
Ele queria saber quem era a jovem nua e careca que estava me beijando com tanto gosto e sinceridade. O doutor Stabile é um homem corpulento, robusto, retangular, um pouco, só um pouco, mais alto do que eu. Olhos grandes, de certa forma realçados por olheiras naturais, dois arcos discretos sob as pálpebras, e isso me recorda aquelas ilustrações que eu via nas páginas da primeira infância, mostrando corujas e mochos preocupantemente silenciosos – uma surdez, uma dormência, um medo infantil do silêncio que esses bichos não pretendiam romper.
Nesse dia, nessa tarde, nesse fim de tarde, o doutor Stabile me perguntou, muito calmamente, se eu sabia quem era a jovem nua e careca que me beijava. As cortinas brancas em sua sala, que não são exatamente brancas, mas de um desses matizes que me fogem, que me confundem – talvez um cinza muito, muito claro, arriscando uma descrição bem simplória –, sugerem às vezes algum mínimo movimento. Às vezes. Mas acho que não estão, não, em movimento. É como se minha atenção se voltasse para elas de vez em quando, percebendo alguma ridícula oscilação. Não sei. Algo como uma ilusão de óptica. Lateral, furtiva. Quase convincente. As janelas ficam fechadas, e o ar-condicionado nem sempre produz brisas. Não sei. Não é o caso agora. De qualquer forma, essas digressões fazem parte de mim. São boas para mim. Não me importo de ser ou não ser coerente e focado, não me importo de me perder.
Num instante, o caso de as cortinas se agitarem, quase imperceptivelmente ou não, passa a ser significativo, como se houvesse alguém invisível ali, como se eu tivesse nascido só para desvendar esse mistério patético, essa dúvida inútil.
“Quem é ela?”
Ele se dirige a mim com paciência, respeitando o tempo de meu silêncio introspectivo.
“Quem é a garota nua, calva, que beija você?”
Meu tempo. Meu silêncio. Esses profissionais estão hoje no lugar dos curandeiros e dos ervanários, também dos padres confessores. A esperança é que nos respondam com algo palpável, não com misticismo, não com a mistura de idiotices sem fim que formam as crenças e as religiões. Minha boca se abre e fecha, mas pouco, muito pouco, um soltar os lábios, também como uma ilusão de óptica, imperceptível. Não digo nada. Eu sei quem é. Entendo que só pode ser quem eu penso que é. Mas eu me demoro, não para buscar outra resposta. É porque não quero lhe passar esta resposta, a minha resposta. Porque não vou lhe contar nada.
“Não sei, não tenho certeza. Eu… não sei, Juan.”
Ele me observa.
“Não tem certeza, e isso quer dizer que você tem uma hipótese, pelo menos. Tem uma hipótese? Um ou outro palpite?”
Meu silêncio agora planejado, fingindo ser mais tenso do que é, mais preocupado do que é.
“Não.”
O doutor Stabile olha-me com atenção enquanto estou de cabeça baixa, eu percebo isso. Ele fica muito tempo sem piscar, e essa sua característica natural impressionou-me um pouco no começo, admito. Olhos grandes, bonitos, com olheiras. Sem piscar.
“Algum palpite?”
“Não sei.”
Eu lhe contei o sonho há três semanas, mais ou menos. Duas mulheres nuas, contra um fundo neutro. Eu não via paredes ou pisos definidos. Uma delas deitada de bruços no chão, aparentemente dormindo. Talvez morta. Talvez não. Ela dorme ou jaz de vez. Nenhum sinal de violência, nenhum sinal da morte. Mas talvez morta mesmo, suavemente. A outra, como se tivesse acabado de se levantar, antes ajoelhada ou talvez agachada ao lado da primeira, dá um passo em minha direção, passando gentilmente por sobre o corpo de sua gêmea inerte, os pés cuidadosos buscando apoio no espaço estreito entre uma perna e outra dessa que se estende no chão, pernas de lado, dobradas de maneiras diferentes, de bruços quanto ao resto do corpo, como já disse. Então, essa que está de pé, atravessando com dois passos pequenos o espaço próximo, vem e me beija tranquilamente. Deliciosamente. Sem nenhuma hesitação. Nenhuma dúvida. Lábios um pouco moles, fáceis de pegar com os dentes, fáceis de conduzir, controlar, dominar. Um daqueles momentos em que o mundo se apaga à nossa volta, em que somos invadidos, neutralizados, capturados pela soberania irresistível da beleza. Eu sei quem é. Entendo que só pode ser quem eu penso que é. Por causa de seu rosto, que só eu sei. Ela tem um sorriso hesitante. Olhos carinhosos, cor de areia.
Que eu buscasse na memória alguma razão para aquela cena suspensa. Que eu tentasse associar com algo apreendido no dia a dia, que eu tentasse responder a mim mesmo, e alguns pontos entendi como identificados, até mesmo facilmente. Eu tinha visto, no dia anterior ao sonho, imagens de uma campanha contra o câncer, uma menina que havia perdido todos os cabelos. Pediu que eu lhe contasse, continuasse. Fiquei quieto, como se uma nuvem passasse à frente de meus olhos e encobrisse uma montanha. Eu já começava a falar como quem vai caindo.
“Faça uma tentativa. Tente se lembrar.”
Comecei, de qualquer maneira, mais ou menos preparando o terreno – entre o que pretendia contar e o que pretendia ocultar. Porque, conforme tento repassar meus sonhos, eles vão se dissipando desafiadores, como se eu quisesse ler um papel bem à minha frente, mas que estivesse se desfazendo em chamas, contorcendo-se em cinzas desde as margens tristemente agitadas.
“Eu distorço um pouco, Juan, não consigo passar tudo.”
O doutor Stabile entende que eu associei uma coisa com outra. Queria saber sobre a sensação de ser beijado daquela maneira. O que aquilo significava? Quem poderia ser ela?
“Pense com calma. Não tem que responder agora.”
Eu revisitava o sonho, tornava a repassar toda a sequência, a jovem calva e esbelta, e aqueles lábios moles e úmidos, a nudez que senti com tanta realidade ao abraçá-la, um instante antes de despertar. Tive outra vez a impressão de que as vastas cortinas claras haviam respondido a alguma mínima vibração. O que se esconde parece ser sempre mais interessante do que o que se mostra. Talvez por isso eu quisesse saber mais e mais sobre tantas coisas. E também por isso, eu não pretendia lhe contar tudo. Da última vez que eu estivera ali, o doutor Stabile, com seus olhos paternais de mocho indecifrável, conduzira a conversa para outro plano. Ele havia me perguntado se eu já tinha pensado em matar aquela moça antes.
“Você já tinha pensado em matar essa moça antes?”
Perce Polegatto é um escritor nascido em Ribeirão Preto, formado em Letras, com especialização em Estudos Literários. Lecionou matérias da área de Letras, como Gramática, Literatura, Adaptações literárias para o cinema, Produção de textos e Semiótica em diversas escolas, principalmente no Ensino Médio, e em três instituições universitárias.
É autor de 5 romances (Os últimos dias de agosto, A seta de Verena, Marcas de gentis predadores, Projeto esvanecendo-se e Teus olhos na escuridão), 4 volumes de contos (A canção de pedra, A conspiração dos felizes, Lisette Maris em seu endereço de inverno e Inconsistência dos retratos) e um de poesia (Diário contra o destino). A metalinguagem, a busca da identidade humana e o questionamento existencial são algumas das principais marcas de seus textos, divulgados também no site “Aventura do dia comum” (www.percepolegatto.com.br).
