
Certamente
A/À Beserra
É bem possível que a poesia esteja morta ]não haverá mais metáforas para a falcoaria[
É bem provável que já não mais haja poesia nos seres ]nem elefantes com joias nos pés[
Não é de se ignorar que tudo já possa ter sido escrito ]palácios em píncaros himalaios[
E talvez o grande chimpanzé universal ]dançarinas que pedem a cabeça do poeta[
Já tenha escrito todas as possibilidades das letras do universo ]e uma espada com nome próprio[
Tendo preenchido de tudo: receitas, romances, poemas épicos ]um asno falante, um corvo sobre um crânio[
Cartas de amor, sentenças legais, um relatório de compras ]um nada[
Talvez o jarro universal da musa esteja seco ]mas talvez haja uma falua primitiva[
E sequer uma borra escura habite lá seu fundo de barro ]navegando no vazio do escuro do céu mais negro[
E nem nos ebriemos mais catando feijão nos alguidares cotidianos ]e ela enfrente ondas novas, nunca navegadas[
Cansamos das metáforas das penas, da tinta, do ideograma ]e um marinheiro morto de fome a roer o remo sob as estrelas, sem ter o que comer, seus dedos quase ossos[
Percorremos todos os rios, as estrelas indiferentes ]de modo que metaforize a fome, mas uma fome filosófica, metafísica, transcedental[
O amor requentado ]destruindo o que o salvaria[
O gato enrodilhado ]e dali nascerá um verso macabro e límpido[
Voltar à cunha, quiçá ]uma reunião de opostos que a teoria não deu conta de explicar nunca[
Tentar sorrir depois que o fogo pegou em dois gravetos esfregados ]que será cantado nos saraus[
Contar histórias como nunca contamos ]estudado nas salas da Reitoria da XV[
No começo não era o verbo e por não ser o verbo não era nada. ]aula dada por um professor cego[
Certamente talvez ]a alunos surdos[
Não haja mais sentido a descrição da viagem do herói ]o que[
Afogou-se. Virou porco. Devorado por um ciclope. ]nos[
Estaríamos seguros de que escanção é uma mentira contada a uma criança para que durma ]fará[
E a rima, apenas as ondas aborrecidas ]voltar[
Repetindo ao infinito o que as rochas se cansaram de ouvir ]ao início de tudo[
Elas mesmas, esfaceladas ]de novo e de novo[
Tamanha repetição ]tamanha perfeição[
Diotima de Mantineia
Os amantes vão para uma praia distante, meio sem graça
Exceto por um navio encalhado
Cem anos faz, ali, à espera do desaparecimento
Amantes procuram escombros, apodrecimentos, sítios arqueológicos
E vão andar na praia, sem sol, com sol, faça chuva
A perguntar se alguém terá morrido longe de casa
Essa areia já viu tanta coisa
Uma nuvem chega pelo Leste
E da praia se vê como a chuva funciona
Uma cortina mais escura que o mar
E num determinado momento o mundo se divide em dois
Praia-mar, leste-oeste, chuva-sol, passado-presente, amor-desamor
E de repente tudo parece oposto, simples como uma brincadeira infantil
Claro-escuro, dicotomia, bipolaridade, bem-mal, bifurcação, maniqueísmo
Agostinho riria.
Grossas chapas de aço do navio estão vazadas
Formam um mosaico de líquens gigantes
Pensamentos gigantes, rosáceas numa paleta mineral
Receita final de sal, luz, desgaste aquático
Sua própria estrutura não resistirá, um dia
Será a vez dos mergulhadores.
Porto de Matinhos, dois de fevereiro
Dentro das caixas brancas de plástico
Sobre a cabeça de um gigante negro
As nadadeiras caudais em forma de lua
Brilham azulado-metálicas à luz do sol []
Um cão malhado procura restos
E um marinheiro senta-se no chão
Frente a uma mulher de coxas redondas
[] O amor procuramos em diferentes lugares
Também a fé, mesmo que involuntária
O peixe, um Cristo morto
Os pescadores, seus apóstolos
E o cachorro é a fidelidade aos pés da fome
As coxas brilhantes, um Eros assanhado []
Os barcos muito masculinos
Brancos, com faixas amarelas, azuis
Nos pequenos mastros, bandeiras coloridas
Plásticas, rufluando anêmonas
E se voltam ao mercado, feitos animais de presépio
Em doce contemplação
Onde se vendem botões de lula, lagostas castradas
Vidros de rollmops, de pepino azedo,
Ovinhos de codorna que prometem milagres
[] Os vendedores de cenho franzido e braços fortes
Pesam o que retornará ao corpo
Em balanças tão antigas como o tempo
O pensamento e a nuvem –
O vai e vem da maré alcança o cheiro
De mijo e vísceras de bichos
E o leva embora assim como o desejo
Faz sumir tanta coisa, uma vez findo []
Na calçada, costas firmes
Na parede caiada do mercado
Melhor tradução do post coitum animal triste
O que recomeçará amanhã
[] Outro cachorro passa devagar
As garças-brancas-pequenas
Formam uma franja viva no cume
Das casas de madeira
Como lambrequins, torta, com volteios
Anacrônica, fora do lugar
E não brigam com as gaivotas
Que preferem a vizinhança dos barcos
Chamados Ana, Adriana, Vitória
Como filhas queridas ou amores mortos []
De repente, uma porta descascada
De muitas camadas de tinta náutica
Abre-se vagarosamente
De lá, sai Janaína, a desejada das gentes
Sem a máscara da noite
As roupas masculinas
E o mundo pára
Como se invadido pela noite
Ela também em busca da carne do peixe do dia.

Agulha, linha, mortalha
Ele cortaria as asas dos anjos e a língua das sopranos
E eu, a costureirinha do bairro
Amante de libélulas e rãs.
Mas no começo me deu flor — begônia
Flor ambígua
A begônia, para casais enamorados
A begônia, cultivada na sombra, para febres.
Com rapapés, a fazer perguntar
Quem ali dobraria a espinha
Hoje, uma tesoura fincada no coração
E ninguém chora mais pelos mortos.

Benedito Costa Neto (Quatiguá, 1966) é doutor em Letras pela Universidade Federal do Paraná (2007), na área de Estudos Literários, com pesquisa sobre a relação entre romance histórico e historiografia. Trabalhou como professor universitário e consultor linguístico. Divulga prosa e poesia no canal Literalmente. Publicou Diante do Abismo, editora Benvirá (2012) e Ozaki e A ira de Nut (Carava Grupo Editorial). Mora em Curitiba.