez horas por semana dará para ganhar um salário bastante razoável. Mas não estou nessa pelo dinheiro, faria mesmo de graça. O que me interessa é a perversão em si, como funciona, até onde vai. Amanhã vou ligar a câmera e a tela. 
                                                                                          
A noite transcorreu ansiosa, eu estava um pouco nervoso, mas comi bastante e tomei dois grandes copos de uísque cheios até a boca. Depois fui para o quarto liguei a câmera principal e surpreendi-me, pois já havia chamadas. Desliguei imediatamente a televisão. Ainda não estava preparado para encarar desconhecidos vindos de não sei onde. Mas não queria abandonar o projeto. Em dois dias estaria pronto para ser esquartejado por adolescentes que moram a sete mil quilômetros de distância, e que enquanto andam de skate e fumam seus baseados gastam alguns tostões para verem um velho de outra parte do mundo defecando ou tomando banho.
                                                                                                                  
O mundo funciona assim, e eu, um homem medíocre, não desejo combater sua força, o que quero é fazer parte dela. Liguei a câmera e a tela onde posso ler os pedidos. Eles começam a saltar como pipocas dentro da panela. “Acenda um cigarro e o fume.” “Deite-se em sua cama, trance os dedos sobre o ventre e se finja de morto.” “Mostre-me seus discos… agora me deixe escolher um… pode ser Alberta Hunter em Berlin -1982… agora tire suas roupas e dance para mim, vire sua bunda nadireção da câmera e rebole o máximo que puder… isso está indo muitobem, abra suas nádegas e deixe-me ver seu cu.”
 
No dia seguinte um morador da Moldávia me pediu para que eu apenas vivesse, assistisse televisão, deita-se para descansar, levasse minha rotina normal. Ele pagaria para assistí-la. Na hora do almoço ele fez questão de que eu aproximasse a câmera da geladeira, viu que eu tinha bastante comida guardada. Pediu para que retirasse todos os pratos da geladeira e os colocasse na mesa. Foi o que fiz. Então me pediu para que comesse tudo o que estava ali. Respondi que era impossível. Pediu então que eu comesse até onde aguentasse, mas que tentasse muito ultrapassar as dores e mal-estares, garantiu que eu seria premiado com um bônus de cinquenta dólares. Devorei um prato de arroz e um de feijão, a salada desceu com dificuldade, mas havia ainda um prato de maionese caseira e outro de carne de panela. Comecei pela maionese, quando estava na metade senti que iria vomitar, respirei fundo, pensei na resolução de problemas matemáticos e aos poucos a ânsia foi diminuindo. Tomei bastante água e desliguei a tela por alguns minutos. Quando voltei a ligá-la o mesmo homem da Moldávia insitia para que eu terminasse as comidas que estavam em cima da mesa, dobraria o bônus para cem dólares.   
                                                                                                                                  
Eu disse que não aguentava mais, aquele era o meu limite. Então ele me ofereceu duzentos dólares por um pouquinho de arroz com feijão preto. Aceitei, mas sabia que iria vomitar, e foi o que aconteceu. Quando voltei do banheiro o Moldavo havia escrito:
 
“AAAAAAALLLLLLLEEEEEELLLLLUUUIIIAAAHHHH”, e deixado os códigos referentes às minhas premiações. Cada uma dessas chamadas tinha um custo emocional elevadíssimo. Duas horas por dia era o limite suportável. Depois que desliguei as câmeras, nunca mais fui o mesmo. Enquanto fumava um cigarro olhando pela janela o movimento das ruas, senti-me como as sobras de lixo esquecidas pelos lixeiros. Aos poucos fui sendo tomado por uma sensação que desde a adolescência me incomoda, funciona assim: uns meses me perturbando, depois dois anos e meio livre. Ela estava de volta: nesses dias nada vale a pena, nem ser feliz vale a pena, nenhuma pessoa, nenhuma crença, nem amores, nem filhos, nem orgulhos por obras realizadas, nada disso merece existir. Janelas, carros, nuvens, Deus, bancas de revista, mulheres bonitas, grandes fortunas, amor, ódio, poder, nada disso possui direito à existência. Nem mesmo minha vida possui direito de existir. Mas o suicídio, também ele não vale a pena.
                                                                                                                               
Sinto-me dentro de uma grande sala sem sentido que abriga tudo o que existe, homens e mulheres, objetos, animais, tudo. Nessa sala não há nenhuma atividade. No escuro, cada ser se entreolha sem nunca dizer nada. Essa disciplina dura enquanto o medo não se instala dentro dos bilhões de seres vivos, desesperados por não poderem ser mais eles mesmos. A balbúrdia vence a paz medrosa, as paredes metálicas são rasgadas como folhas de papel, e as bestas, os homens transformados em tigres, os homens destruídos moralmente, as mulheres histéricas, os animais que perderam características e ganharam outras, serão jogados em uma selva concretada. Lá, voltamos para o presente, não há comida nem água, os mais fortes devoram os mais fracos e bebem seu sangue, depois os igualmente fortes lutam entre si e se matam. Sobre o país de cimento, restos de todos os tamanhos expelem odores insuportáveis. O sol de cinquenta graus levará alguns meses para transformar tudo em esqueletos brancos que serão varridos pelas marés. E fazer desaparecer os sinais de que naquele lugar aconteceu tamanho sofrimento.                                             
 
Mas sei que para mim, o melhor remédio quando chegam essas ondas imensas de melancolia é trancar-me no quarto, levar até comida para dentro, e ficar no escuro, procurando desviar o pensamento de coisas negativas. E depois de iniciada a primeira fase, sair um pouco, tentar conversar com algumas pessoas de quem que se gosta.                                    
 
Desci o elevador carregando o computador, a tela que o acompanha e todas minhas câmeras de monitoramento, além do aparelho que distribui a imagem. Perguntei ao porteiro se ele não queria aquele material. Ele se interessou imediatamente e guardou-o em seu carro. Não me fez uma pergunta sobre porque queria me desvencilhar daquilo. Conversamos um pouco sobre futebol, tempo, mulheres, ele perguntou se eu não gostava de jogar baralho. Respondi que achava chato. Ele então me convidou para me unir a sua turma de sinuca, assim que terminasse o trabalho em meia hora, eles iriam jogar. Contrariado, disse que sim, mas depois percebi que aquela atividade poderia ajudar na defesa contra o mal que me aflijia.
                                                                                                                              
Jogamos oito partidas, perdi todas. Bebi quatro cervejas grandes e dois conhaques. Quando saí do salão senti que aqueles homens que acabara de conhecer eram meus amigos há duas décadas. O álcool torna as amizades mais fáceis, mesmo que elas se dissolvam junto com a ressaca. Mas o que importava era o instante, e naquele momento eu estava sendo extremamente feliz. Não me lembrava da visita dessa felicidade nos últimos vinte anos. Terminado o passeio, fui para casa e dormi como uma criança. Sonhos tão doces que foram todos esquecidos. Desci e encontrei o porteiro com quem normalmente só trocava duas palavras. Discutimos os jogos de ontem e ele me convidou a participar da turma, disse que os outros gostaram muito de mim.
                                              
A falta de sentido, pelo menos por ora, parecia ter ido embora, talvez tenha pousado em algum outro apartamento do prédio. Quando encontrei o porteiro novamente ele me convidou para um grupo que joga futebol às quintas-feiras da meia-noite às duas da manhã, são na maioria taxistas que passaram doze horas atrás do volante e que querem limpar a cabeça e o corpo antes de mergulharem em um sono profundo e provavelmente sem sonhos.  Apesar de meu problema de joelho aceitei na hora, para um insone como eu, talvez fosse a chance de colocar meu sono nos trilhos. O corpo fatigado desmaiaria sobre o colchão e as pílulas aos poucos iriam ficando de lado.                                                                                                      
 
Nos três primeiros minutos de partida descobri que o joelho era o menor dos impecílios. Os trinta últimos anos sem jogar bola eram o que afetavam minha capacidade. Sentei-me à beira do campo e pedi uma cerveja. Fiquei observando a partida, os jogadores tinham todos mais de quarenta anos, estavam fora de forma, mas mantinham-se aferrados ao jogo, que contava com empurrões, gritos e inícios de confusões apartados por outros, que alguns minutos depois começariam suas próprias brigas. Quando descobri que já passava de uma da manhã comecei a achar tudo aquilo ridículo. As luzes artificiais eram uma ilha verde no meio da cidade escura. Quatorze homens fracassados lutavam para colocar uma bola dentro de uma rede. Suados como porcos e vestidos como crianças gordas, talvez secretamente ambicionassem pelo infarto fulminante que encerraria a eterna espera por algum sentido.                                                                  
 
Paguei a cerveja e saí de fininho. Eu não precisava daquilo, nem daquilo nem da sinuca. Não precisava de câmeras, nem de internet, não precisava de mulheres nem de amigos. Nem de mim mesmo precisava.              
 
Estava dez quilômetros distante de casa, mesmo assim decidi ir a pé. A cidade dormia dentro de nuvens pesadas. O asfalto parecia úmido por alguma chuva que nem percebi. Meu coração estava seco, nada de alegrias ou tristezas. Caminhei por becos feios, descobri casas repetitivas, atravessei bairros onde as mansões não tinham nenhuma personalidade. Chegando perto de onde moro, vi pessoas dormindo nas ruas, não senti nada por elas. Quando cheguei em frente ao meu prédio estava suado, cansado. Passavam de duas e meia da manhã, o horário da chegada da angústia. Mas ela não veio. Tomei um banho, esqueci-me do remédio. Só fui acordar ao meio-dia.



Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.

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