
Chega. Acabou. Não consigo seguir mentindo. Os mesmos cenários e personagens de meus livros anteriores. Os visto com novas roupas, misturo enredos, disfarço ideias e, pronto, um novo romance repleto de originalidade. Não é assim que funciona. Mas isso não ocorre apenas comigo. O romancista vive entre 15 e 30 livros. Alguns são mais longevos e outros encerram suas carreiras prematuramente no oitavo. Há também uma quantidade enorme daqueles que, decepcionados com a falta de sucesso do primeiro romance, nos poupam dos próximos 29. Mas para efeito de desenvolver meu ponto de vista, vamos nos ater ao animal mediano, o romancista que, independente de sucesso ou não, escreve entre 15 e 30 romances.
Os primeiros costumam ser piores que os penúltimos e melhores do que os últimos, mas essa é uma regra que comporta muitas exceções. A que não admite, é aquela que mostra que os primeiros estão cheios de uma energia que é uma das principais razões para que o livro não seja bom. Não que a energia em si seja algo ruim, mas sim seu desequilíbrio. Sem experiência, o romancista acaba exagerando na pimenta e se esquecendo do sal. Esquece o tempo de cozimento e adiciona um excesso de condimentos que encobrem o gosto da comida.
Além disso, os primeiros romances costumam estar recheados com uma crença perniciosa. A de que é possível ser original. O escritor acredita-se um demiurgo capaz de efetuar flutuações quânticas, ou seja, criar algo a partir do nada. Na verdade só o que cria é um orgulho que dois ou três livros depois se transforma em vergonha.
Tudo o que existe já está nas prateleiras da vida, misturar não é criar, pode, no máximo, ser uma recriação. E quanto mais cedo o romancista aceitar isso, menos peso inútil carregará. Mas os perigos não param por aí. A mata escura está cheia de muitos riscos que, se não interrompem definitivamente a carreira de um escritor, podem fazer pior, envenená-lo, fazendo-o acreditar que a cada novo livro, sobe um degrau na direção da pirâmide onde se equilibram Shakespeare, Tolstói e Machado de Assis. A verdade é que a cada novo livro, ele está escrevendo sempre o mesmo velho livro. E os títulos passam a se assemelhar àquelas mulheres que por não aceitarem a passagem dos anos, apelam para cirurgias plásticas que, aos poucos as vão transformando em caricaturas de si mesmas.
E assim prossegue o romancista, impulsionado pelo mercado, pelas editoras ou por si mesmo, requentando fórmulas, que tanto podem ser de sucesso ou fracasso, isso pouco importa, enganando primeiro a si mesmo para conseguir melhor enganar aos outros. Assim faço eu, colocando sempre os mesmos velhos ingredientes no liquidificador e esperando que, por mágica, o resultado seja completamente diferente. Logo ao primeiro gole acabamos reconhecendo gostos que não conseguem ser mascarados. E em raros casos, quando não se percebe os sabores dos ingredientes, acaba não sobrando nada. A papa insossa não serve para nada.
Mas por que escrevemos romances? É uma pergunta difícil de ser respondida. Os dias de hoje são dominados pela imagem e a ficção escrita está em grande desvantagem. Talvez o conto possa ocupar o espaço vago entre duas reuniões, uma ida ao banheiro ou a espera por um dentista. Mas, e o romance, ainda possui espaço em nossos dias? A verdade é que cada vez mais se parece com uma máquina de escrever ou um aparelho de rádio de ondas curtas, desperta simpatias, sorrisos saudosos, mas não tem quase serventia.
Romances são a história da luta do homem contra algo, seja uma força externa ou ele mesmo. E o personagem principal, que é a espinha dorsal da obra, é um herói, no sentido amplo do termo. Não precisa ter caráter ou possuir uma causa nobre, mas sua existência se justifica pelo embate contra uma força que se opõe a seus desejos. Depois do choque, há o resultado, que é o desfecho do romance. Normalmente, convencionou-se que, por todos nós sermos suscetíveis à morte, no final, sonhos, desejos, acabam, de maneira irrevogável, e que os bons romances são aqueles em que essa condenação é demonstrada de maneira clara. E os maus são aqueles em que a fantasia engole o destino e a felicidade exibe uma durabilidade que não se encontra na vida real. Por isso, porque mesmo os maus escritores desejam escrever bons romances, a grande maioria deles tem finais tristes, às vezes essa tristeza é disfarçada para não parecer tão evidente e doutrinária. Mas ela está sempre lá. Todos querem escrever bons romances, para isso torcem para que a tristeza que os livros contém se transforme em felicidade pessoal, e que essa, sim, possa durar para sempre.
Mas isso não encerra a questão de por que escrevemos romances, nem qual o sentido de continuar escrevendo-os no século 21. Os heróis estão em baixa. É muito fácil, hoje em dia, engajar-se em alguma causa que julguemos heroica, mas os perigos desapareceram. Podemos assinar petições on-line contra o terrorismo, o racismo, a fome, a desigualdade, leis injustas, governantes tiranos, mas tudo depende apenas de um leve movimento de nosso indicador direito. Um click no mouse nos coloca ao lado dos bons. Pelo menos daqueles que julgamos bons. Nada de contrabandear armas, atravessar perigosas fronteiras disfarçado, embarcar clandestinamente em navios, lutar guerras ao lado dos justos. Apenas o silencioso movimento de um dedo. Não precisamos mais escrever longas cartas de amor, vigiar a varanda da amada, ninguém mais cortará os pulsos por um amor não correspondido, basta alguns movimentos de dedos e o aplicativo de relacionamentos te oferecerá um cardápio de fotos acompanhadas de uma frase que resume a respectiva passagem daquela pessoa sobre o planeta até aquele momento. As relações começam e terminam na mesma noite, e quando prosseguem, bem, a vida passa a ter a importância de uma noite.
É claro que há muitas exceções para ambos os casos, e muitos outros também que o mundo moderno simplifica, banaliza, torna seguro e antisséptico. Mas nossa sociedade não comporta mais a figura do herói, quando eles aparecem são personagens que representam, ou fingem representar interesses coletivos. Que afirmam não querer nada para eles mesmos, e que fazem crer que se conformam em ser apenas engrenagens bem azeitadas da grande máquina. Sem vileza, egoísmo, amor, vingança, inveja e ambição, não existem heróis. E, portanto, não há a necessidade de romances.
Então, os romances transformaram-se. Ao invés de espasmos de emoção, gritos agudos de amor e balas zumbindo ao lado de duelistas, o mini-herói do romance contemporâneo é movido a tédio, suas causas são quase insignificantes, seus amores pálidos. São personagens de papel, que podem ser dobrados e substituídos por outros idênticos. Ele habita um cenário feito de marcas, hábitos e nomes próprios com os quais o leitor gerará uma empatia. As memórias nascidas dessa convivência referem-se a trechos de músicas em publicidades, cores em cartazes de refrigerante e o que cada um estava fazendo quando determinado acontecimento coletivo ocorreu.
O foco narrativo será sempre a primeira pessoa, afinal, leitores vivem em primeira pessoa, e tudo o que ajudar a identificar o leitor com o texto, ajudará a amarrá-lo a ele. Não há grandes tragédias ou alegrias, os amores vêm e vão como os dias nublados. O mini-herói não possui grandes crenças, mas se uma pudesse ser distinguida entre as pequenas, seria o prazer. Ele acredita no próprio prazer. Mas não existe algo ou alguém capaz de fornecer-lhe esse prazer. Ele virá de uma combinação de pequenas coisas. O equilíbrio é a grande religião. Apenas quando conseguirmos retirar os espinhos que causam dores e alegrias, o homem aceitará que o prazer não está em lugar algum, mas em todos. E para dele conseguirmos usufruir, precisamos extraí-lo do mundo em gotas. Esse homem solitário, que inventa para si companhias virtuais, sorve suas gotas de equilíbrio e pinta um claustrofóbico universo com as cores que berram para que ele permaneça em silêncio.
Há também os romances costurados por uma causa. Livros que espalham panfletos por onde passam. Mas o homem não está no centro dessas ideias. Elas são aglomerados coletivos sem o rosto humano. Ladainhas sem alma de uma culpa cristã que se esconde nas bibliotecas da classe média. Não há coragem, não há vontades, as ações devem sempre ser realizadas por outros, assim como as culpas, que também são exclusivamente alheias. O leitor, que se confunde com o escritor e com os personagens, é completamente isento de méritos e penas, é um observador neutro entrincheirado em sua poltrona, com o único dever de confirmar mentalmente todas as insinuações do escritor.
Não há uma gota de sangue nesses livros, se sangue é descrito nessas páginas, ele é um colorante vermelho. Não há suor, morte ou vento. Nada de tempo ou amor. Sem medos ou lágrimas, raiva ou inveja. Tudo em excesso é nocivo e o equilíbrio comanda o mundo. Os grandes sentimentos, quando aparecem, são desconstruídos, analisados aos pedaços, examinados em grandes microscópios que tentam descobrir qual a aparência e a respectiva fórmula de uma molécula de amor ou de outra de vingança. Quem seriam os culpados pela maldade que infecta determinado personagem?
O problema é que romances devem narrar vidas, ou A vida, e ela anda cada vez mais difícil de ser encontrada. Ela não acabou nem acabará, mas a sociedade a diluiu a níveis difíceis de serem detectados pelos aparelhos encarregados disso (se eles obviamente existissem). Com essa diluição, só o que os romances conseguem registrar é o lugar onde mora (ou morava) a vida: a sociedade. E quem de fato se interessa por livros como esses? Certamente não os seres humanos, que não irão se reconhecer naquelas páginas. Mas aqueles que constroem a sociedade: os cidadãos. É para eles que são escritos os romances. É de seus dramas e dúvidas que tratarão as longas narrativas ficcionais.
Então eles prosseguirão sendo escritos e lidos, muitos deles se fundirão com outros gêneros literários, a poesia injetará a alma perdida dentro do romance, os contos trarão a vitalidade esquecida, a crônica manchará suas páginas com a mágica cotidiana, e dessa mistura nascerá um novo animal. Os cidadãos, da mesma forma que os homens de Neanderthal, que conviveram com os homens de Cro-Magnon, conviverão com os humanos, ambos respeitarão os desejos e ambições alheias, cada um dos grupos continuará lendo seus livros, e cada um à sua maneira, sonhando em escrevê-los.
Mas romances, ou livros em geral e, no fundo, tudo o que existe, são consequências. Eles existem porque forças anteriores e primordiais os desejaram e fizeram com que acontecessem. Portanto ataquemos a questão do cidadão, aquele homem ou mulher que desistem de sua alma para que a vida transcorra segundo um código de regras escrito por outros e que, em teoria, pode afastá-lo de alguns tipos de sofrimento. Essa situação se parece com uma noite de frio e um quarto sem aquecimento central. Contamos apenas com as cobertas para nos aquecermos. Assim que deitamos enfiamos a cabeça sobre elas, nosso próprio calor espalha-se por uma pequena bolha que aquece rapidamente o ambiente. A noite parece que será quente e acolhedora sob os cobertores. Mas, aos poucos, algo começa a faltar. O ar que nos faz viver, rareia. Se decidirmos sermos apenas cidadãos, morreremos sufocados. As benesses com que agradamos nossos corpos geram efeitos colaterais que acabam irritando nossas almas, que por sua vez, por vingança, atacam nossos corpos. A busca incessante pelo conforto termina sempre em grande desconforto. Essa frase pode ser reescrita também substituindo a palavra conforto por felicidade.
É certo que o contrário também é pernicioso, e não podemos viver desprezando nossos corpos. Precisamos cultivá-los e respeitá-los. E aqueles que simplesmente os renegam, acreditando que a alma não depende de seu invólucro, e que ele é apenas um empecilho para a elevação espiritual, esses não vão a lugar algum. Transformam-se em cidadãos da alma, descobrem livros de regras e são ainda mais obedientes do que os cidadãos do corpo. Então, a que conclusão chegamos? O melhor caminho é o do meio? Não, errado, ali só encontramos o pior dos dois lados. O melhor caminho é… não há melhor caminho, talvez não haja nem caminhos, somos todos escravos do tempo, e enquanto não conseguirmos dele nos libertarmos (notem que ‘enquanto’ já indica tempo, portanto qualquer fuga da prisão será para entrar em um calabouço com as paredes ainda mais grossas), nada poderá ser feito. Todos os romances ou livros de contos, todos os poemas, peças de teatro, filmes, quadros ou esculturas, representarão apenas nossa vã tentativa de arranhar as estrelas, de engolir a eternidade. Da desilusão nascida de nossa mortalidade, brotam duas raízes: uma delas nos conduz à ausência de movimento. Se estamos condenados a nosso minúsculo destino, qual o sentido de nos movermos, pensarmos, escrevermos. Usufruamos dos prazeres, mesmo que sejam vazios e dolorosos, pois sempre terminam e pedem para nascer novamente, e uma hora nos cansamos de dar-lhes vida. Mesmo assim eles são tudo o que nos resta, podemos temperá-los com sarcasmo e servi-los em pratos espelhados onde encontramos nossos rostos no exato momento em que os saboreamos.
A outra raiz é mais amarga, mas uma vez que dela provamos, estamos condenados a jamais esquecermos seu sabor. Doravante, nossas vidas servirão apenas para cantarmos seu amargor e a maneira como ele se espalha por nossas almas. Não teremos tempo para sarcasmos ou prazeres, de fato, não teremos tempo, ele será extinto de nossa consciência (apesar de continuar agindo sobre nossos corpos), viveremos em um eterno instante onde a única atitude será demonstrar o eterno. Nós, a matéria perecível, nos transformaremos em uma tela que serve para projetar tudo aquilo que não tem fim.
Então sentiremos dores por sermos contradição e desejaremos nada mais ser. Desaparecer, ou melhor, nunca haver aparecido, esgotar nossas memórias no fosso universal e depois o nada completo, a ausência, nenhuma memória ou relação que possa nos amarrar com qualquer ser vivo ou que já tenha vivido. Mas isso não passará de vontade, pois a lógica nos afastará da anulação. Isso mesmo, não faz sentido anular-se, pois há um infinito antes de existirmos e outro após deixarmos esse mundo, e um piscar de olhos entre os dois. Por que não rompermos, mesmo que seja com algumas dores, esse tedioso nada? Esse é o único argumento que valida a vida, e sei, não deixa de ser meio parecido com um monte de outros argumentos bastante piegas, mas, por ora, é o que temos.
O que nos transforma, ou pelo menos me transforma (cada homem sente-se o representante maior do gênero humano) em uma locomotiva que precisa obedecer aos trilhos que não foi ela quem construiu. Dito isso, inicia-se a viagem. Desconhecemos o destino e o tempo de duração. Os companheiros de vagão são pessoas estranhas, em todos os sentidos do termo. Prosseguimos, engolindo paisagens e sensações até que finalmente percebemos uma cidade que se aproxima e depois a estação ferroviária que é a última parada. Então devemos desembarcar, a viagem acabou e não há nenhuma garantia de que a cidade a que chegamos, de fato, exista, ou que haverá outro trem para embarcarmos. Isso mesmo, o passageiro recém-desembarcado percebe que nada ao seu redor se sustenta. A estação, com toda sua estrutura, aparenta possuir apenas duas dimensões, como se fosse um cenário desenhado em papel. Depois, mesmo essa dupla dimensão desaparece, o viajante não tem para onde ir, e, como além de não possuir origem e destino, passa a perder o sentido. Simplesmente deixa de existir.
Portanto, se pretendemos fazer alguma coisa, isso deve acontecer quando ainda estamos dentro do trem e ele está em movimento. É aí que nasce o sonho e também onde se cristaliza. É aí que conseguimos misturar paisagens com cheiros e ideias derivadas de outras sensações para criarmos mundos que não existem, mas que podem ser tão reais quanto aquele que berra ao nosso redor. Quando um jovem percebe que é só isso o que pode fazer, e que todo o resto não tem a menor importância, e quando esse rapaz ou moça decidem mergulhar na piscina colorida da criação, então ele ou ela assumem a função de bebês-deus, que conforme o tempo passa e a sucessão de acontecimentos modela, poderão se tornar deuses maiores, aumentando também o tamanho de suas responsabilidades.
Examinemos uma dessas figuras, não possui nome ou sexo, mas é jovem, e um dia, meio sem querer, escorregou e caiu dentro da piscina que possui todas as cores. A pessoa logo percebe que está em um lugar diferente de tudo o que conhece. A palavra ‘lugar’ talvez nem se aplique àquilo que a circunda, são sensações disfarçadas de espaço. A partir dessa constatação, e passado o primeiro impacto, a pessoa precisa decidir como irá reagir. Engole prazeres até afogar-se, ou os seleciona, os organiza, descobre parentescos entre eles e, finalmente, tenta de alguma forma, organizá-los, construindo um sistema que apresente coerência interna e que seja maior e mais rico do que os ingredientes que a compõe individualmente. Para isso será preciso sacrificar prazeres e simpatias em nome do todo.
Essa tarefa mistura dor com prazer, portanto muitos dos que após mergulharem na piscina colorida decidem prosseguir no caminho da organização e construção de sistemas acabam desistindo e voltam a apenas usufruir dos prazeres. Mas alguns, mesmo depois de dificuldades, continuam, e aparentemente conseguem extrair prazer de suas dores. Assim que terminam seus primeiros bonecos, e finalmente assopram vida em seus pulmões, sorriem com qualquer movimento. Mesmo vidas incipientes são consideradas imensas vitórias, e para os que fizeram essa escolha, eles geraram mais prazer do que o ilimitado consumo de prazeres isolados. Quem constrói um sistema, de certa forma, faz nascer uma maneira pela qual a vida se reproduz. E desconfio que, no fundo, só o que desejamos é produzir vidas.
Portanto, agora deixando as fracas metáforas de lado, a arte existe para que o homem acredite em sua eternidade. E o que importa se isso é ou não verdade? A verdade pura tem o tamanho do universo e, portanto, é inalcançável. Ao homem cabe o contentamento com aquela verdade pálida que está ao seu alcance. As eternidades terão os tamanhos proporcionais às outras variáveis correspondentes. Então é legítima a busca pela vida eterna. Quanto mais rico, complexo e parecido com a realidade invisível, maior será a eternidade a que cada criador terá direito. Somos apenas imitadores, mas isso não nos faz menores, ao contrário, para imitar corretamente, precisamos, pelo menos em parte, compreender o profundamente complexo.
E o universo é terrivelmente complicado. O escritor usa as palavras, que são uma maneira milenar que descobrimos para congelarmos a realidade e nos referirmos a ela, para falar desse universo grande e estranho. Universo que costuma se disfarçar, que inventando cenas prosaicas nos quer fazer acreditar que tudo é simples, o que acaba iludindo muitos e destruindo livros. O prosaico deve ser a representação de algo complexo e, se assim for utilizado, como símbolo, pode ser um excelente esqueleto para uma grande obra. Marcel Pagnol, quando em seus romances descreve cenas inocentes de sua infância, o faz tendo ciência de que elas são um reflexo de algo que vai muito além de uma infância individual. A criança da Pagnol é o início, a descoberta, é o Big Bang, são as civilizações acontecendo sobre os restos e memórias de outros povos, é o sexo, o tempo e até a morte.
Não precisamos ser simples, por uma simples razão, a realidade é complexa, a obsessão pela simplicidade destrói riquezas e nos afasta do real. Se o homem que quer descobrir o que há embaixo da terra se contentasse com o que vê após a primeira pá retirada da terra, não haveria civilização. Ela e todas suas consequências existem justamente porque a curiosidade persiste, porque após mil pás a milésima primeira pode vir com cor e consistência diferentes. Há muita coisa mais interessante para se fazer do que ser feliz. E depois, aquilo que chamam de felicidade não passa de uma camada colorida sobre as águas escuras. Mergulhado nas cores, sentiremos o mesmo frio e estaremos sujeitos aos encontrões de barracudas e aos choques de peixes-elétricos. Aos poucos, as cores que encobriam a superfície da piscina infantil desaparecerão. Restará lá dentro nossa figura, envelhecida, comida pelas bordas e derretida por dentro, e os peixes sem rosto, os ariscos frutos do mar e suas ferroadas envenenadas, e a noite. Que desaba sobre o jardim sem luz e, silenciosa como o fundo de um oceano, apenas escuta o medo que exala da pessoa que insiste em permanecer naquele lugar anteriormente colorido.
Se esse é o destino cruel daqueles que buscam a felicidade, o outro, o daqueles que com ela não se importam e vivem para descobrir como funcionam todas as coisas não é mais luminoso. Os cavadores, depois de esgotarem todas suas energias cavando um grande buraco, percebem que não muito longe deles há outros, cujo buraco é mais largo e profundo. Mas afora esse detalhe não há diferenças, a terra é da mesma cor e as profundidades não trazem novidades. A única diferença em relação a esses outros cavadores é que eles, após muitos anos cavando, quebraram suas pás e tiveram de continuar com as próprias mãos. Então o jovem entusiasta percebe que muitos dos cavadores mais velhos perderam suas mãos escavando, e hoje possuem apenas tocos com ossos dos punhos expostos. Outros ainda arrastam os restos amolecidos de um ou dois dedos sem vida. Apesar disso, o ímpeto dos velhos cavadores é tão grande quanto o daquele que recebeu sua pá e está prestes a riscar a terra pela primeira vez.
Então o jovem curioso descobre que não conseguirá saciar sua sede por descobertas, e o que lhe espera é apenas um grande buraco igual ao que cava, apenas maior, e que acabará perdendo ambas as mãos para produzi-lo. Antes de concluir seu raciocínio, o jovem observa a sequência do que acontece com os cavadores veteranos. Após perderem as mãos, continuam cavando por muito tempo com os ossos, aos poucos esses ossos tornam-se quebradiços e já não servem mais para cavar. O cavador então perde a velocidade e o entusiasmo. Até que um dia para de cavar e não tira os olhos da obra de sua vida. Não encontra um sentido para ela. O que vê é um grande buraco vazio. Então, pela primeira vez desde que nasceu, ele dorme. Seu corpo adormecido escorrega pela terra e desce ao fundo do buraco. Não há luz. Parte da terra, que durante a vida escavou, lentamente escorre pela lateral. Até encobri-lo por completo. Eles ainda estavam vivos quando já tinham sido completamente encobertos.
Portanto, nenhum dos caminhos é feito de flores, e elas, quando aparecem, são lembranças de que as coisas sempre terminam. Mesmo assim é necessária uma escolha, e muita gente opta por cavar buracos. Alguns, após as primeiras pazadas, desistem e voltam para as piscinas coloridas. Outros demoram um pouco mais, mas as constantes promessas vazias dos torrões de terra acabam fazendo com que desistam. No meio do caminho voltam para as piscinas que também já perderam boa parte de suas cores. A sensação que os corrói é que desperdiçaram o melhor dos dois mundos e agora roem os ossos de suas escolhas. Mas há aqueles que mesmo conhecendo o destino dos cavadores seguem até o final. Mesmo sabendo que o dia de escorregarem vivos para dentro de suas obras se aproxima, mesmo assim, prosseguem. Seus olhos são curiosos e adorariam saber como seria a vista do fundo do buraco, como as nuvens se moveriam e de que maneira desapareceriam encobertas pela terra que escorrega da superfície.
E geração após geração o processo se repete. Há aqueles que depois de buscar um terceiro caminho esgotam suas forças e escorregam para um dos dois que existem. O universo estupidamente complexo não permite que conheçamos seus segredos e, talvez, nos julgando crianças universais, nos oferece apenas duas opções de brinquedos.
Livros são buracos. Obras de cavadores. Há livros de todas as profundidades e larguras. Os que parecem imensos e são apenas arranhões na superfície da terra, e aqueles que não chamam a atenção, por terem boca pequena, mas atravessam várias camadas de terra. Há livros de todos os tipos, assim como há mulheres e homens de profundidades diferentes. Livros são nossa maneira de permanecermos humanos por mais tempo e utilizando um espaço maior. No fundo, só o que desejamos é que todos os outros sejam menos, para que nós possamos ser mais. Movidos a um egoísmo viral. Eis o segredo de nosso sucesso. A espécie que mais se distinguiu na história da vida no planeta Terra guarda como principal trunfo exatamente o mesmo segredo de qualquer organismo monocelular. Somos muito menores do que acreditamos, mas isso não nos faz pequenos.
Possuímos consciências e, o mais importante, somos conscientes que elas, as consciências, existem. Então, a partir dessa constatação, abrem-se possibilidades. A primeira é a autodescoberta, a consciência mergulha em si para saber o que é e como funciona. A segunda é uma derivação da primeira, consciente, o ser descobre que está separado daquilo que não é ele mesmo. E que existe um infinito mundo ao seu redor, então o ser vai primeiro explorá-lo para descobrir como funciona e, em um segundo momento, descobrir se tudo aquilo que não é ele mesmo possui um sentido.
As possibilidades continuam a aparecer como estradas que se bifurcam: assim que determinou se o universo faz ou não sentido, o ser, a consciência, usa a mesma questão para descobrir se sua própria existência possui ou não, um sentido. Mas como a resposta sobre o universo não foi conclusiva, o mesmo se repetirá quando pensa sobre si mesmo. Alguns palpites, muitas dúvidas, nenhuma determinação. A consciência, a essa altura, ainda não desenvolveu a capacidade de criar dogmas, e com uma pureza infantil, quando não consegue responder, apenas deixa os espaços em branco. E é o que acontece, sem respostas sobre si mesmo e sobre o universo.
É aí que começa a se moldar a figura humana como conhecemos hoje. A honestidade pueril do homem pré-civilizatório, após deixar perguntas sem resposta, cria um espaço que precisa ser preenchido. Para isso foi necessária a criação da civilização. O homem passa a contar com seu semelhante para ajudá-lo em uma missão, responder às duas grandes questões, que deveriam ser respondidas pelo indivíduo e não pelo grupo organizado deles. Como os indivíduos pouco conhecem de si mesmos, as dificuldades de comunicação entre eles são enormes. Os idiomas não são suficientes para que a humanidade se compreenda, as palavras não possuem os mesmos significados para cada indivíduo. A confusão impera em um mundo que se organizou em uma civilização justamente para compreender melhor a si mesmo e ao universo. Os espaços permanecem em branco, a falta de diálogo impede que as questões sejam respondidas, pois a capacidade das consciências não são somadas. Encham um estádio de futebol com gênios e teremos uma coletividade medíocre.
O caos se instala, os jogos de domínio e manipulação espalham-se sobre o mundo. O homem descobre que uma das maneiras mais eficientes de dominação seria conseguir responder duas grandes questões. O dono do mundo seria aquele que conseguisse responder duas questões. Mas a dúvida não pode estar presente. Quem afirma que conhece a verdade deve possuir apenas certezas. Nasce o mito.
A história de sua reprodução e de suas imensas consequências é assunto muito longo para ser tratado aqui. Mas adianto que a civilização foi construída em cima do mito, que em última instância, foi uma tentativa fracassada de responder às grandes perguntas. O fracasso em conseguir respondê-las com verdade transformou-se no maior sucesso da história em termos de dominação e poder. Diante do mito não há racionalidade. Existe obediência, e uma civilização, principalmente na fase em que se encontra, não precisa de investigadores curiosos, mas de carneiros obedientes. E é o que fomos por milhares de anos. E continuamos sendo. Apesar da tecnologia e da ilusão de modernidade (sim, porque no fundo, todas as épocas se julgaram o ápice, o ponto de mudança, uma virada de página, por que a nossa seria diferente?), ainda vivemos as consequências da falta de respostas às grandes questões. Assim como o homem, o vazio também se utiliza da tecnologia para espalhar com maior eficiência seus tentáculos. E da mesma forma que nunca na história, tanta informação esteve ao alcance de tanta gente a um custo tão pequeno, em nenhum outro período, tão pouco se aproveitou daquilo que está disponível. Mas essa é apenas uma constatação insignificante, a mais grave, é que em nenhuma outra época tanta gente perpetuou a própria infância até idades provectas. O comportamento infantil tornou-se uma maneira de viver, uma ideologia. E a sociedade facilita cada vez mais a perpetuação do infantilismo, criando recompensas de toda ordem, principalmente financeiras, para aqueles que adotam esse estilo de vida.
Novos mitos, menos sangrentos e pesados, são criados para satisfazer as exigências desse mundo. As dores, mortes, os grandes julgamentos e ameaças são embalados em papel celofane de cores vibrantes. Os medos e escuros são extintos por decreto da sociedade, que não dormirá mais, viverá 24 horas por dia, e se algum dia perder a consciência e mergulhar no mundo dos sonhos, eles serão todos imunes a sofrimentos.
Mas abster-se de sofrer também cobra seu pedágio. Para que nosso canal lacrimal seja definitivamente drenado, nossa alma perde as luzes que fazem com que nossos olhos brilhem no escuro. Uma troca, entregamos algo e recebemos um anestésico que evitará as dores mais agudas. Mas o que será essa matéria de troca? É aquilo que mais nos aproxima das respostas que ninguém consegue dar. Então é algo que paradoxalmente possui muito e nenhum valor. Ao mesmo tempo em que não serve para nada de prático, nos aproxima daquilo que de mais importante existe. E essas duas realidades acontecem ao mesmo tempo. Aqueles que continuam sonhando em obter grandes respostas, guardam essa substância misteriosa em algum lugar secreto e a valorizam como um tesouro. Os outros a consideram como algo sem nenhum valor, e até um empecilho para que a pessoa atinja seus objetivos práticos.
Mas, é aí que vem a questão mais interessante, esses grãos inexistentes, essa riqueza e lixo, não poderão jamais ser completamente abandonados ou plenamente adotados por qualquer ser humano. Sempre, seja qual for a pessoa, escolherá uma porcentagem de cada lado, que variarão imensamente, mas nunca haverá unanimidade, porções do exato oposto também serão carregadas em local secreto e seguro. E isso se chama condição humana. Em nosso percurso, na direção daquilo que consideramos a glória, carregamos nossos próprios obstáculos e, à medida que avançamos, os vamos espalhando pelo percurso. Os finais são sempre marcados por sabores amargos e pelo gosto do arrependimento.
Mas, de fato, não há razões para isso, visto que, qualquer que fosse a decisão tomada, o sentimento seria o mesmo. Não é apenas a falta das grandes respostas que forja nossa condição humana. Nem a incoerência de ser ou pelo menos, se acreditar ser uma consciência individual e estar sujeito a paradoxos que, às vezes, tornam nossos mais legítimos e vigorosos esforços, atos patéticos e desprovidos de sentido. Há outro fator, algo que pode acontecer em uma noite quente de verão enquanto todos dormem e um vento sopra à noite, sem testemunhas. Pela manhã, perto de uma velha árvore, alguém perceberá várias folhas caídas, depois levantará a cabeça e verá muitas outras sendo movidas por uma brisa matutina. Então chegará à conclusão de que aquelas folhas caídas foram derrubadas durante a noite, mas que um número muito maior de folhas ainda estão ligados àquela árvore. Essa diferença entre folhas caídas e as que continuam presas à árvore se chama: tempo. E é ele a grande cela que limita a amplitude dos movimentos humanos.
Livros são machados. Com eles tentamos rasgar a grande tela escura que nos envolve. O tempo não consegue penetrar dentro das páginas de um livro. Hans Castorp e Emma Bovary terão sempre a mesma idade. Essa é uma pequena vitória contra a grande força do universo. A maior ao alcance do ser humano. Essa é a maior razão pela qual escrevemos livros, uma vitória sobre o tempo e por consequência, sobre a morte. Mas, apesar de Hans e Emma não terem suas peles vincadas pelos anos, um dia as páginas que os abrigam amarelarão. E pouco importa se o suporte mude, e tudo caiba dentro de um arquivo digital que flutuará no espaço sem localização definida. O amarelo não consumirá as páginas mas a ideia da existência de Emma e Hans. Em um futuro eles serão esquecidos e depois desaparecerão também de qualquer suporte. Mas isso não terá importância, pois eles viveram por muitos anos e espalharam suas consequências por um universo que jamais voltará a ser o mesmo. Mesmo mortos e esquecidos eles viverão dentro de outros personagens que serão seus bisnetos. E será que o mesmo não acontece também com um homem ou uma mulher quaisquer, sobrevivem em seus descendentes distantes, mesmo quando nada do que viveram ainda exista?
Talvez, parte de nossas memórias possam ser transmitidas. Nossas dores, então, nossas alegrias e os momentos de desespero que nos parecem tão agudos e inéditos, já teriam sido experimentados por gerações anteriores? Seríamos então, somente elos em uma longa corrente, que conhecerão apenas o mesmo que seus ancestrais e sucessores conheceram e conhecerão? E o que dizer dos personagens, quem serão o bisavô e o bisneto de Emma? Se vida e arte se parecem e, aparentemente, funcionam de maneiras parecidas, o quê os distinguiria? O que tornaria a arte uma expressão que ultrapassa a camada biológica e confere a seus praticantes, a pequena eternidade ilusória a que os não artistas não têm direito?
Difícil questão, mas vamos lá, essa parte do livro é feita para tentar responder questões, o capítulo anterior e o que virá depois servirão para espalhar perguntas que ficarão sem respostas. A pequena eternidade nasce da experimentação diária, nasce do olho agudo que descobre repetições na maneira de viver e as transforma em palavras. Nasce da mistura da ideia com a constatação, do desejo com o arrependimento. A contradição não é sinônimo de destruição, os opostos que se encaixam, às vezes, também se rejeitam. A arte é feita de tudo isso e também de muitos contrários. E a literatura faz tudo isso se utilizando do código que criamos para reconhecermos o mundo. E que é falho e, mais importante, dúbio, por isso mesmo, imensamente rico. Portanto às vezes, ou quase sempre, o mais importante é aquilo que não foi dito. Da mesma forma que, em uma noite estrelada, quando nos deixamos levar pelo encanto das luzes e da eternidade, e acabamos formulando algumas ideias sobre a abóboda celeste e suas consequências, o mais importante não são essas pequenas conclusões a que chegamos, mas o mar negro que, a partir daquele encontro, agita-se em nossa alma, e para sempre nos molhará com suas ondas densas.
Um homem ou uma mulher que possuem dentro de si esta substância análoga ao petróleo, que se move de um lado para outro, bloqueando luzes ou refletindo escuros, não suportará viver no mundo das certezas, não aceitará a busca da felicidade, será uma pessoa-rã ou uma pessoa-mergulho, e esse gênero de humanos não tem parada, não se satisfaz com objetivos ou comemora glórias, para eles nada possui uma linha de chegada. Tudo, inclusive o movimento, é um eterno movimento, uma vibração sem fim, na qual sua própria consciência, e a roupa que veste, e que se chama personalidade, são elos dessa imensa corrente, cujo fim está à mesma distância do começo.
Romances continuarão a serem escritos, mas só sobreviverão aqueles que contiverem dentro de si aquele estranho petróleo que modifica luzes, cores e consistências, e que por essa razão se parece com a palavra, que também pode ser muitas coisas e combinar-se, construindo outras ainda mais distantes. É no mais sólido e milimétrico cotidiano que se manifesta a maior grandeza do inusitado. O escritor é aquele que tem olhos, nariz e ouvidos abertos para perceber o minúsculo rinoceronte plantado no coração da sala de espera de um dentista. Assim que o enxerga, entre as revistas de fofoca destinada àqueles que esperam, o artista primeiro o observa com cuidado. Com pouco mais de um centímetro de comprimento e altura, repara em sua minúscula cabeça com chifre, e apertando os olhos, consegue ler na expressão do animal, que ele está ainda mais surpreso do que o homem, com sua presença.
O artista não quer feri-lo e hesita em abandoná-lo onde está, no meio de revistas, talvez alguém possa esmagá-lo sem perceber sua existência. Mas, ao mesmo tempo, não quer retirá-lo dali, pois por mais estranho que possa parecer, aquele parece ser seu exato habitat natural. O pequeno animal enfia-se entre duas páginas da revista parecendo estar em busca de privacidade. O artista viola seu refúgio e consegue ver em seu minúsculo rosto uma expressão que parece estar entre a raiva e a tristeza. Observa enquanto a pequena fera caminha com dificuldade por sobre o retrato de alguma subcelebridade veraneando em uma ilha paradisíaca.
Aquele consultório, de fato, não possui dentista. Ele nunca aparecerá para chamar o homem que contracena com o pequeno rinoceronte. Atrás da porta branca, que deveria abrigar o consultório, não há nada, da mesma maneira que nada havia antes da criação do universo. O estranho cenário, em que artista e animal percebem as existências alheias, e cada um, ao seu modo, se posiciona a esse respeito, ocorre após eles já terem percebido a própria existência e emitido algum juízo de valores sobre essa constatação.
Só escreve ou cria aquele que sabe que existe, e decidiu que essa condição significa algo. Não importa o que seja. Identificando nossas imagens no espelho, abrimos a porta para que possamos reconhecer os outros e, em um primeiro instante, opinar sobre a significação daquele que não é você mesmo. E em seguida, após os pés estarem bem postados no chão, e os cheiros começarem a arrastar memórias e misturar realidades, então o artista, imbuído pela exata mistura de dores e prazeres, constrói seu mundo, começa plantando árvores de realidade (mesmo que ela, a realidade, seja habitada por rinocerontes do tamanho de um grão de uva), depois prega tábuas durante noites insones até que seu mundo faça um sentido (pelo menos para ele). Feito isso, é hora de abrigar-se à sombra das palmeiras e assistir à vida de sua autoria. Mas apenas por alguns instantes, pois ainda há muita vida que não existe querendo sentir as lambidas do sol.
E elas, as vidas que não existem, manifestam-se em número infinitamente maior do que aquelas que floresceram. Permanecerão flutuando em um mar sem bordas, eternas possibilidades não realizadas, apenas simbolizadas em outras histórias que as representam. Mas sem jamais conhecerem luzes, calores ou dores, apenas quietas em um quarto escuro à prova de tempo. Serão as alegrias e dores de artistas, que acordam com esperanças de possuí-las entre os dedos, mas morrem de mãos vazias.
Nunca teremos aquilo que desejamos. Essa condenação nos afasta de grandes males, por isso o artista, destinado a não descortinar a realidade escondida, transforma-se em um relojoeiro que, com paciência, deve encontrar as engrenagens e, lentamente, as organizar. Descobrindo com a prática, qual delas é responsável por determinado movimento, e como o conjunto delas faz com que a máquina funcione. Com os primeiros ruídos organizados do relógio, sua obra ganha vida.
Então alguém pode afirmar: “Eis sua vitória, a obra completa é sinal de que derrotou os obstáculos e construiu um sistema que poderá ser utilizado por outros, que por isso talvez, percam menos tempo tentando encontrar suas próprias engrenagens para fazerem funcionar seus relógios.” Bela dedução, mas o mundo é muito mais complicado do que isso. A obra terminada, da qual o artista deve se desprender, também serve de algema. Estamos, para sempre, presos a nossas atitudes. Somos suas consequências. O relógio que montamos, assim que estiver pronto, inicia a contagem de nosso tempo, aquele que nos encerra em uma jaula. Somos prisioneiros de nossas mais legítimas forças e atitudes. Quanto mais nos orgulhamos de nossos feitos, maiores serão nossas restrições.
Paradoxos. Sem eles a vida seria muito mais simples. Mas infelizmente eles estão por toda parte. Devem possuir alguma função, que ainda está longe de nossa compreensão, então, por enquanto, os enxergamos apenas como obstáculos. Não são apenas pedras que nascem no meio de uma estrada, das quais com um pouco de jeito podemos desviar. Vêm em vários modelos e potências, mas há alguns em que, se há pedra, não existe estrada, ou então, se há pedra e estrada, não existe ninguém que possa trafegar pela estrada ou perceber a existência da pedra. E as coisas não param por aí, há paradoxos em que a oposição ao que existe consiste justamente em não haver qualquer possibilidade de contrário. Nesse universo estático, unânime, e a prova de tempo, não há escapatória, tudo o que existe está condenado à existência. Por todo o sempre.
E esse é apenas mais um dos modelos de paradoxo. É por isso que o artista, assim que termina sua obra, e percebe que de alguma forma, apesar de ela representar muita coisa, muitas outras ficaram de fora, e que há incoerências naquilo que foi dito, ele, mesmo sabendo que não importa qual seja sua próxima tentativa, acabará sempre repetindo o velho modelo, o repetirá, e o orgulho inicial derreterá diante da percepção das falhas. Ainda assim ele inicia o novo projeto com o coração inflado por um entusiasmo que a razão sabe vazio. E é nesse exato instante que ser artista se confunde com ser humano.
Somos os artífices do frágil. Maçã cortada que escurece. Lutamos contra o nada, o sabendo vencedor. Mesmo assim precisamos ter paz de espírito para organizarmos ideias, localizarmos direções e construirmos um plano mais ou menos coerente. Mas mesmo a coerência envelhece rapidamente e seus podres se chamam: ridículo. É preciso não se envergonhar deles, pois pelo menos são tentativas, e já que tudo caminha na direção do nada, tudo aquilo que for algo diferente dele é interessante, pois ele, o nada, já temos garantido, para sempre.
O ridículo é invisível diante de um espelho, mas é facilmente detectável em nosso vizinho. Nossos próprios apodrecimentos são as marcas da vida, enxergamos uma coerência naquela desagregação, mas ela parece aleatória e gratuita quando impressa sobre o rosto ou a alma alheia.
Somos todos absolutamente sozinhos. As vozes que escutamos ao redor se preocupam apenas com si mesmas, e não há laço de sangue ou sentimento capaz de inverter essa equação. Somos apenas nós contra a eternidade, e ela é muito maior do que nós. Essa é a realidade de todo homem e mulher. A grande questão humana é: daremos ou não alguma resposta a essa condição imutável? Caso decidamos dizer algo sobre nosso embate contra o eterno, de que maneira faremos? Proporemos alguma espécie de rebeldia, ou uma aceitação, nos dissolveremos dentro daquilo que nos contém? Ou então faremos o contrário, dentro do nada, seremos a primeira condensação de substância?
As perguntas estouram como pipocas: Qualquer dessas atitudes terá alguma influência sobre nossa solidão? Não seria o homem, em sua mais pura forma, destinado a ser só, e em seu mais elevado grau evolutivo, não sofrer por essa condição?
Chega. Perguntas em demasia são como construir um prédio apenas empilhando tijolos sem utilizar cimento, e torcendo para que nunca vente. Aliás, já está na hora de trazer de volta nossa aldeia, o bosque de laranja e os sonhadores. Mas assim como é desagradável acordar alguém de sopetão, não precisamos fazer isso sem preveni-los de que voltarão à cena. Portanto aqui vai um aperitivo, mesmo porque o texto foi interrompido justamente durante um sonho: e a mulher que sonhava com um louva-a-deus, passou a ver o mundo com os olhos do inseto e durante o estranho sono dele, sonhou…
Pronto. O outro lado já foi avisado de que em breve iremos voltar. Não respondi a nenhuma questão importante (o que foi ótimo), de resto, se alguém sentiu um estranhamento, isso foi bom. Reparem mais nas suas sombras, percebam como elas são cheias de filhotes e sobrinhos, sombras idênticas só que menores, e outras que guardam algumas semelhanças e muitas diferenças.
Mas isso não é tudo, aliás, é apenas o começo.
Guido Viaro é um escritor, cineasta, administrador cultural e palestrante nascido em Curitiba em 1968. É autor de 22 romances dentre eles o livro O Cubo Mágico, premiado com o primeiro lugar na categoria romance no Concurso Biblioteca Digital 2020, da Biblioteca Pública do Paraná. É também autor do ensaio filosófico O Labirinto Espelhado e de quatro filmes entre ficção e documentários. Desde 2009 administra o Museu Guido Viaro, entidade cultural que tem por missão divulgar e preservar a obra de seu avô, o pintor italiano Guido Viaro. No museu as atividades artísticas não se atém à pintura, mas englobam música, cinema, literatura e teatro.
