
Sobre poemas ruins
Sou um homem sem palavra
vivo pedaços de liberdades
afetos que não publicam
pontos cegos na tarefa
da simplicidade
— não sei os nomes —
a palavra fala por mim
nunca começou
meu pecado a livrou da morte
lanternas nos apócrifos da carência
de quem me escolheu
a direção das luzes
preservam meu melhor escuro
sem crer nem estremecer
mas afinal nas impossíveis lonjuras
porções de extenuada beleza
cria de demiurgos
poemas difíceis
incorruptível palavra
um maior poeta vivo
constrói ritmos
numa prisão de versos livres
aquilo ou isso etc.
tréplicas truques muletas
o cansaço de um gênio
o fundo de um ser
(meu verbo não se mata porque dói)
/ nomes convertendo em nomes
e outras precárias fomes /
mentiras verdadeiras para se ter liberdade
poemas nunca vingados
homicídio culposo
aguarda a graça imerecida
por não me haver melhores palavras:
a boa vontade
um motivo
uma nova salvação
Depois das horas
É que só o que não se sabe é poesia
(Ferreira Gullar)
… o que não sei por companhia
eloquentes golpes de alvura
: tão tátil o pensamento —
não penso pensando
para meu uso
minhas distâncias me resgatam da fogueira
e contra essas coisas não há lei
enquanto dá o céu
aos homens e aos anjos
fins em si mesmos
vagueio verbos
que rendem mais
vida vivida quando procura canal
um relinchar um bater de asas
um circadiano de florestas sendo outras
localizações nos barulhos de ausências
o perdão sem dono
quando a poesia errou
sonhos vividos
e não sonhados
cortinas e não tijolos
guinchos e reboques
e o mais que assumo e não aduba
fecho a porta para estranhos
após o trânsito em julgado
camas esquecidas
(os enganos me divertem)
gritos nas mãos fechadas de suor
a adúltera em cascas de cigarras
nas ruínas de Babel
de posse dos musgos
levo os dedos às cócegas
no herege com suas bíblias
tenho preguiça de ver televisão
imagens submersas na saliva
experimentam a liturgia
de um neopassado
sem o ovo indez
— que a própria sinceridade perdoe
foro de ódio à estribilho primoroso
sêmen derramado pelo chão
— que me salvem outras surpresas:
o Nada para em gestos
além
aquém
basta não crer
sem desistir
sem se esforçar
o Nada não é nada
existe
em argueiros em provas de sucesso
as palavras já não o são
nas muitas moradas de seu hálito
poetastros se encantam
com toda sorte de verbos
em dia de vida
reincidentes na noite
diluídos em seu jogo
como liquidá-los com seu próprio auxílio?
debaixo do sol vivo de segredos
nunca me revelados
G. Monteiro é poeta, contista, ensaísta e um dos editores e colunistas do site Amaité Poesia & Cia. Editou, junto com o escritor João Pinto, o espaço virtual Contos entre Paisagens, de 2019 a 2023. Seus textos integram várias coletâneas e antologias através de concurso literário. Escreveu o livro de contos Paradeiro (2016), os de poesias Depois das horas (2021) e Gestos do nada (breve lançamento pela Editora Litteralux).
Respostas de 4
Entre o que se diz, o que se escreve e o que se sente, há algo além, que nasce, cresce e, se não exposto, sufoca. Aí comportam os versos de G. Monteiro, a necessidade de se levar pelos versos que desembocam na poesia ditada pela alma, inquieta e atenta, diante da realidade de um pensamento /sentimento.
Sempre muito bem acordada sua análise, Nairton Pessoa! Grato pela leitura e retorno de que precisamos.
Gosteida sua poesia, amigo.
Fico contente, feliz mesmo, Climério!