
Mergulhou. Ela estava ao seu lado. Mas isso de nada adiantava. O lado nada representa quando a dimensão é outra. Então nem quis olhar para trás, prosseguiu, afundando, temendo não conseguir respirar. Descendo, perdendo luzes, encontrando seres desconhecidos. Medo, vontade de voltar, o laranjal, segurar a mão dela. Afundou, sem medo dos pulmões, escuridão, sentia os toques estranhos de misteriosos tentáculos que se uniam à sua pele. Gritou, nada ouviu. Chorou, mas as lágrimas se afogavam. Depois, desistiu. Então percebeu que conseguia sobreviver onde estava. Ainda no escuro aceitou o toque de muitas mãos, ou patas, que mexeram em seu nariz, olhos e sexo. Aprendeu a ter paciência. Reconheceu um ruído, era a primeira vez que esse novo mundo falava, um estridente sibilo arrastado, parecia desesperado, faltava-lhe ar, pedia ajuda.
Abriu os olhos e percebeu o enfraquecimento do breu. Havia pálida luz vinda de algum lugar. Não sabia se seus pés estavam no local correto e sua cabeça para cima. Desde o mergulho tudo parecia girar. Os sentidos eram maiores e mais profundos do que conhecia. Estava lá, era o que lhe parecia, e de algum lado, ou de todos, parecia brotar algo diferente da escuridão. Continuou estando, e tudo pareceu cristalizar-se, as luzes aumentaram e atrás delas havia um céu sem nuvens. Seus pés foram abandonados pelas insistentes patas e ventosas e, sem que esperasse, encontraram areia firme. Ficou de pé e saiu do mar. Caminhou por uma praia deserta cercada por imensos coqueiros. Estava nu e procurou pelo corpo sinais dos ataques que sofrera enquanto estava submerso. Seus membros estavam perfeitos, a pele sedosa como quando era criança. A paisagem parecia uma repetição de si mesma, o que acabava tornando indiferente caminhar ou não. Optou pelo caminho mais simples. Sentado na areia, olhou ao redor e aquilo lhe foi suficiente. Agora só precisava esperar pelos dias e anos para ver se a paisagem continuaria bastando-lhe.
Porém, antes disso, sua nova rotina foi rompida. Percebeu ao longe uma figura caminhando em sua direção. Não parecia um homem ou uma mulher. Não era muito alto, mas parecia grande. Uma imensa cabeleira decorava sua cabeça, e à medida que se aproximava, reparou que a figura caminhava com quatro patas. Era uma fera desconhecida, muito forte e de aparência assustadora. O ruído que produzia era possante e demonstrava um poder que o encheu de medo. Então se lembrou do mesmo medo que sentira quando nada enxergava e temia não poder respirar. Abaixou a cabeça diante da aproximação do animal.
Ele percebeu a fraqueza do homem, olhou-o com seus grandes olhos amarelos e gritou seu poder. O homem abaixou a cabeça e dessa vez conseguiu derramar suas lágrimas. Percebeu como eram inúteis e envergonhou-se. A fera olhava-o de frente, seu grande maxilar era recheado por imensos dentes pontudos. Sua língua pálida tentava alcançar regiões distantes, demonstrando largo apetite. Foi quando percebeu que, pendurado no pescoço da fera com uma corda, havia um pedaço de madeira com alguns símbolos desenhados. Custou a entender o que significavam, mas finalmente decifrou o enigma. Eram códigos inventados pelo homem para nominar as coisas. Cada objeto, pessoa, rio, árvore, a cada existência correspondia um daqueles códigos, e com um grupo deles seria possível expressar ideias e narrar acontecimentos. Foi quando pronunciou em voz alta, aquilo que os sinais soavam: “Leão”.
O animal pareceu assustado, talvez desejasse viver incógnito, sem jamais ser nominado. Mas agora era tarde, a novidade se espalharia, e em breve até o mais insignificante dos insetos ou o mais escondido broto de grama, também possuiriam sua respectiva designação.
O homem se levantou assim que o leão saiu com o rabo entre as pernas, assim que fiquei em pé, percebi uma sombra que me encobria. Uma imensa esfera achatada pairava no céu, exatamente sobre minha cabeça. Não havia nada que a sustentasse e o silêncio vencia qualquer ruído. Uma luz desceu de lá e quando percebi estava dentro daquele lugar flutuante. Fui recepcionado por estranhos homens. Pequenos, com grandes olhos e cabeças gigantes. Tinham coloração entre o marrom e o verde, e assim como todo o resto eram silenciosos. Mas, de alguma forma, sem nada pronunciarem, começaram a falar comigo. Senti o que diziam dentro de minha cabeça. E os respondia da mesma maneira. Pediram para que me deitasse em uma mesa e disseram para não ter medo porque nada de ruim iria acontecer comigo. Acreditei.
Vasculharam meu corpo com vários objetos estranhos, mas não senti nenhuma dor. Suas mãos eram geladas como peixes e pareciam meio pegajosas. Meus olhos receberam a luz de um pequeno sol que nascia no teto daquele lugar. Senti que aquele era o lugar onde deveria estar, um calor passeou por meu rosto e adormeci. Lembro-me vagamente de um curto sonho que tive. Dormia sob o laranjal e era despertado por uma pessoa que me mostrava que, finalmente depois de muitas tentativas, as laranjas do sonho eram da cor laranja. Esse homem que vinha me falar não era ninguém mais do que eu mesmo. Foi quando dentro desse curto sonho uma ideia me ocorreu: a visita mais nobre e valiosa que alguém pode receber é a de si mesmo.
Acordei e os estranhos homens, sem abrirem as bocas, que eram desprovidas de lábios, me fizeram algumas perguntas que não soube responder. Eles pareceram irritados com minha ignorância e foi a última vez que os vi. Assim que dei por mim estava no meio de um imenso vilarejo. Cavalos feitos de uma substância brilhante e colorida engoliam homens e mulheres, e os levavam vivos para outros lugares. Era um mundo ainda mais estranho do que o dos pequenos homens de cabeça grande. Na aparência eles eram como nós, mas as roupas e tudo o que havia ao redor era tão diferente que chegava a ser difícil de ser entendido. Percebi que minha nudez atraía a atenção, e que não era vista com bons olhos. Os sinais que nominam todas as coisas estavam por toda a parte, amarrados a mínimos sóis das cores que jamais imaginei. Corri, porque logo dois homens vestidos de preto começaram a me perseguir. Os grandes cavalos emitiam sons estridentes e as pessoas engolidas acenavam de dentro do grande estômago e pareciam achar engraçado o fato de eu estar nu e ser perseguido por dois homens vestidos de preto que seguravam dois pedaços de uma espécie de madeira flexível e preta nas mãos.
O chão por onde os grandes cavalos caminhavam era feito de uma pedra preta muito quente, senti dores e julguei que seria melhor parar de correr e conversar com os homens que me perseguiam. Assim que parei, eles, que ao contrário dos pequenos homens voadores, mexiam seus lábios para falar, descarregaram sobre mim um oceano de sons. Não me molhei porque nenhum deles para mim nada significou. Depois amarraram minhas mãos com cordas que refletiam a luz do sol.
Explodi. Cada pedaço meu dissolveu-se em gotas d’água. Depois evaporei, chovi, os ciclos se repetiram e percebi que se nada fizesse, continuariam acontecendo. O que acabaria destruindo minha consciência e me libertando daquelas amarras que, em segredo, venero. Saltei, na condição de pingo de chuva e atingi a testa de um homem. Misturei-me com seu suor e acabei me tornando parte dele, e adquirindo uma fração de sua consciência. E ele tornou-se eu.
Vivo em um mundo vazio, homens e mulheres inflados por um gás anestésico e alegórico. Todos precisam construir sua história, mas ela precisa encaixar-se e combinar cores com a história de todos os homens. Vazo minhas dores porque elas não combinam com a imagem que devo adorar, a minha. Elas escorrem por poros e veias, formam poças e coagulam. Meu mundo cheira mal. As engrenagens devem girar e os homens fingir. Essa parece ser a lei não escrita contra a qual não podemos nos rebelar. Ou se aceita, ou fingimos que não há fingimentos.
Então, o homem passou a mão na testa no exato instante em que eu havia voltado a ser uma gota de suor, já não era mais ele, e voltava a ser eu. Entretanto, ele deveria continuar sendo alguém a quem chamava de eu. O calor fez com que passasse a mão na testa e me atirasse longe. Voei e caí no chão. Conheci o estranho mundo dos germes. Reprodução, nascimento e morte são quase a mesma coisa. As coisas acontecem, e as milhares de gerações vão alternando-se para manter vivo um organismo, que para olhos desavisados poderiam ser apenas um. Esses mesmos olhos, postados em algum distante planeta, poderiam acreditar que sobre nosso planeta há apenas um homem que repete atos idênticos com o único objetivo de prolongar sua existência.
Cansei, voei, voltei ao mar, fui água salgada e depois uma pulga em um rato de um navio negreiro. Fui homem de negócios e um dos primeiros colonizadores de Marte. Fui muitas mulheres, floresci como begônia e azaleia, até que em uma fase estranha, minha consciência vaporizou-se, sentia-me tão etéreo e sem aparência que desconfio haver sido ar. Tudo passou e tudo voltou, tornei a ser homem de negócios, vários deles, camisa de manga comprida com elástico amarrando o bíceps e viseira cobrindo os reflexos. Mergulhava nos números, eles se tornaram uma obsessão, depois uma religião, e em seguida, eu mesmo. Fui a abstrata noção representada por um número. Mas dentro de mim moravam muitos outros, e senti que me faltava uma identidade. Não poderia continuar aliando minha consciência àquele amontoado de frações de que era composto. Antes de decidir-me pelo ato extremo, lembrei-me que nas muitas vezes em que fui uma pessoa, também sentia algo parecido: era muitos outros e nenhum.
Deixei de ser número para me transformar em palavra. Significado único, menos conflitos. Construído por letras, que se separadas ou combinadas em outra ordem poderiam, assim como os números, dar origem a outras existências. Mas aqui as coisas foram mais tranquilas, permaneci palavra com apenas um significado, minhas letras não se atreveram a rebeliões. O que aconteceu foi que depois de tanto ser palavra, acabei me transformando no significado dela: flauta. Virei um instrumento musical, e como todos sabem, objetos inanimados não comportam uma consciência. Na verdade é quase isso, as coisas não são exatamente assim. A consciência pode hibernar enquanto não for necessária, depois quando o suporte para ela for maior, pode renascer. A explicação, se formos rigorosos, é ainda mais complicada e estranha. Há uma pequena parte da consciência que permanece acordada mesmo dentro de objetos inanimados. Mas não quero falar sobre isso, quero narrar minha experiência como instrumento musical. Confesso que essa foi uma de minhas existências favoritas. Adorava ser empunhado e sentir o ar atravessando minhas entranhas, adorava o som que produzia, e sentia-me responsável e orgulhoso pela música que através de mim era produzida.
Quando finalmente fui abandonado em uma gaveta e convivi com restos sem importância de objetos sem uso, a tristeza consumiu a cola que unia minhas partes. Aquele lugar escuro, cheio de restos inúteis acabou derretendo meu corpo e quando percebi estava sendo incinerado, e meu plástico se unia a outros para formar um bloco, que por longos verões descansou em um armazém de porto. Depois fui transformado em um sofá moderno, pintado em uma combinação de alaranjado com lilás e com traços arrojados. Acompanhei uma família por anos, vi alegrias, tristezas e imensos momentos de solidão onde ser um sofá transformava-se em não ser nada. Mas tudo mudou quando eu finalmente descobri a tristeza, não a dos outros, mas a minha.
Tudo começou quando uma de minhas almofadas, cujo tema era uma mulher estilizada carregando uma sombrinha, pintada em verde mar e rosa, caiu embaixo de mim. Nenhum dos moradores se deu conta desse pequeno incidente, para eles completamente banal, mas para mim muito importante. A almofada permaneceu embaixo de minhas pernas por um longo período, o suficiente para perder um pouco de suas cores, quando finalmente foi encontrada por uma visita. Assim que foi recolocada em seu lugar, nunca, nem ela nem eu, fomos os mesmos. Permanecemos ainda um longo período exercendo nossas funções, mas éramos caricaturas de sofá e almofada.
Um dia reuni todas as gotas de minha pequena alma e as concentrei em um ponto específico do sofá, esperando que alguém se sentasse sobre mim. Foi o que aconteceu. Consegui grudar-me a um par de nádegas encoberto por uma calça jeans. Abandonei meu antigo corpo, lançando sobre a velha almofada, que já fizera parte de mim e agora jazia como um esqueleto moribundo que ainda consegue ir do quarto ao banheiro, um olhar que, se eu possuísse canais lacrimais, eles se transformariam em cavernas submersas.
Assim que pude desgrudei-me das calças, habitei em um banco de metrô, depois me grudei a um jornal abandonado que ao ser jogado em uma lata de lixo, trouxe-me de volta o gosto de viver. O lixo era vivo, vibrante, renovava-se diariamente, estava cheio de odores pontudos, de sabores vencidos. Fui o espírito daquela específica lata de lixo do metrô. E fui feliz. Mas os ventos são insistentes, e acabam arrancando uma hora ou outra, todas as folhas que em uma noite de tempestade, balançaram ao sabor da chuva enquanto todos dormiam.
Deixei o lixo, fui morar dentro da caixa de joias de uma mulher entediada, transformei-me na pomba que costumava morar ao lado da janela de seu quarto. Vaguei por praças, comi muito milho, conheci o amor das pombas e depois que perdi meu pequeno corpo alado, passei a viver sem invólucro. Escolhi permanecer na mesma cidade. Acabei me juntando a algo que ainda é bastante desconhecido e muito difícil de ser explicado, mas que é uma espécie de espírito da cidade. Construída por sobras como eu, ou nós, porque a partir do instante em que aderimos a esse organismo invisível, perdemos a individualidade e pensamos coletivamente. Se conseguem perceber esses meus pensamentos, fica claro que os reuni após deixar de pertencer a essa força.
Mas voltemos a ela, fui ou fomos aquilo que algumas pessoas sentem quando passeiam pelas ruas de uma cidade, ao menos parte do que a rua desperta. Somos origem de sensações que depois vão se transformar em ideias, que se emendarão a outras e formarão algo que também existe, mas que é distinto de nós: o pensamento coletivo. E foi nessa direção que caminhei, acabei me tornando parte desse pensamento, ainda não havia recobrado minha consciência individual, mas fazer parte do pensamento coletivo era um passo adiante em relação ao lugar onde estava antes. Fui aquilo que surge e contamina as massas, que se espalha como fogo saltando entre as moléculas de gasolina. Nem sempre fui útil ou inteligente, na verdade na maioria dos casos apenas repliquei medos, dupliquei intolerâncias, vesti as esquinas com cores vazias. Gostava do que fazia. O juízo de valores só veio depois, e ainda não tenho certeza de que seja verdadeiro. Criar é bom, mesmo quando fazemos algo errado, e os erros são como nuvens.
Depois me cansei de não possuir uma imagem. Estava cheio de ser apenas um objeto, desejava transformar-me em uma pessoa. Uma mulher, pela primeira vez experimentaria viver como o outro sexo, deliciar-me com descobertas, entender o fosso que me separa dos homens. Isso aconteceu, mas antes, vivi a mais estranha e abstrata de todas as experiências: virei uma cor. Isso mesmo, uma cor. Não era um objeto que continha essa cor, mas a essência dela, a ideia que surge antes que ela se materialize. Fui azul.
Ser uma cor, é muito mais imaterial do que ser uma ideia. É claro, cores, antes de tudo, são ideias, mas do tipo vago, etéreo. Ideias que só passam a existir quando deixam de ser ideias. Portanto são ideias kamikazes, feitas para descascar. Precisava ser azul o dia inteiro, todos os instantes, se dormisse e sonhasse, e não me lembro se isso aconteceu, precisaria sonhar com azul. Com sua essência última, com o azul rumando a ser cada vez mais azul. Mas não era só isso, todos meus atos precisavam apontar nessa direção, a do azul, mas também eu mesmo, em minha mais profunda essência, na última e derradeira instância, em cada célula (se elas existissem, sendo que para isso precisariam ser azuis), em todos os movimentos, precisaria ser e refletir essa cor.
Não foi fácil, principalmente porque naquela fase, meu raciocínio havia se tornado bastante claro, e estava consciente de minha condição e deveres. O que forçosamente me conduzia a cometer o grande pecado (nesse caso Deus deveria ser a forma mais pura de azul), que era pensar em outras cores. Quando menos percebia, furtivamente, invadia meu raciocínio algum amarelo, tempos depois conversava com um vermelho e a reunião crescia. As outras cores eram convidadas e a única que não comparecia era justamente o azul.
Passei a me sentir vermelho de vergonha, e nesse dia, mergulhei dentro de um tubo de tinta amarela. Encerrando minha existência. O tubo pertencia a uma pintora. Aquela mulher que já mencionei, e na qual me transformei. De fato, ela já existia, eu apenas passei a ser parte dela ou ela parte de mim. Talvez ambos tenhamos derretido partes de nossas individualidades para nos tornarmos o que ela ou eu nos tornamos. Quando saí do tubo amarelo ela estava pintando um quadro. Havia bastante azul nele, mas aquilo já era passado. Entrei nela utilizando-me do grande portal conhecido como vagina. Subi, atravessei órgãos que poderiam ser masculinos e não me despertaram grande interesse. Subi até a cabeça, e foi quando encontrei os buracos dos olhos e ajustei-me, para combinar minha visão com a dela, que o milagre aconteceu. A fusão brilhou, era ela, e pintava, criava, misturando cores e formas.
Prazer e dor alternavam-se. Cada pincelada uma decepção gloriosa. Os arrependimentos eram feitos da mais aguda lâmina incandescente, e eram a porta de entrada do reino de todos os prazeres. E ela espalhava tintas com ódio, mas esse sentimento era salpicado de amor, e talvez, no fundo, o que vi foi amor com pitadas de ódio. Eu formava grandes círculos que se entrelaçavam e misturavam tons, criando novos mundos e cores, formando sombras que também eram coloridas. Os pedaços de planetas se encaixavam e eu decidia suas cores. Isso me enchia de prazeres. Eu crio, e à medida que isso acontece, sou apenas uma, mas muitas outras me olham, invejosas, outras eu, querendo que viva por elas. E é isso que faço, pinto por aqueles que não podem pintar e vivo por aqueles que não podem viver.
Ao meu redor muitas outras telas incompletas, planetas pedindo cores e vidas, sou responsável por meu universo, depois, à noite, guardo minhas dores para serem polvilhadas por esperanças, sou uma máquina de derreter dores e felicidades. Ao forno, transformo angústia em novo dia e a energia dos tomates me injeta a força necessária para novamente mergulhar nas cores e planetas. Suo lágrimas em segredo, reconheço-me em minha filha, ela é mais um planeta colorido e eu a deusa que os produz. E depois os abandona. Há mais realidades pedindo para nascer, e elas, todas elas que não existem, não me deixam em paz. Gritam dia e noite, perturbam meu sono e manipulam os sonhos, sou para elas o que o pincel é para mim. Desconfio que seja daí que se origina meu ódio, e ele não é pequeno. Procuro embalá-lo em papel dourado, mas ele é pontudo e estraga embrulhos. Então o carrego envergonhada, parte cai no chão e escondo embaixo do tapete, o que sobra enfio entre dois planetas escuros que normalmente ficam ao lado dos mais luminosos e coloridos.
Continuo. Há muitas telas em branco, mais do que consigo pintar, mesmo assim preciso acreditar que vou espalhar cores e planetas por todas elas. E que se isso não acontecer, o universo será muito pior. Meus tendões e pulmões são tinta e pincéis, sou tela e o mundo e o universo não tem o tamanho de meu desejo.
Então a abandonei, deixamos de ser apenas uma pessoa, ela continuou sendo ela e eu transformei-me em um louva-a-deus. Foram dias tediosos, uma contemplação quase filosófica da vida ao redor. O que impedia de ser completa, era que não havia qualquer filosofia, apenas contemplação. O mundo era quase estático, o movimento era lento e o tempo não existia. Agora, após abandonar a condição de louva-a-deus, uma pergunta se faz fundamental: não seria a ausência completa de qualquer pensamento filosófico, talvez o mais rico dos posicionamentos filosóficos que o homem, e talvez o louva-a-deus podem experimentar?
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
