
Aconteceu-me encontrá-lo por acaso, junto ao rio. Três garotos carregavam um saco que se mexia. Perguntei, e um deles afrouxou a abertura para que eu visse parte do dorso de um animal imundo e quase sem pelos. Iam jogá-lo no rio. Segurei o maior deles pelo braço: eu ficaria com o bicho. Estranharam-me, e outro explicou que era só um cachorro velho e sarnento. Insisti, não tinha importância. Mas eles vinham preparados para a execução, o saco vivo despencando da ponte, o maior deles contrariando-me categoricamente, até que eu também resistisse e fosse derrubado ao chão, para que saísse de seu caminho e deixasse de importuná-los. Atraquei-me com todos, um deles prendeu-me com força, dobrando meus braços para trás. Então vimos que surgia, pela trilha da margem, um homem empoeirado e ruinoso, com um galho seco à mão, que era seu simulacro de arma ou cetro.
“Moleques!”, bradava. “Vou acabar com vocês!”
Cesão Louco perambulava pela cidade, dormia à porta dos botecos e das igrejas, não mais que um inofensivo vagabundo, mas que aterrorizava as crianças com seu aspecto repugnante. Os meninos dispersaram.
“O Cesão Louco! Vambora, gente!”
“Moleques!”, ele ameaçava avançando com o galho em riste.
Na confusão, apossei-me do saco, corri em outra direção.
Meu avô trouxera um remédio para a sarna. Ajudava-me a dar banhos no Pateta e a fazê-lo comer, além de haver sugerido seu nome. Pateta era magricela e passivo, incapaz de morder alguém, mesmo se provocado. Meninos da vizinhança queriam saber a raça da malograda mascote. Eu inventara uma palavra que pronunciava com orgulho.
“Você é um mentiroso! Esse cachorro não tem raça nenhuma!”, o mesmo que puxou o rabicho meio pelado do Pateta, antes de sair correndo.
Gritei-lhe palavrões, tomado de ódio. Pateta guinchava de dor, mas não dava mostras de reagir, sequer defender-se de quem o agredia. Eu o tomava ao colo, enternecido, e o levava para casa, para fora do alcance dos perigos do mundo e das outras crianças.
Pateta lambia-me o rosto, mas nunca brincava ou corria. Parecia sempre triste e doente. Quando eu saía, tinha de prendê-lo para que não vadiasse pelas redondezas, para que não o encontrassem e, outra vez, não tentassem atirá-lo ao rio.
Mas não só as crianças poderiam machucá-lo. Pateta em frente de casa, dois rapazes passavam, um deles acertou-lhe um pontapé nas costelas.
“Olha só, que traste!”, riu esse que eu surpreendi em flagrante, gritando-lhe que fosse chutar a mãe.
“Ih, é o dono dele, que azar…”, fez o outro com um cínico aceno de cabeça, brincando com sua própria superioridade – eles pareciam enormes para mim, naquela idade.
Pateta deitou-se ao pé do muro, gemendo com fraqueza.
“Vai, vai com esse cachorro, moleque!”, disse ainda o agressor, com um gesto de desdém.
Abracei-me ao Pateta. Chorei por ele pela primeira vez. Compreendi que não havia chances para uma criatura tão inofensiva e sem forças. Se ao menos soubesse revidar, se não fosse tão passivo…
Na saída da escola, em meio à correria das crianças, fiquei contente em saber que era esperado por meu avô, junto ao portão principal, o que era raro.
“Vô, o senhor veio me buscar?”
Meu avô curvou-se com um sorriso cansado, passando-me às mãos um doce com o papel da confeitaria.
“Pepo…”, disse ele pausadamente. “O Pateta morreu.”
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agosto, A seta de Verena, Marcas de gentis predadores, Projeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedra, A conspiração dos felizes, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).
