
Mas ainda há algo que eu quero contar, que é uma das boas lembranças que eu mais tenho. Sim, eu a quero de volta, essa lembrança. Eu a quero comigo para sempre. Um carinho enorme por ela. Por essa mulher a quem nunca mais vi.
Baile de formatura de um amigo, e a Marina, de nossa turma, viera com uma convidada, conterrânea de sua pequena cidade distante. Nós nos conhecemos, conversamos, dançamos juntos, nos atraímos. Ela era discreta, bem-educada, sorria pouco. Queixo pequeno, rosto triangular. Morena clara, cabelos negros, encaracolados, cheios, cobrindo a testa e os ombros, à moda de nossa juventude. Um vestido sóbrio, até os joelhos, sem sinais claros de sensualidade.
As horas passaram por nós, rolando sobre a música e os ruídos humanos. Ofereci à estrangeira levá-la à sua casa, que até o dia seguinte seria a república da Marina – ela não tinha as chaves, mas não me importavam detalhes assim, isso não era calculado enquanto acontecia. No fundo, o que eu não queria era deixá-la.
Pensava em beijá-la em algum momento, e não sabia como. Talvez não acontecesse. Mas já era muito agradável tê-la por perto, estar com ela. Eu pensava na noite lá fora e me esforçava por conter meus sonhos de adolescente tardio. Minha ansiedade masculina me denunciava. Tentava disfarçar o desejo que crescia em meu sangue, queria afastá-lo de mim. Queria que ela soubesse que eu podia ser o que quisesse ser, um homem determinado e consciente. Entre uma e outra palavra, entendi que era virgem. E por que não seria? Eu próprio havia perdido minha virgindade havia pouco tempo, de maneira constrangedora, com uma mulher mais experiente. Então eu lhe fiz uma proposta. E uma promessa. Ela concordou.
No motel, relaxamos e deixamos para trás todos os ruídos de um passado mínimo, como também as canções que nos aproximaram nas últimas horas, nos minutos que há pouco estavam ali, ao nosso redor, antes dessa última porta definindo o tempo.
Tirei os óculos, não me importava mais ser míope. Continuamos conversando, convenientes e cautelosos, agora sentados na cama, mais ou menos inclinados. Então, um beijo lento, tímido. Sem avanços. Próprio a dois estranhos em um acordo. Beijei seu pescoço, seu ombro. Um animal sedento dava sinais de assumir o controle. Mas ela delicadamente me lembrou do que eu havia prometido.
Era tarde dessa noite, dessa noite na penumbra. Minha parceira viajara durante o dia, estava exausta. Tirou os sapatos, deitou-se de lado. Seus cabelos quase cobriam todo o travesseiro baixo. Logo ela adormeceu. Eu também estava cansado. Tirei meus sapatos, deitei-me ao lado dela. Acariciei sua testa, sua fronte, um pouco de seus cabelos, seu queixo… – foi só assim que eu a toquei.
Percebi, emergindo de um sono breve e profundo, que estava amanhecendo. Eu retornava de uma noite de sonho. Vivia ainda um sonho estendido. O silêncio no motel era o de um reino adormecido. Dava para ouvir um trem, muito longe. Ela despertou, me fez um carinho. Foi ao banheiro, se arrumar. Ouvi o som de seu xixi. Fechei os olhos, feliz com essa impressão infantil de intimidade. Trocamos outro beijo, firme e carinhoso, abraçados ante a porta aberta. Ela me agradeceu por tudo. E eu lhe agradeci por nada – que esse nada me faria grato a ela por toda a vida.
Deixamos o motel, percorrendo a cidade ainda quieta, querendo ser manhã. Eu a deixei na frente da república da Marina – uma república modesta para abrigar uma princesa distinta.
Seu nome está protegido, ela toda está protegida em mim. Minha memória volta a ela e a uma canção que havíamos compartilhado no baile, com a delicadeza de seu corpo tocando o meu enquanto dançávamos.
Não houve sexo. Ela confiou em mim. Eu a respeitei. Foi uma noite de amor.
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agosto, A seta de Verena, Marcas de gentis predadores, Projeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedra, A conspiração dos felizes, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).
